Beijing Marathon 2014

Autor: Aldina Rodrigues  /   Janeiro 05, 2015  /   Publicado em Crónicas, Crónicas dos Leitores  /   Sem Comentários

maratona pequimCorrer a maratona de Pequim resultou de uma verdadeira coincidência de calendário. Depois de ter decidido ir de férias para a China, verifiquei que a vinda era apenas uns dias antes da maratona do Porto e conclui que os vinte e três dias lá podiam interferir não só no meu plano de treino como na corrida no dia da maratona. Pois sofro bastante com o jet lag e demoro uns dias a recuperar do fuso de horário.

Mas quando partisse para a China o verdadeiro treino para a maratona estaria feito, teria que assegurar a manutenção e um treino longo. O que adoro na corrida é que se pode correr quase por toda parte, só precisamos de um par de sapatilhas. Mas como queria ir também para o interior da china estava com algum receio de não poder treinar assiduamente.

Depois de começar a tratar do visto, ocorreu-me procurar por meias maratonas e maratonas nas localidades onde iria passar, e quase saltei de felicidade quando vi que no meu penúltimo dia de férias se iria realizar a maratona de Beijing, uhau!!! Prazos de inscrição, era exatamente o último dia para estrangeiros, que coincidência feliz.

E como ainda não tinha marcado os voos, as férias foram programadas a passar os últimos dias em Beijing para dar algum descanso às pernas.

As viagens entre as cidades que menciono foram todas feitas de avião para aproveitar ao máximo o tempo neste país com tanta coisa para se ver. Os meus treinos foram sempre por volta das seis da manhã. É o período do dia em que o ar está muito mais respirável, e o caos associado ao frenesim diário de milhares de chineses é reduzido.

Na passagem por Xangai as corridas foram num parque tranquilo perto do hotel, dezenas de pessoas iam caminhar, algumas de pijama, praticavam tai chi, exercícios respiratórios, e para melhorar a circulação ao caminhar davam umas pancadinhas nos braços e pernas para ativar a energia. Gostaria de ter dado uma corrida no The Bund, (uma área central de Xangai), que tem como limite o rio Huangpu com uma vista panorâmica fantástica para Pudong, um distrito de Xangai. Os dias em Xangai foram caóticos, pois coincidiram com os feriados nacionais. Deixo a recomendação para quem quer ir para estas paragens que evite as festividades, são literalmente milhares de pessoas pelas ruas, e a estadia fica muito mais cara nestes dias.

Em Hong-Kong, os treinos foram em Kowloon com uma vista panorâmica fabulosa para a ilha de Hong-Kong, com passagem pela avenida das estrelas, museu de arte moderna… e foi aqui que aproveitei para fazer o meu último treino longo, com muito calor e humidade, e sempre acompanhado pela névoa de poluição.

Não podia deixar de ir à ilha de Taiwan, também conhecida por Ilha Formosa.

Em Taiwan, corri em Taipé (capital de Taiwan) e no Parque Natural de Guandu. Taiwan tem vários parques naturais dignos de visitas, a escassez de tempo deixou-me apenas visitar Qinshui Park, ao lado de Beitou, uma cidade pitoresca com montanhas fabulosas, os taiwaneses aproveitam a manhã para fazer trekking, a andar de bicicleta, correr pela montanha, ou fazer tai chi nos parques públicos, é uma região termal desenvolvida na ocupação pelos Japoneses. O fim do dia é ideal para aproveitar as águas termais quentinhas no hotel ou para os mais corajosos, em banhos públicos. O meu percurso de corrida passava por vários pontos do vale geotermal com névoas fabulosas e lufadas de ar quente a emergir dos vales tornando-os quase mágicos.

De volta à China continental, o destino foi Yangshuo, (Guilin), aqui fiz os treinos mais espetaculares da minha viagem à china, a paisagem convidava a corridas matinais, em que a aurora enaltecia e glorificava a beleza natural do rioYulong e do vale Yulong Qiau e das montanhas que o circundavam. Depois de uma boa corrida matinal o resto do dia era passado na bicicleta, a subir pequenos montes, ou a conhecer os arredores fabulosos.

