A corrida tem sempre música

Autor: António Pinheiro  /   Novembro 15, 2020  /   Publicado em Notícias
Tags: correr, correr com música, música, running

A corrida tem sempre músicaHá coisas que nos acontecem na corrida que são inexplicáveis. As imensas variáveis que compõem a equação de uma prova, por vezes, combinam-se de tal forma, que criam um acontecimento dentro do acontecimento, frequentemente efémero, outras vezes, perene na nossa memória de corredores e de seres humanos.

Aconteceu no Estrela Grande Trail, em 2018.

Andava eu “perdido” em plena serra, deslumbrado com aquela enorme massa de terra que se eleva em direcção ao infinito. Ao longe avistava a Torre, para trás ficava o verde, à minha frente, o branco. Aqui e ali já se avistaram pequenas concentrações de neve. Era Maio, mas o degelo, assim como eu, ainda tinha muito pela frente.

Ia sozinho, como em grande parte da prova. 

Com este cenário, os meus ouvidos são invadidos por sons de flautas de cana e tambores étnicos. Estaria já a alucinar? Costuma ser mais para o fim. A música vinha de longe, talvez da Índia, ou do Magrebe. Quem sabe de um Oriente ainda mais longínquo… 

Não. Seriam certamente flautas de pastores, que tocavam para espantar a solidão e manter o rebanho unido. As percussões viriam de adufes beirões? Ou de bombos que anunciam a romaria de Verão?

E a música penetrava os meus ouvidos e empurrava-me encosta acima. Fosse aquela corrida um filme, só poderia ter aquela banda sonora.

A música vinha do meu telemóvel. Era apenas o Rão Kyao. Não sei o título, nem tão pouco me lembro ao certo de qual faixa se tratava.

Sei que, naquele momento, foi a música certa.

Não tenho por hábito preparar playlists para as corridas. Não tenho “powersongs” e estou-me nas tintas para o ritmo. Carrego em “Reproduzir Todas” e aqui vai disto. Num minuto estou a ouvir Pink Floyd, minutos depois, Marco Paulo. Preciso apenas de companhia.

Nos Açores dei por mim a cantar sozinho, já perto da meta. Enquanto saltitava alegremente num single track, berrei com o ar que me restava “o Amor é isto e nada mais!” Já com os Capelinhos à vista, a aleatoriedade das milhares de faixas que levo comigo ofereceu-me Ornatos Violeta novamente, “e pudesse eu pagar de outra formaaaaaaa!”

Há também momentos em que tiro os auscultadores e entrego-me ao silêncio, aos sons da natureza e à métrica dos meus passos.

A corrida tem sempre Música e às vezes basta o coração para ouvi-la. 

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Sobre António Pinheiro

Profissional de marketing, músico e corredor por prazer. Corre na estrada, no monte e de um lado para o outro na vida, atrás e à frente dos filhos.
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