Entrevista com Orlando Duarte

Autor: Vitor Dias  /   Dezembro 12, 2014  /   Publicado em Entrevistas, Slider  /   3 Comentários

orlando duarteTem 57 anos e corre há 40. Este técnico de manutenção explica-nos como era correr há 4 décadas atrás e o que pensa acerca do futuro da corrida em Portugal. Começou na estrada mas não deixa de preferir trilhos e de vez em quando dar uma saltada à orientação. Venha conhecê-lo melhor.

Há quantos anos corres?

Faz no próximo mês de Fevereiro 40 anos, quando fui contagiado por uma coisa que apareceu em finais de 1974 e que se chamava “Corrida Para Todos”. Comecei a treinar sozinho (treinar? Correr continuamente 20,30 ou 40 minutos), e participar de vez em quando nas poucas provas que havia na época…

A partir de 1980/81 comecei a ter mais disponibilidade e condições para treinar (mesmo com plano de treino) e a participar em mais provas, que também já havia mais.

De início não comecei a registar as minhas corridas e só o fiz a partir de Setembro de 1985. Daí para cá, já participei em 595 provas, entre as quais 1 maratona (1988 em 3h02) e 95 provas com 20 ou mais km – das quais 56 Meias maratonas, sendo o meu melhor tempo de 1h17 em sevilha.

Como era a corrida nessa altura? O que mudou?

Há 40 anos a corrida era muito diferente. Havia poucas provas e a esmagadora maioria, imbuídas no espírito da Corrida Para Todos, eram os chamados Grandes Prémios dos clubes e associações e que envolviam todos os escalões etários e várias distâncias. Aos poucos foram aparecendo as provas clássicas de distância única e que algumas ainda se realizam hoje. Nalguns aspectos, poucos, para melhor, mas na maioria, como é natural, para pior. Dos poucos aspectos melhores, era o associativismo, havia mais equipas de clube e poucos individuais, e a camaradagem entre atletas das referidas equipas. A qualidade do pelotão, principalmente a partir de 1976, na sequência da preparação e dos bons resultados dos Jogos Olímpicos de Montreal, pese embora as poucas pistas que havia no país, passou-se a trabalhar mais na pista e mais trabalho técnico, daí resultar num pelotão, muito mais pequeno que o de hoje, mas muito, mas mesmo muito mais rápido!

O pior era as condições de treino, os equipamentos, a falta de infra-estruturas e, sobretudo, a mentalidade quase doentia da “campeoníte” entre clubes, onde, raramente, não havia prova onde não houvesse suspeitas de aldrabices com as cédulas dos miúdos e seniores a correrem como veteranos e por aí fora… para além disso, também havia um aspecto altamente negativo relativo à mentalidade tacanha dos portugueses nessa altura: a discriminação das mulheres, o índice participativo feminino era quase nulo porque se achava que o lugar das mulheres era na cozinha… Também a ajudar para os magros pelotões, era a mentalidade tacanha dos homens que tinham vergonha de serem últimos, e que diziam que não corriam para não fazerem má figura…

Praticas corrida ou running? (pergunta provocatória) Fala-nos dos estrangeirismos na corrida que tanto contestas.

CORRIDA, claramente! Ainda bem que fazes esta pergunta desta maneira.

 Ponto prévio: não tenho nada contra a língua inglesa, mas tenho tudo a favor da minha língua materna!

Ao contrário do futebol que entrou no país em finais do século XIX, inícios do século XX, a corrida tem tantos anos quantos o país. Ora, se o futebol não existia em Portugal e veio de Inglaterra, era natural que, por arrasto, tudo o que fosse relativo ao futebol se usassem os anglicismos, a começar logo pelo nome dos clubes: Sport, Sporting, Foot Ball Club, e depois na prática de jogo com os off sides, corners, backs, keepers, liners e o célebre penalty, mas ao contrário da corrida que, do meu ponto de vista, bacocamente se apega aos anglicismos, o futebol, aos poucos, liberta-se deles. Reparem, hoje, raramente não se diz fora de jogo, pontapé de canto, defesas, guarda-redes, fiscais de linha e ultimamente árbitros auxiliares e grande penalidade, por exemplo.