A paragem seguinte foi Xian, centro da China, aqui não corri, troquei a corrida matinal por mais uns minutos de sono e descanso mas compensei com um treino de subidas a um arrozal fabuloso, caminhadas pela muralha e à procura das feiras de comida de rua, que são fabulosas, pelos ingredientes apetitosos, pela originalidade de combinações de ingredientes e sabores.

A visita aos soldados de terracota foi no último dia e o cansaço de tanta correria fazia-se notar e a necessidade de recolher cedo era uma necessidade, que se coadunava perfeitamente com o hábito dos chineses, jantarem cedo por volta das seis ou sete da tarde.

Última paragem Beijing ou Pequim, cujo nome significa capital do norte, tem cerca de 11 milhões de pessoas. A região metropolitana tem mais de 17 milhões, registados e provavelmente mais uns milhões de pessoas por registar como eles dizem. É a 12ª mais populosa do mundo.

A poluição é um problema crescente na china. Nos cincos dias de estadia nesta grande cidade registou-se sempre uma névoa de poluição. Só descortinei um céu azul no dia que fui visitar uma parte da Grande Muralha da China, o trecho de Mutianyu, a umas 2 horas de Pequim, uma obra grandiosa, de cortar a respiração, simplesmente adorei.

Em Pequim o objetivo era descansar e aproveitar para visitar alguns pontos relaxadamente. Mas numa cidade enorme com tantas coisas interessantes para ver, ficar a descansar não era opção. Com uma rede de metro eficiente mas sobrecarregada, tudo demora mais tempo pois há sempre filas e milhares de pessoas em excursões.

A praça Tiananmen conhecida na china por Praça da paz celestial, é a terceira maior praça do mundo, é aqui que tem o Mausoléu de Mao , vários edifícios importantes de estilo soviético, e a entrada para a Cidade Proibida. A vigilância faz-se sentir como em nenhum outro sítio na China, câmaras de vigilância e polícia permanente.

Para os chineses, a praça é o coração simbólico da china e milhares de pessoas passam lá, um verdadeiro desfile de visitantes e de excursões a passar constantemente, impressionante.

Maratona

Na china nada é simples. O Google não opera na China por isso todos os serviços associados ao que estamos habituados e nos facilitam a vida lá não existem, o motor de busca Google, gmaps, facebook… restam os motores de busca locais e a cobertura da rede apresentou-se na maioria dos locais muito lenta ou inacessível.

Falar inglês ajuda mas encontrar alguém na rua que nos dê indicações para um certo local pode ser uma tarefa morosa.

Por isso ter um bom guia (livro) e ficar num hotel onde se fale inglês razoável é essencial, o que nem sempre é um dado adquirido. A maioria dos turistas contrata guias que falam inglês e que os levam a vários sítios, ou vai em excursões. Pode parecer pouco lógico para quem tem por hábito viajar e desenrascar-se mas na china não é descabido de todo.

Os taxistas, na maioria não falam inglês, por isso entrar num táxi na rua pode ser uma aventura, pois dizem que conhecem o sítio, depois de mostrar o local no mapa mas se não encontrarem o hotel, ou hostel, deixam-no na rua em questão ou andam às voltas até o cliente decidir sair ou perguntar a um policia onde fica o local, sim isto aconteceu.

Para ir para locais que não se pode ir de metro como foi no caso da muralha da china ou ir levantar os dorsais, nada como combinar com o hotel e o serviço de táxi que eles disponibilizam. Outra dica para quem quer ir à china é um bloco de notas com frases chaves, facilitadoras de comunicação, escritas em mandarim.

Em Pequim fiquei num hotel perto da partida da maratona, uns 15 a 20 minutos da partida, o que foi uma decisão acertada.

Logo no primeiro dia fui levantar o dorsal e tentar perceber melhor como a prova estaria organizada e ver a feira. Ora bem, nada disto foi fácil pois ninguém falava inglês na feira, havia várias bancadas com informações imperceptível para mim, pois estava tudo em mandarim, na tentativa de encontrar alguém que falasse inglês era sempre enviada para o local de levantamento de dorsais. Por sorte na minha fila para o levantamento de dorsal estava um arquiteto que tinha vivido nos EUA e ajudou-me a responder questões de percurso, era a terceira vez que corria em Pequim, foi uma simpatia e até me deu o contacto para eu ligar se precisasse de alguma coisa.

