Arquivo do autor Joao Meixedo

Correr 100 km

Autor: Joao Meixedo  /   Janeiro 09, 2016  /   Publicado em Slider, Treino  /   7 Comentários

correr 100 kmSejamos realistas, não é normal correr 100 quilómetros seguidos. Para si pode até ser, mas no momento em que decidir contar aos seus amigos que vai cumprir essa distância mítica, prepare-se para ser imediatamente adjectivado de forma muito pouco elogiosa. Ler Mais

Skechers GoRun Ultra Road – um salto evolutivo

Autor: Joao Meixedo  /   Dezembro 26, 2015  /   Publicado em Slider, Testes (reviews)  /   Sem Comentários

sckechers_gorun_ultra_roadO indisfarçável entusiasmo com que habitualmente recebemos umas novas sapatilhas para teste deve-se normalmente a uma série de factores, de onde se destaca obviamente a curiosidade acerca da performance.

Confessamos todavia que, desta vez, não era tanto a expectativa relativamente às características técnicas deste novo modelo que nos fazia ansiar por abrir a caixa. Temos já um relativamente aprofundado conhecimento acerca dos diversos modelos de corrida da marca Skechers, para sabermos que podemos sempre contar com um calçado leve e confortável, dispondo de um elevado nível de amortecimento.

A curiosidade prendia-se com o facto de querermos confirmar ao vivo as primeiras impressões estéticas com que tínhamos ficado ao consultarmos o catálogo; e na realidade não nos desapontaram: trata-se de um belo modelo, desenhado em arrojados tons alaranjados.

Uma vez calçadas e levadas para a estrada depressa no esquecemos das apreciações estéticas, pois o que constatamos foi que esta marca ainda nos consegue surpreender: a leveza e o conforto mantêm-se, mas o amortecimento deste modelo de pisada neutra resulta muito melhorado em relação, por exemplo, ao modelo GoRun Strada, que já de si oferece um excelente comportamento neste campo.

Outra característica que não é tão simpática de aferir, mas que faz necessariamente parte de um test drive, trata-se de perceber que esta sapatilha é muito respirável não originando transpiração no pé nem odor no calçado.

Após três treinos e apenas cerca de 40 quilómetros percorridos é ainda cedo para afirmar com certeza, mas a verdade é que não se consegue detectar qualquer tipo de desgaste, o que a confirmar-se será um grande salto evolutivo numa característica menos abonatória comum à maioria dos modelos Skechers. Na verdade, a sola dispõe de sensores distribuídos ao longo da sua superfície que apesar de terem uma fina espessura são constituídos por um material mais resistente, que, para além de prevenir o desgaste, aumenta a aderência ao solo e impede, ainda, que elementos estranhos se cravem e incrustem na sola.

Em suma, trata-se de um modelo que proporciona uma passada suave e segura, com boa tracção, mantendo as tradicionais características abonatórias de marca e deixando boas impressões quanto à melhoria da durabilidade.

Numa palavra: evolução.

Banco BIC – 24 h Portugal visto por dentro

Autor: Joao Meixedo  /   Outubro 12, 2015  /   Publicado em Crónicas, Slider  /   2 Comentários

vitor_luis_meixedoToca o despertador. Apesar das pálpebras cerradas vejo com nitidez o filme que começa a passar à frente dos meus olhos. No silêncio de um despertar supostamente rotineiro, emociono-me.

No dia anterior, após ter lutado com todas as minhas forças para evitar adormecer ao volante, numa curta viagem de 40 quilómetros a meio da tarde, só tive tempo de tomar um duche e seguidamente arrastar-me até à cama. Não seriam ainda 7 da tarde.

A noite que a precedera tinha sido dormida muito rapidamente. Lembro-me de ter passado pelas brasas sentado no padock, embrulhado num saco-cama, enquanto ia trocando palavras entorpecidas com atletas que se revezavam e outros que faziam curtas pausas.

Na noite anterior a essa havia-me esquecido de jantar e não teria fechado os olhos por mais de duas horas. Eram 4 da manhã e ainda eu andava pela pista a verificar estacas e a esticar fita de marcação, com a ajuda dos amigos Armandino Leite e José Soares – um trio tão improvável quanto perfeito.