Outro exemplo parecido com o futebol é o dos Centros Comerciais. Recordo que o primeiro centro comercial em Portugal foi inaugurado em Lisboa em 1971 perto do Campo Pequeno, sabem como é que se chamava? DRUGSTORE Apolo 70! É verdade, DRUGSTORE… Depois, no início dos anos 80 passaram a chamar-se SHOPPING CENTER e hoje são os banais CENTROS COMERCIAIS!

orlando duarteOra, sendo a língua portuguesa de grande riqueza e versatilidade, não faz sentido o uso e abuso de nomes estrangeiros nas provas portuguesas de caracter regional e muito menos, local. Excepção para as grandes provas internacionais como são as maratonas de Lisboa e Porto. Mas mesmo nestas, há sempre a hipótese da dupla grafia. Mas como somos o país do oito ou oitenta, passámos dos tais Grande Prémio que havia por tudo quanto era sítio, para qualquer prova ter no seu nome duas ou três palavras inglesas, como o Leiria Christmas Night Trail, por exemplo, e até os simples treinos convívio chamam-se Free running…

Pior que isto é quando alguém diz” people, temos que fazer um briefing porque estou co um feeling se não fizermos um forcing vamos ficar out!” Não, não é uma caricatura, a nossa juventude, embalada com a tal ideia da globalização, comodismo ou ignorância, é assim que fala…

Repito, sim, sim, já sei que vão dizer que é a globalização e que o mundo é uma aldeia… é verdade, estou de acordo, mas isso não obriga a dar cabo de uma língua secular e fazer dela um mixordês ou um crioulo com uma mistura de palavras portuguesas (poucas) e inglesas (muitas)… Uma coisa é porem-se as crianças aprender inglês no ensino básico, e isto é cultura, outra coisa bem diferente, é os miúdos, e graúdos, por falta de vocabulário ou por não dominarem bem a gramática, meterem “buchas” inglesas nas frases de português…

Por isso jamais serei um runner ou praticarei running!

Tens talvez o maior acervo estatístico acerca de corridas. Quando o começaste a fazer e que grandes conclusões tiras dele?

É um facto que tenho algum material estatístico, mas nem de perto nem de longe ser o maior. Sempre gostei de estatísticas e adoro trabalhar com os números. E como gosto, tenho muita paciência para se fazerem análises de vários ângulos das questões.

Um dos grandes culpados deste meu gosto e de ter começado a guardar material foi quando, há trinta anos, comecei a ler a Revista Atletismo do grande Arons de Carvalho. Esse sim, tem um dos maiores acervos estatísticos do atletismo nacional – pista, corta-mato e estrada.

A grande conclusão é boa, de algum modo já o disse nas respostas anteriores, a corrida está no bom caminho, à excepção de alguma qualidade atlética perdida e de baixarmos o índice participativo nas camadas mais jovens, ganhámos qualidade infra-estrutural, ganhámos qualidade organizativa, e temos provas no nosso país de qualidade mundial, a Maratona do porto por exemplo.

O que de melhor tem a corrida?

Sendo praticada com bom senso e respeitando as melhores regras desportivas, a corrida mantem-nos num nível muito bom de saúde física e mental – em Março, quando fui mostrar os meus exames anuais ao médico de família, os mesmos foram vistos por uma médica estagiária que estava lá com o meu médico, às tantas pergunta ela: “O Sr. Anda a tomar medicação?” Respondendo eu que não, diz ela muito surpreendida: “É que tem os valores tão certinhos que até parece!”

Já para não falar da parte social e cultural que os convívios e encontros com outras gentes, outras culturas, outras gastronomias e as grandes amizades que a corrida nos proporciona!

E de pior?

Felizmente não vejo muita coisa má na corrida. Sei lá, assim de repente, ocorre-me as lesões que nos obrigam a parar a actividade, e é quando sofremos. Porque nós sofremos mais quando não podemos correr, do que quando corremos…

A corrida não se está a tornar demasiadamente comercial? Vês mal nisso?