No saco do dorsal, tinha um folheto bastante elucidativo, de dicas para o dia da maratona, e de como chegar à partida. Fiquei a saber que apesar de dar o meu tempo da última maratona de 3.30h me colocaram na partida do tempo das 4 às 5h, pelo que disse o arquiteto não valia a pena reclamar, era frequente ocorrer isto.

Factos sobre Pequim

Pequim está situada no extremo norte da Planície Setentorial Chinesa é uma cidade plana com uma elevação média de 43 m, o clima em Outubro é seco com ventos frios da Sibéria à medida que se aproxima o inverno.

A qualidade de ar em Pequim é conhecida por ser de má qualidade, aquando dos jogos olímpicos muitas medidas foram tomadas para reduzir a emissão de poluentes na cidade, mas os níveis elevados devem-se também a cidades vizinhas industrializadas. Além do elevado índice de poluição, Pequim debate-se com tempestades de pó. Em 2006 nos primeiros meses do ano foram depositados uma média de 50000 toneladas de pó. Na rua muita gente usa máscaras, desde as mais simples às mais sofisticadas.

Na minha primeira corrida matinal em Pequim, além de sentir uma descida de temperatura considerável, tive alguma dificuldade em perceber porque me sentia mais cansada. O que parecia nevoeiro era um misto de nevoeiro e poluição, e nos primeiros minutos de corrida o meu corpo estava a ajustar-se. As corridas em Pequim foram curtas.

O dia da maratona

O tempo estava como previsto, temperaturas de 15 graus e muito smog com os índices de poluição 12 vezes superior aos níveis recomendados como seguro.

No dia anterior houve polémica e debates sobre a razoabilidade de manter a maratona nessas condições. Havia cerca de 30.000 inscritos, dizem que muitos estrangeiros desistiram de participar por questões de segurança de saúde. Os organizadores do evento disseram que adiar ou encerrar a prova seria impraticável pela logística envolvida. Eu, sinceramente não pensei muito no assunto, depois de tantos dias na china e de no final do dia ter sempre um lenço com provas de muitas partículas de pó no ar, achei que era mais um dia e que se iria notar na performance, mas nada que me fizesse pensar em desistir, queria correr, apreciar as vistas e acabar.

A prova teve inicio às oito da manhã, por isso tive de tomar o pequeno almoço bem cedo para não ter desarranjos intestinais na partida, pois a ansiedade em caloiras de maratonas (esta é a minha terceira) como eu podem fazer-me perder a partida à procura de uma sanita, ou a estar em filas enormes para a casa de banho.

A partida estava a uns 20 min do hotel o que foi fabuloso. O dia anterior tinha ido reconhecer o terreno o que facilitou muito a logística. A caminho da partida da maratona, muitos chineses perguntavam se podiam tirar fotos comigo (por gestos) mas isso foi assim por toda a china, e deve ser assim com todos os ocidentais.

O controlo de segurança pelos militares era enorme, pelo menos o aparato, o acesso à praça Tiananmen também, com controlo de metais e líquidos. A maior desorganização foi depois para chegar à partida do grupo das 4 às 5h. As barreiras nas partidas dos grupos de corrida por hora de maratona, eram feitas debilmente por voluntários, todos tentavam passar as barreiras físicas e os empurrões e esmagamentos foram muitos para conseguir chegar às 4h. Na partida enquanto ajustava as sapatilhas, os phones e saltitava para aquecer, os Chineses à minha volta pediam para tirar fotos com eles e por comunicação gestual perguntavam quanto tempo ia tentar fazer, acho que perguntavam isso porque viam que trazia um cinto com saquinhos de gel, pois não queria beber bebidas energéticas que podiam cair-me mal na corrida.

O meu objetivo inicial era fazer o meu melhor mas pensei num tempo de 4h por ter tido uma preparação fraca. Passado 3 min do tiro de partida já se podia ultrapassar, as avenidas enormes facilitavam muito, comecei a tentar manter o ritmo a que me tinha proposto sem forçar muito.

Tinha como objetivo usufruir da vista ao longo da corrida mas com o “smog” pesado nesse dia mal conseguia ver a segunda fila de prédios das avenidas por onde passava. A temperatura estava excelente.

