Gatsby, meu cabrão, passaste-me a Covid!

Autor: Paulo Jorge Dias  /   Novembro 06, 2020  /   Publicado em Passa-se isto assim assim
Tags: livros, paulo jorge dias

Paulo Jorge DiasNão tens vergonha? Depois de tudo o que eu fiz por ti? Fui buscar-te àquela miserável pilha de papel onde te largaram ao abandono, ali entalado entre o “Ruca procura a sua meia” e uma porcaria qualquer do Nicholas Sparks.

Mais! Trouxe-te para casa e arranjei-te um lar, uma estante com belíssima exposição solar e melhor vizinhança (diz lá que o Huckleberry Finn não um é compincha 5 estrelas!?). E, mais importante ainda, dei-te o melhor que uma pessoa pode dar a um livro: atenção.

Eram às meias horas inteiras a tomar-te o gosto aos parágrafos, sentado à varanda, os dois ali aconchegados àquela chávena de café que me sabe pela vida, logo depois de almoço. Ou na esplanada da pastelaria, onde te folheio de nariz empinado, porque já me vais conhecendo e sabes que sou um peneirento de primeira e gosto de esfregar nas fuças do mundo inteiro que leio livros pomposos como este, que conta a tua história.

Tratei-te como um irmão e tu, o que é que me fazes? Pumba! Deixas-me aqui a espirrar e a tossir feito um tísico, ou pior, um “covidado”, essa espécie de leproso dos tempos modernos que é corrido à pedrada e enxotado com forquilhas a cada “atchim” ou “cof cof”.

Eu bem lhes digo que não é doença, mas antes obra dos ácaros, que são a espécie mais culta que há, porque se agarra aos livros com a mesma gana com que o Tom se atira à Myrtle. Mas o povo não quer saber. Exige sangue fresco acabado derramar, está sedento de cabeças a rolar e eu, como me dá jeito a minha, lá vou ter de lhes entregar a tua.

– Ó gente, afinal a culpa não é dos chinocas! O vírus passa-se é pelos livros, aqueles já com mais idadita, com páginas impressas naquele tom amarelo geriátrico.

Regue-se então tudo o que seja livro antigo com álcool gel e chegue-se lume até já não sobrar mais nada, só cinzas como as que submergem a garagem do enfeitado senhor Wilson. E de caminho, que se deixem arder junto com eles os alfarrabistas que ainda restam, que sempre dá um empurrãozinho ao mercado imobiliário, onde tudo vale mais do que uma miserável loja de livros, sempre às moscas.

Mas, alto lá, que eu estava a esquecer-me disto! Não tarda nada temos aí o verão de São Martinho e ainda nos arriscamos a chegar lume ao país de cima a baixo e, depois, lá se vão os livros, as castanhas, o vinho e sabe-se lá mais o quê.

Ainda por cima, estando nós tão portuguesamente refastelados na cauda das estatísticas de leitura, na Europa. Pelo sim, pelo não, mais vale é poupar os isqueiros, ensacar os livros e resolver o problema com uma cerca sanitária à volta de pessoas que lêem os clássicos da literatura. Contas por alto, devemos ser para aí uns quatro ou cinco mil.

Eu, por mim, não vos levo a mal que estendam o arame farpado à minha volta, desde que me vão atirando caixas de Kleenex, porque já vou na parte em que o Jay reencontra a Daisy e, não sendo eu homem para chorar com estes trambolhões do amor, confesso que o raio dos ácaros tem bom gosto.

Ao que parece, os bichitos encavalitaram-se todo neste capítulo, porque não se cansam de reler aquela coisa do “- Estou mesmo muito contente de voltar a vê-lo”. E eu, que às tantas sou tão tonto e tão sonhador como estes pobres ácaros, faço-lhes companhia e ficamos todos mais um bocado a olhar para as páginas, entre uma e outra fungadela.

Vá, não comecem com coisas, que eu se estou a choramingar é por causa da merda dos ácaros e das alergias. Não há cá sentimentalismos, que já saltitei meio livro e sei como é que aquilo tudo acaba. Spoiler alert: bang! splash!

Mas a pessoa fica sempre na esperança que desta vez seja diferente. Que os ácaros tenham reescrito a história de maneira a chegarmos à última página com um final feliz, em vez daquela velha e ressequida lição moral que já sabemos de cor e salteado. Que por mais volumosa que seja a fortuna acumulada, acabamos sempre com o saldo a negativo na hora de acertar as contas com o passado.

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Sobre Paulo Jorge Dias

Escritor e jornalista, foi autor da Trombeta de Casal da Burra, um dos primeiros sites de humor em Portugal (2000). Trabalhou no Público, JN e SOL. Site oficial: Site Oficial:
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