Doping no desporto – o caso Lance Armstrong

Autor: Vitor Dias  /   Janeiro 20, 2013  /   Publicado em Notícias
Tags: armstrong, doping, filipa vicente, susana lourenço
Tempo de Leitura: 5 minutos

Doping no desporto - o caso Lance ArmstrongLançamos o desafio a duas corredoras de pelotão para nos darem as suas opiniões acerca do assunto e lançar aqui o debate acerca de tão importante matéria.

Filipa Vicente e Susana Lourenço disseram de sua justiça.

O que pensa do assunto doping e do caso Armstrong  articular?

O desporto de alta competição, leia-se de elite, é feito de records, de espetáculo e vive de ultrapassar os limites da resistência e força humanas. Os atletas ditos de elite vivem do que fazem, treinam horas a fio, dão o seu máximo nos treinos e têm de estar no seu melhor prova após prova.

É um trabalho como outro qualquer e, como em qualquer outra profissão, os melhores vencem, fazem a diferença e sobrevivem numa vida profissional que não é muito longa nem tão pouco prospera uma vez que terminado o período dourado do rendimento desportivo, muitos atletas são esquecidos.

Talvez por isso, os atletas de alta competição vivam tanto do presente, de marcar a presença hoje para que sejam recordados amanhã. Vale tudo,  ou quase tudo dentro dos limites e regras de cada modalidade. Não nos podemos enganar, embora espetacular e interessante aos nossos olhos, e mesmo que estes feitos nos motivem e nos tornem pessoas mais disciplinadas e mais ativas fisicamente no nosso plano de treino de meros mortais, o desporto de elite ou dito de alta competição é tudo menos saudável.

E os meios justificam os fins, ser bom não chega, há que superar limites. Infelizmente alguns superam limites próprios, enganando-se sobre as suas próprias capacidades, enquanto outros enganam o organismo, ultrapassando barreiras fisiológicas que nos fazem vibrar de emoção e nos motivam mas porque desconhecemos o que permitiu chegar ali.

 FILIPA VICENTE

O doping é, infelizmente, um ingrediente comum em muitas modalidades de alta competição e sobretudo modalidades de carácter olímpico. Sejamos honestos, competir com os melhores do mundo, por muito sobredotados que possamos ser, obriga a pensar ir mas além. Os treinos são extenuantes e o corpo precisa de os aguentar para continuar a adaptar-se ao esforço, a pressão dos media e dos patrocinadores é enorme e crescente à medida que o tempo passa, que atleta profissional de topo ficaria dependente de variáveis externas para uma prova de alto gabarito? Só se quisesse hipotecar a hipótese de continuar a viver disso.

Para a opinião pública, e sobretudo os fãs dos atletas, é muito difícil admitir que o doping é uma constante. Para as autoridades responsáveis então é quase uma sentença de morte. Se os atletas admitissem que se dopam constantemente, não havia sentido para existir qualquer autoridade antidopagem porque se provaria que a sua tarefa fracassara. E afinal de contas, também estamos a falar de muitos empregos em jogo…

Lance Armstrong fintou o sistema durante 7 Tours de France, o sistema teve inúmeras oportunidades de o apanhar, nunca o conseguiu. Difamações, calúnias e acusações de outros atletas motivaram uma investigação sem fim, uma verdadeira caça ao homem que durante 7 anos liderou a prova rainha do ciclismo. Vamos acreditar que quem o acusou nunca tomou nada? Se ele passou todos os testes anti-doping, estando alegadamente dopado, como podemos pensar que outros não estavam também? Mas não o conseguiram ultrapassar, não o conseguiram vencer.

O próprio presidente da Autoridade Antidopagem de Portugal (ADoP), Luís Horta, admitiu que os ciclistas continuam a ultrapassar limites fisiológicos da raça Humana sobretudo no Tour de France. Como se justificam estes feitos? O perfil genético não mudou, os protocolos de treino não podem justificar tudo, gostaria até de pensar que a combinação treino + dieta e suplementação poderia fazer isto mas estes limites são fisiológicos e nada, natural, pode justificar estes resultados.

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Para haver records, tem de haver doping. Lance é apenas neste momento o alvo a abater mas será que foi só ele que desacreditou o sistema de controlo de substâncias dopantes? Podemos pensar que os outros não o conseguiram fazer? Estamos a acusar um atleta que ganhou 7 vezes o Tour com base unicamente em acusações de muitos dos seus rivais e de uma opinião “pública” baseada em frustrações da USADA e do COI.

Os seus fãs mereciam ouvi-lo na primeira pessoa e tiveram esse privilégio, outros atletas poderiam ter-se calado e renunciado a assumir o erro.

Recorde-se que este homem sobreviveu a um cancro e continuou a vencer. Depois de deixar o ciclismo, Lance dedicou-se a outras modalidades, correu várias vezes a mítica Maratona de Nova Iorque, completou vários triatlos na distância Ironman.

Além das suas prestações desportivas, inspirou uma fundação (Livestrong) e foi cabeça de cartaz de muitas campanhas da luta contra o cancro. Por inveja ou por falta de assunto, neste momento é o vilão do dia.

Fica a questão, poderia outro atleta, dopado ou não, fazer igual?

SUSANA LOURENÇO

Apesar de não ser uma fã do ciclismo profissional, tornei-me ao longo dos anos numa fã incondicional de Lance Armstrong. Quem não gosta de ver alguém que lutou com uma doença tão grave, conseguir cometer a proeza de ganhar 7 vezes o Tour de France?  É uma verdadeira fonte de inspiração e esperança para todos nós. Quando as primeiras suspeitas do uso de dopping surgiram, não as levei a sério. Quando elas se mantiveram e ele negava, mantive-me sempre do seu lado e pensava “pobre homem, depois disto tudo ainda tem uns invejosos a querer deitá-lo abaixo”.

Em conversas com amigos, foram-me dizendo que o uso de doping no ciclismo profissional é normal e que quem não o faz fica em último. Nunca acreditei, mantive-me sempre fiel e crente nas suas palavras. Quando ouvi falar da sua entrevista com a Oprah, a dúvida surgiu pela primeira vez na minha cabeça. Depois de dois dias ansiosa por ouvi-lo, confesso que ao longo da entrevista me deparei com uma mescla de sentimentos desde a revolta, traição, petulância,  desilusão e uma profunda tristeza.

Vi um homem de poucas palavras, traído pelo avanço da ciência e do rigor dos testes, confessar que usou doping e que sem ele não acharia ser possível ganhar 7 vezes o tour de France.

Mas a pergunta que se impõe na minha cabeça diante de isto tudo é porque queremos nós sempre o impossível? Porque ansiamos nós tanto por  heróis?

Alguém me disse recentemente que “para haver records tem de haver dopings”. Mas se são records com doping deixam de ser records, não?

Se o uso de doping é normal no ciclismo  profissional então para quê ser hipócritas? Ou baixamos as nossas expectativas para níveis humanamente possíveis ou assumimos que gostamos dos impossíveis e legalizamos o doping no desporto.

Mas não é o desporto saudável? Não são os atletas profissionais os que nos inspiram para queremos fazer sempre mais? Não queremos nós incutir aos jovens a prática do desporto, como um bom meio de ser saudável e conviver mais, criando laços de companheirismo e amizade?  Não vejo como o doping entra na equação.

Sobre Vitor Dias

Autor e administrador deste site. Corredor desde 2007 tendo completado 54 maratonas em 15 países. Cronista em Jornal Público e autor da rubrica Correr Por Prazer em Porto Canal. Site Oficial: www.vitordias.pt
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