Os dias que antecederam o fim-de-semana da prova foram também eles desgastantes, tendo tido necessidade de encaixar nos rotineiros deveres profissionais e afazeres familiares os últimos detalhes para que tudo corresse bem na segunda edição das pioneiras 24 horas de Portugal a correr. Centenas de quilómetros percorridos dentro da cidade do Porto, dezenas de horas de contactos telefónicos e um sem fim de linhas escritas, em mails e textos variados. Deslocações a Vale de Cambra, entrevistas, reportagens, interacções com entidades oficiais, autoridades, patrocinadores, fornecedores e atletas. Horas e horas de conversas telefónicas e presenciais com o meu parceiro de aventura e bom amigo Vítor Dias. Tudo acertado ao pormenor.

A acção começara antes da acção. Com uma semana de antecedência, o pessoal da Câmara Municipal de Vale de Cambra, sob a batuta do indispensável Miguel Alves, iniciara a montagem das diversas tendas de apoio e na véspera da prova já nós tínhamos o cenário afinado, com a ajuda da Ana, do Gonçalo e do Francisco, dos inestimáveis companheiros de Retorta e da equipa do banco BIC.

Quando no sábado o dia amanheceu soalheiro, já nós tínhamos o duche tomado e o pequeno-almoço no estômago havia umas boas duas horas. Era tempo de rever procedimentos e fazer um ponto da situação, distribuir tarefas e ocupar posições.

O meio-dia chegou sem aviso prévio e os atletas lá partiram. Recordo o calor e o vai-e-vem entre o padock e o extremo oposto do parque, com o cesto da bicicleta carregado de garrafas de água. Havia música e festa. Lembro-me dos bombos e do palco sempre animado com aulas de variadas de ginástica e dança. Recordo o cair da noite e da banda a tocar dentro da tenda abrigo. Do frio que se instalou e da humidade que persistia. Do silêncio sepulcral no acampamento e do dia que tardava a clarear. Das conversas entrecortadas por um grito de incentivo aqui e ali e do sol que finalmente nasceu. Do final da prova. Dos vencedores, que foram muitos. Do João Oliveira e da Carmen em apoteose. De abraçar emocionado a Analice pedindo-lhe que voltasse em 2016. Dos abraços. Muitos. Dos amigos todos, uns antigos e outros que passaram a sê-lo. E da lágrima que na altura limpei e que agora volta e escorrer.

Obrigado a todos.

Portugueses venceram o Banco BIC – 24 h Portugal

Autor: Joao Meixedo  /   Setembro 24, 2015  /   Publicado em Notícias, Slider  /   1 Comentário

24h_portugal_finalDecorreu no passado fim-de-semana a segunda edição da corrida de resistência Banco BIC –  24 h Portugal, que juntou, no parque da cidade de Vale de Cambra, três centenas de atletas provenientes de oito países.

O evento foi composto por uma prova de longa duração: 24 horas a correr, e uma de mais curta duração: 3 horas a correr. Neste ano houve uma forte aposta na internacionalização, tendo estado presentes, para além de Andrés Vasquez, o vencedor da primeira edição, os recordistas nacionais de Espanha, Bélgica, Luxemburgo e Letónia. No entanto, o grande vencedor foi o português João Oliveira que percorreu 224,7 km. Seguiram-se José Silva e Nelson Constantino, com 210 e 205,8 km, respectivamente. A vencedora feminina foi Carmen Henriques, com 172,2 km, seguida de Flor Madureira e Mariana Ballester, com 163,8 e 153,3 km, respectivamente.

A par com o salto qualitativo, patente nas marcas atingidas, a duplicação do número de atletas face à edição do ano transacto, representa igualmente um crescimento quantitativo, começando esta prova a destacar-se já a nível internacional. Os 71 atletas que terminaram a prova em solitário, percorrendo uma distância superior à maratona, permite colocar as 24 horas de Portugal em 28º lugar a nível mundial e em 17º lugar a nível europeu.

Responsáveis locais salientaram o sucesso da iniciativa, patente no notório impacto económico deste evento na região e na animação da cidade durante o fim-de-semana, tendo a população afluído massivamente ao local da prova para participar na festa mas também para usufruir de aulas de ginástica e de dança, e onde se pode ainda assistir a um concerto de música ao vivo ao final do dia de sábado.

Da parte dos atletas internacionais ouviram-se os mais rasgados elogios, tendo todos partido com promessas de regresso em 2016.

Resta acrescentar que, no domingo de manhã houve uma caminhada solidária cujo montante recolhido (875€) reverteu na totalidade a favor da Liga Portuguesa Contra o Cancro.

