Não corram, senhoras. É uma armadilha!

Autor: Paulo Jorge Dias  /   Novembro 09, 2020  /   Publicado em Mulher Corredora, Notícias
Tags: humor, mulher corredora

Não corram, senhoras. É uma armadilha!Estou sentado em frente ao ecrã do computador e sinto-me uma espécie de Rui Pinto da corrida. Sei a verdade, estou prestes a contá-la ao mundo, mas ainda me falta escolher o país da Europa de Leste onde me vou refugiar, quando esta gente toda vier atrás de mim para me bater.

Ora, a verdade de que vos falo é, afinal, uma mentira. A mentira que gentilmente vos vendemos com o fluir dos anos e que vos implantou a ideia de que correr vai fazer maravilhas ao corpo feminino. Lamento ser eu a dizer-vos, mas não vai, não senhora! Quando muito, o bem que a corrida vos faz, não chega nem para pagar metade das despesas do mal que vos vai trazer.

Sim, é certo que vão perder peso às pazadas. Dez quilitos vão à vida num instante, mas com eles vão também as unhas dos pés. Logo à terceira ou quarta corrida digna desse nome, as gloriosas extremidades coloridas que adornam os vossos delicados e enfeitiçantes pezinhos começam a saltar que nem pipocas.

Partem-se à média de uma por quinzena, a começar logo pela estrela da companhia: a unha do dedão. O que equivale a dizer adeus àquelas sandálias giras que levaram meses a namoriscar na montra até finalmente ficarem em saldo.

E quem diz sandálias diz qualquer outro tipo de calçado com salto alto. É que as lesões são como os impostos: inevitáveis e umas atrás das outras. Tendinites, fasceíte plantar, esporão do calcâneo, joanetes, todas elas altamente incapacitantes para o uso desse calçado elegante e pontiagudo que vos oferece de mão beijada centímetros a mais, um porte majestoso, um andar decidido e aquela ilusão vulnerabilidade ‒ “ai, que eu posso cair e preciso de amparo!” ‒ com que gostam de fintar a matilha de alfas.

Mas atenção que estas maleitas ainda dão para disfarçar com ais e uis, que nós, no lado masculino da mundo, sabemos bem a cabazada que vocês nos dão em matéria de resistência à dor: ele é parto, bolhas nos calcanhares, almoço de domingo em casa das sogras, por aí fora.

O pior é quando as lesões vêm por aí acima e acertam em cheio nos joelhos e ancas. Aí, meninas, o coxear é indisfarçável e com ele chegam todo o tipo de comentários vulgares e maldosos, do género “ai, fulano fez-lhe isto assim assim e agora ela tem um andar novo”. Eu não, que sou um lorde inglês. Mas os outros… cala-te boca!

E se isto não chega para vos afugentar de vez das correrias, então tenho uma combinação de palavras mágicas: rugas de expressão. Vejam bem, o único sítio onde as senhoras correm com um sorriso nos lábios é na publicidade à Evax ou a iogurtes com bifidus ativos. Na vida real, o esforço está escrito a letra maiúscula na cara de quem se faz à estrada e desafia os quilómetros. Junte-se a isso o sol impiedoso que não nos larga na época alta das corridas e fica-se com uma pequena ideia do lindo estado em que vão acabar os vossos, até aí, imaculados e cintilantes sorrisos. Podem sempre rezar uma Avène-Maria, mas nem a indústria da cosmética vos vale nessa hora de aflição.

E agora vem a pergunta do milhão de euros: como é que tudo isto passou despercebido por baixo dos vossos belos e bem maquilhados narizes? Graças à Conspiração, esse plano maléfico urdido no submundo da comunidade corredora, numa desesperada tentativa de atrair Marlenes, Vanessas, Sabrinas e Déboras a um mundo sobrepovoado de Simões, Barbosas, Peixotos, Hugos ‒ todos os grupos de corrida têm um, é de lei.

Mas quem os pode culpar, afinal? Domingo após domingo a pisar o negrume do alcatrão rodeados daquela massa indistinta de barrigudos, peludos, suarentos e barbudos do costume. Semanas a fio sem sequer o vestígio de rabos de cavalo a baloiçar alegremente de um lado para o outro, da brisa de suor perfumado que elas soltam à sua passagem, da delicadeza das pisadelas, do colorido das roupas e ‒ carne fraca, admito ‒ mais uma ou outra coisita a ondular quase imperceptivelmente dentro das leggings estreitinhas.

A vida pode ser um lugar profundamente sisudo quando escasseiam as janelas com vista para o lado agradável do mundo. É por isso que apelo a uma amnistia. Até porque, bem vistas as coisas, não foi a primeira ‒ e está longe de ser a última ‒ vez que um homem vos mentiu descaradamente.

E agora, se me dão licença, tenho um voo para apanhar. Se eu não vos fizer chegar sinais vitais nos tempos mais próximos, a password para os discos encriptados é…

* Declaração de interesses: Paulo Jorge Dias é um fervoroso seguidor das teorias de Psicologia Invertida.

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Sobre Paulo Jorge Dias

Escritor e jornalista, foi autor da Trombeta de Casal da Burra, um dos primeiros sites de humor em Portugal (2000). Trabalhou no Público, JN e SOL. Site oficial: Site Oficial:
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