A culpa é do árbitro

Autor: António Pinheiro  /   Abril 27, 2021  /   Publicado em Passa-se isto assim assim

A culpa é do árbitroJá se sabe… no futebol, quando a coisa corre mal, a culpa é do árbitro. É mais fácil culpar o homem do apito do que assumir que a estratégia para o jogo correu mal, ou que o craque por quem pagamos uns bons milhões de euros, afinal, não é assim tão craque. Ou, simplesmente, que o adversário foi melhor.

Mas, o síndrome “a culpa é do árbitro” transborda para outras áreas da nossa vida.

Aqui há anos fui convidado pelo INATEL para integrar o júri da fase regional do seu Concurso Nacional de Música. A nossa missão era apurar um representante do Distrito do Porto para a fase nacional que iria decorrer mais tarde.

Eu e mais dois colegas tínhamos apenas duas actuações para avaliar. A tarefa foi fácil, porque uma das actuações foi desastrosa e a outra foi impressionante (aliás, viria a ser a grande vencedora na fase nacional).

A primeira actuação foi cheia de erros técnicos, qualquer leigo iria perceber que estava a correr mal. A segunda foi irrepreensível, a todos os níveis. Deixou-nos, ao júri, de boca aberta. Repito: viriam a vencer a fase nacional.

Mesmo assim, apesar da diferença da água choca para o vinho das melhores castas, quando anunciamos o vencedor, os derrotados ficaram a olhar para nós com uma cara de escândalo: “Como é possível? Não pode ser… Naaaahhhh”

Imagino o que terão dito sobre nós no regresso a casa, algo resumido a “o júri não percebe nada de Música.”, com algum vernáculo pelo meio.

Este tipo de mentalidade “a culpa é do árbitro” é recorrente e irritante, principalmente nos concursos de talentos televisivos e similares. “A minha Soraia Doroteia é a melhor cantora do mundo e arredores. É a Beyonce de S. Firmino! Aqueles «júris» é que não percebem nada de Música”.

Pobre Soraia Doroteia, que cantou num Inglês de Madagáscar, semitonou 50% das notas e acha que cantar bem é berrar. Nem reparou na Dulcelina Vanessa, que cantou afinadinha e até deu alguma interpretação às palavras que saíam da sua linda boca.

É certo que há muitas injustiças e condicionantes “obscuras” nestes concursos. Eu próprio, aqui há uns anitos, também dissertei publicamente sobre uma injustiça a que assisti num desses programas. Excelentes artistas são logo arrumados nas primeiras fases, sem se entender, às vezes, muito bem porquê… 

Talvez por isso, tenha desistido de os ver. Mas a verdade é que a maioria de nós não sabe lidar com a derrota e é preciso culpar o júri, o árbitro, a produção, os astros, a meteorologia, ou a Nossa Senhora dos Agapitos que, àquela hora, estava no “Face” a contar quantos “amens” foram dados numa foto de uma pobre criança com uma doença rara.

É sempre assim, mas as pessoas não aprendem e o meu feed das redes sociais continua inundado de indignados. “Então não é que o meu Jorge Miguel, o verdadeiro George Michael de Casal da Burra, foi eliminado? Ele que tem uma voz de anjo!” Exacto. Um anjo que se meteu nos copos quando se apercebeu que não tinha sexo.

António Pinheiro

Sobre António Pinheiro

Profissional de marketing, músico e corredor por prazer. Corre na estrada, no monte e de um lado para o outro na vida, atrás e à frente dos filhos.
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