Azores Trail Run por dentro e por fora – crónica de um ansiado regresso ao triângulo

Autor: Joao Meixedo  /   Junho 06, 2015  /   Publicado em Crónicas, Slider  /   Sem Comentários

capelinhosSentado em busca de concentração sinto a mente vaguear e com ela aparentemente também o corpo. Sinto-o balançar. Sinto-me balançar. Olho as pernas e confirmo a imobilidade.

Desisto. Entrego o comando. Estou na Caldeira a marcar o trilho debaixo de um cerrado nevoeiro. Levanto os olhos e não vejo a bandeirola seguinte. Volto a cabeça em direcção a um ruído de passos e adivinho o Delcio num vulto que a pouco mais de três metros se aproxima, carregando um molho de canas.

Volto a sentir o balanço das pernas e estou agora em alto mar na companhia de inestimáveis companheiros capitaneados pelo comandante Hélder Bacalhau e contramestre Dulce: a melhor, e seguramente a mais acolhedora, dupla de pescadores do Faial. Sinto a maresia enquanto perscruto o horizonte em busca de um bando de cagarros ou de um grupo de delfins, seguros indicadores da presença de pescado. Descanso as pernas sentando-me agora na proa e quase tocando os golfinhos que nos acompanham. Os salpicos passam a chuveiro, mas eu recebo-o como poção mágica destinada a contrariar o sono de uma noite dormida à pressa entre as 2 e as 6 da manhã. Estendo-me cerimoniosamente no convés tentando distender os músculos e aquecer as carnes aos primeiros raios de sol da manhã.

Fecho os olhos e passo o dia anterior à pescaria em revista, recordando a beleza e a dureza dos primeiros quilómetros, percorridos a ritmo controlado, contrastando com a impaciência de atletas mais jovens que atacavam as subidas com se o mundo estivesse a fugir-lhes debaixo dos pés, para logo em seguida se lançarem furiosamente ladeira abaixo.

Lembro-me de alargar a vista até ao horizonte e de ficar inebriado com o verde das ímpares encostas do Faial. O farol da Ribeirinha lá ao longe e o Pico no horizonte, do outro lado do Canal, sempre envolto numa misteriosa e irrequieta bruma que no seu jeito provocador ora destapa um flanco para nos revelar mais uma porção do contorno desta magnífica montanha adormecida, ora cobre um outro fragmento que ainda há pouco estava perfeitamente a descoberto.

Revivo rostos e conversas, com o Vitor e os Migueis como denominador comum, donos de impagáveis humor e boa disposição com que tive o privilégio de uma vez mais partilhar uma aventura do primeiro ao último metro.

Atacamos agora a subida à Caldeira mais parecendo um grupo multicultural de excursionistas que vai rindo e trocando experiências à medida que se vai debatendo com estes longos e íngremes “esses” que nos despejarão na bordadura do vulcão. Mais do que demonstrador de boa disposição, o riso é sinónimo de uma felicidade sem igual.

Revivo a chegada ao abastecimento que antecede a bordadura da Caldeira, onde somos saudados como heróis, como se a prova estivesse já concluída. Gente boa, muito boa, ao longo de toda a prova. Uma organização inexcedível, composta por voluntários de todas as idades. Rostos que jamais esquecerei. Despedimo-nos deste como de todos os pontos de abastecimento, com a habitual exclamação do Miguel: “vamos embora, se não há cerveja não estamos aqui a fazer nada”

Cerveja não faltaria à chegada. Nem cerveja nem uns magníficos carapaus de escabeche, com que eram presenteados todos os atletas assim que cruzavam a linha de meta, após mais uma épica chegada aos Capelinhos, para onde o meu pensamento me transporta de imediato, e onde me vejo a cortar a meta na companhia dos três companheiros com quem partilhei a aventura. Do lado de lá da linha estão os incansáveis Mário Leal e João Melo, os grandes obreiros deste evento de excelência a quem manifesto a minha gratidão por me concederem o privilégio de uma vez mais fazer parte desta tão especial família, recebendo os atletas um a um. Recordo o mergulho nas frias águas do Atlântico poucos minutos após a chegada, mas apenas após ter aviado uns quantos carapaus regados com cerveja.

A noite, terminada no Peter’s, foi destinada a celebrar a façanha desse dia: quarenta e oito quilómetros de permanente celebração do privilégio de estar vivo, ao longo da mais bela prova em qua alguma vez participei. Oito horas para percorrer 800 mil anos desde a parte mais antiga do Faial até à mais recente da Europa.

Foto: José Macedo