No km 8 um Sr. Chinês perguntava qual o meu tempo previsto (linguagem gestual) eu lá consegui explicar que seria entre 3.30h 3.45h, quando entendeu ele fez sinal que devíamos correr juntos, pois o dele seria 3.20h, e assim foi nos primeiros km. Nos abastecimentos as vezes perdia-o de vista, tinha alguma dificuldade em o identificar, pois, havia muita gente vestido como ele e os cortes de cabelo e estatura também são muito similares. Foi de uma grande amabilidade, pegava sempre numa esponja húmida a mais para me dar, insistia em que devia correr com uma em cada mão e quando passávamos por troços de auto-estrada dava indicação que devia respirar com a esponja perto do nariz.

Ele conhecia bem o percurso, avisava com antecedência que era para virar à esquerda ou à direita. Chamava-me à atenção para corredores diferentes, como os que corriam descalços, com um tipo de saia… mas sempre atento ao ritmo. O que mais me distraia ou me levava a divagar ao longo de uns bons minutos eram as máscaras que alguns corredores usavam, tentava perceber se essas máscaras alteravam a resistência de pressão inspiratória e como isso podia afetar a performance. E correr tanto tempo com a mesma máscara, o suor, a bebida…metia-me confusão, deve ser uma questão de hábito, mas algumas eram peculiares.

Ao longo das avenidas havia sempre militares em sentido, pareciam-me todos uns miúdos de 16 anos, mas todos os asiáticos aparentam ser mais novos do que realmente são, e acredito que devem ter sofrido mais do que muitos corredores para manter aquela postura rígida imóvel horas a fio.

Os abastecimentos eram frequentes e estavam bem assinalados, davam tempo para pegar na bebida sem atropelos, mas as bebidas eram servidas em copos de plástico que quase me obrigavam a parar, pois várias vezes inalei umas gotas de água. Bananas, barras de proteínas e bebidas energéticas faziam parte das bancadas depois dos 25km. Havia também casas de banho ao longo de todo o percurso.

Por volta do km 22 perdi a minha companhia de maratona, o Sr. Chinês, cujo nome não consegui fixar. Foi também no km 22 que encontrei um dos balões das 3.30h. No início da corrida havia imensos balões que fui ultrapassando e só depois percebi que havia corredores que levavam um balão mas não eram “oficiais”, levavam o tempo que eles pretendiam fazer.

Mantive-me perto do balão das 3.30h, sentia-me bem, só tinha um desconforto no joelho e gémeos. Ao longo do percurso havia vários voluntários com kits de emergência básicos, não sei o que teriam mais além de um spray frio e anti-inflamatório que colocavam a quem parava e pedia para colocar. Parei umas seis vezes para colocar o spray no joelho nos últimos km, o que aliviava a dor quase de imediato.

Por norma não tomo qualquer tipo de bebidas energéticas ou barras nos treinos longos, tenho os meus snacks e faço a minha própria bebida re-hidratante, mas acabei por pedir a um amigo de corrida uns “saquinhos de gel” que foram fabulosos e me deram energia até ao fim, fiquei maravilhada, pois nas outras maratonas sofri muito mais com a falta de energia e cansaço.

Na aproximação do estádio olímpico o meu ânimo ia elevado, pois já tinha passado os troços de passagem pela autoestrada em que respirar era doloroso, o trânsito do lado oposto passava lentamente mas o calor e o cheiro a poluição do ar que se inspirava arranhava as vias aéreas e ardia nos pulmões. Agora iria começar um troço diferente, avistavam-se árvores e a paisagem seria mais bonita, mas a visibilidade era reduzida pelo smog e só consegui ver o estádio olímpico quando estava mesmo perto.

No estádio olímpico tomei o meu último gel e estava motivadíssima pelo tempo que estava a fazer, sentia-me bem, o joelho e o gémeo estavam a doer mas iam aguentar sem me dar problemas, vi ao longe o Sr. Chinês, que estava a todo gás, fiquei contente, ambos íamos cumprir os nossos objetivos. Á chegada na meta vibrei de felicidade J

Objetivo cumprido, tive direito a fotos e a uma reportagem fotográfica.

Beijing Marathon foi a cereja no topo do bolo das minhas férias na china, que adorei.

Um grande obrigado a quem me apoiou e correu comigo nos treinos matinais.

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