O dia em que fiquei atrás do último

Autor: António Pinheiro  /   Março 10, 2021  /   Publicado em Crónicas dos Leitores, noticias
Tags: 43 km, abastatecimentos, ser último, trail

O dia em que fiquei atrás do últimoSenti que deveria ir em último, mais ou menos, a meio da prova, quando as distâncias se separaram. Deixei de sentir gente atrás de mim e de ver gente à minha frente. No topo de uma subida olho para trás e vejo, muito ao longe, a Sandra e duas camisolas vermelhas. “Os vassouras”, pensei.

Tive a certeza que era mesmo o último quando as camisolas vermelhas chegaram a correr ao abastecimento onde me encontrava a descansar e… a abastecer.

  • Fogo… o sr. obrigou-nos a correr!

  • Estava a ver que não o apanhávamos!

Não consegui dizer grande coisa, a não ser, perguntar pela Sandra.

  • Ah… ela ficou no abastecimento anterior, estava com muito frio e bastante encharcada. Decidiu abandonar por precaução.

Disse para mim que não iria chegar ao fim com aqueles dois estarolas. Mandei-me a correr.

Ganhava avanço, perdia avanço.

Olhava para a frente em busca de alguém. Ultrapassá-lo e deixá-lo entregue aos vassouras era toda a motivação de que eu precisava..

Mas eles vinham como carraças.

A prova entra num curso de água que, devido à chuva abundante daquela semana, estava com o caudal intenso, forte e rápido. Tinha que lutar contra a inclinação, a força e a velocidade da água. A dada altura, o meu pé escorrega e submergi completamente. Tinha agora que lutar contra o frio (era finais de Janeiro, inícios de Fevereiro) e o pânico de ter o telemóvel estragado.

Chegado a terra seca, a minha primeira decisão foi ligar para casa para me certificar do estado do telemóvel e aproveitar para galgar terreno enquanto os vassouras ainda se debatiam com a força da corrente. E foi aí que os comecei a ver: um, dois, três, quatro corredores.

“Já não vou ser o último…”

Estávamos perto do último abastecimento e eu estava decidido a parar apenas o tempo suficiente para abastecer de água. Para ajudar ao meu plano, alguém atrás de mim tinha virado na direcção errada, o que obrigou os vassouras a irem buscá-lo.

“Boa!”

Arranquei do abastecimento a correr sem pensar. Faltavam poucos quilómetros para o fim e eu estava cheio de força nas pernas e na cabeça. Olhava para trás e, se via os outros correrem, eu corria mais. “Não posso ser o último…”

Olho para o relógio. 40km. Só faltavam três para a meta. “3km não é nada…”

Comi o último gel, bebi o que me restava de água e isotónico. 

“Estranho… já se devia ouvir a música da meta…”

Continuei a correr, a descer…. Não era suposto, a meta até ficava num sítio elevado.

42km. “Só falta um quilómetro… mas…”

3km. A imensa descida termina e eu apercebo-me onde estou: a três quilómetros da meta e o que faltava era a subir. Estaquei. Só me apetecia sentar-me ali, chamar a minha mulher, que esperava por mim na meta, e ir-me embora. Soltei todos os palavrões e mais alguns.

Então, passaram todos por mim: um, dois, três, quatro… Não consegui reagir. Logo atrás vinham as camisolas vermelhas. Que raio de cor para equipar os vassouras!

Decidi arrastar-me até à meta sem lhes dirigir a palavra. Estava furioso, ao mesmo tempo, desanimado e frustrado. “Sim, sim… vai aqui connosco, já estamos a chegar… coitado, nem fala!” E ainda gozavam comigo.

Fui recebido em festa! O Director da prova veio cumprimentar-me efusivamente. 

  • Sei que não paguei o almoço… mas posso comer qualquer coisa? Estou esfomeado!

  • Claro que sim! Tens direito a tudo!

Sentei-me na tenda dos “comes e bebes”, com a minha mulher e a minha sogra ao meu lado, preocupadíssimas. Eu estava branco como a cera e enjoado. À minha volta ouvia “chamem um enfermeiro, o homem não está bem!”

Enquanto o diabo esfregava um olho, incrédulo com tudo aquilo, mamei um caldo de nabos, uma sande de porco e dois copos de vinho, sempre a maldizer a organização e a prova

  • Sou enfermeira. É o senhor que se está a sentir mal?

  • Obrigado… estou bem, estava só com fome.

  • Tem a certeza?

Gosto muito daquele trail. É aqui perto de casa, organizado por gente muito boa e prestável. Melhoram ano após ano. Nunca repetem o trajecto. Já participei em diversas distâncias e divirto-me sempre muito.

Quando a organização enviou o inquérito de satisfação sobre a prova, tive o cuidado de lhes dar os parabéns, mas alertá-los para o rigor nas distâncias. Mais quilómetro, menos quilómetro, é uma coisa. Três quilómetros a mais, para quem já correu quarenta e três… é martírio.

Foto: JR Fotografia

António Pinheiro

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Sobre António Pinheiro

Profissional de marketing, músico e corredor por prazer. Corre na estrada, no monte e de um lado para o outro na vida, atrás e à frente dos filhos.
Maratona de Helsinquia

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