De algum modo sim. Mas é como tudo na vida, se os empresários não forem gananciosos e aplicarem taxas de inscrição razoáveis, não levarem ao mínimo dos mínimos a qualidade e quantidade dos abastecimentos, a qualidade e quantidade de apoios médicos, a qualidade dos locais de partida e chegada e apoios sanitários, guarda-roupa, etc. etc. e, no fundo, houver respeito e consideração pelos atletas, num país onde tudo já é pago, não vejo mal nenhum que haja um mercado empresarial para o efeito.

Preferes estrada, trilhos ou orientação?

Quer a estrada, quer os trilhos, dão-me muita satisfação e prazer. Há quem tenha feito muita estrada e, há meia dúzia de anos, tenha experimentado os trilhos e agora não querem outra coisa e dizem cobras e lagartos da estrada… não é de todo o meu caso, gosto muito dos trilhos, já antes gostava muito dos corta-matos, correr na natureza em total liberdade e com paisagens maravilhosas e lugares que jamais lá iríamos se não fossem os trilhos. Mas a estrada tem o aliciante do cronómetro. E eu, acima de tudo, sou um grande apreciador de atletismo onde todas as suas disciplinas são avaliadas ou ao metro ou ao segundo, e adoro o aliciante da superação do meu melhor tempo naquela corrida ou distância. Aliás, sou incapaz de fazer uma corrida sem cronómetro. Controlar a média, os tempos de passagem e o objectivo do tempo final são os grandes ingredientes que adoro numa corrida de estrada!

A Orientação pratiquei-a durante dois anos. Foi uma modalidade que adorei praticar. Fui de OPT1 a OPT4 empiricamente, e sem qualquer apoio técnico estava difícil de evoluir. Acumular a prática das duas modalidades estava a ser difícil economicamente. Depois deu-se a coincidência do aparecimento das corridas em trilhos e deixei, não por completo, porque de vez em quando ainda faço uma ou outra prova, mas reconheço que é uma modalidade muito bonita e de grande exigência, não só física, como sobretudo técnica!

Qual o futuro da corrida em Portugal? Como irá evoluir?

O futuro da corrida em Portugal é risonho e, penso, que é garantido. Hoje as organizações são claramente melhores. Há mais conhecimentos e experiência. Tudo indica que nestes próximos anos a evolução seja no sentido das grandes quantidades de pessoas por essas estradas fora a praticar a actividade física da corrida. Porém, se é bastante positivo verem-se corridas com dezenas de milhares de praticantes, do meu ponto de vista, é bastante negativo verem-se marcas de vencedores actuais, que há 20/25 anos dificilmente ficavam nos 10 primeiros!

Espero e desejo que se arrepie caminho. Que se volte aliciar a juventude para o atletismo, primeiro nas pistas para ganharem técnica e velocidade, e depois nas estradas ou nos trilhos. Hoje há poucos atletas a fazer menos de 14’ aos 5 mil, menos de 29’ aos 10 mil, 1h02/1h03 na meia e, claro, menos de 2h10 na maratona. Por isso, espero e desejo que os melhores voltem para a pista, se trabalhe mais nesse sentido e Portugal volte a ter atletas de alta qualidade mundial na pista e na estrada!

3 Comentários

  1. Jo 12 de Dezembro de 2014 15:30

    Muito bom!
    Como sempre, o Orlando é, não só, um atleta com uma experiência imensa, mas também um ser humano muito esclarecido, claro e correcto em todas as suas bem fundamentadas opiniões.

    Um grande abraço ao Orlando e o agradecimento ao Correr por Prazer por nos proporcionar uma tão magnífica entrevista

  2. Joaquim Adelino 15 de Dezembro de 2014 22:19

    Excelente depoimento do Orlando, que alia a prática da corrida com os números quase como ninguém, está lá e isso provoca-me admiração entre muito adjectivos positivos que lhe reconheço, abraço e parabéns ao Correr por Prazer pela oportunidade de escutar um grande amigo e amante da corrida.

  3. Joaquim Margarido 9 de Fevereiro de 2015 21:59

    Ler-te é ouvir-te, aqui mesmo à minha beira. Falas com o coração, Orlando. E que bem que falas. Adorei ler-te (ouvir-te!).

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