Doping no desporto – o caso Lance Armstrong

Autor: Vitor Dias  /   Janeiro 20, 2013  /   Publicado em Notícias  /   25 Comentários

Doping no desporto - o caso Lance ArmstrongLançamos o desafio a duas corredoras de pelotão para nos darem as suas opiniões acerca do assunto e lançar aqui o debate acerca de tão importante matéria.

Filipa Vicente e Susana Lourenço disseram de sua justiça.

O que pensa do assunto doping e do caso Armstrong  articular?

O desporto de alta competição, leia-se de elite, é feito de records, de espetáculo e vive de ultrapassar os limites da resistência e força humanas. Os atletas ditos de elite vivem do que fazem, treinam horas a fio, dão o seu máximo nos treinos e têm de estar no seu melhor prova após prova.

É um trabalho como outro qualquer e, como em qualquer outra profissão, os melhores vencem, fazem a diferença e sobrevivem numa vida profissional que não é muito longa nem tão pouco prospera uma vez que terminado o período dourado do rendimento desportivo, muitos atletas são esquecidos.

Talvez por isso, os atletas de alta competição vivam tanto do presente, de marcar a presença hoje para que sejam recordados amanhã. Vale tudo,  ou quase tudo dentro dos limites e regras de cada modalidade. Não nos podemos enganar, embora espetacular e interessante aos nossos olhos, e mesmo que estes feitos nos motivem e nos tornem pessoas mais disciplinadas e mais ativas fisicamente no nosso plano de treino de meros mortais, o desporto de elite ou dito de alta competição é tudo menos saudável.

E os meios justificam os fins, ser bom não chega, há que superar limites. Infelizmente alguns superam limites próprios, enganando-se sobre as suas próprias capacidades, enquanto outros enganam o organismo, ultrapassando barreiras fisiológicas que nos fazem vibrar de emoção e nos motivam mas porque desconhecemos o que permitiu chegar ali.

 FILIPA VICENTE

O doping é, infelizmente, um ingrediente comum em muitas modalidades de alta competição e sobretudo modalidades de carácter olímpico. Sejamos honestos, competir com os melhores do mundo, por muito sobredotados que possamos ser, obriga a pensar ir mas além. Os treinos são extenuantes e o corpo precisa de os aguentar para continuar a adaptar-se ao esforço, a pressão dos media e dos patrocinadores é enorme e crescente à medida que o tempo passa, que atleta profissional de topo ficaria dependente de variáveis externas para uma prova de alto gabarito? Só se quisesse hipotecar a hipótese de continuar a viver disso.

Para a opinião pública, e sobretudo os fãs dos atletas, é muito difícil admitir que o doping é uma constante. Para as autoridades responsáveis então é quase uma sentença de morte. Se os atletas admitissem que se dopam constantemente, não havia sentido para existir qualquer autoridade antidopagem porque se provaria que a sua tarefa fracassara. E afinal de contas, também estamos a falar de muitos empregos em jogo…

Lance Armstrong fintou o sistema durante 7 Tours de France, o sistema teve inúmeras oportunidades de o apanhar, nunca o conseguiu. Difamações, calúnias e acusações de outros atletas motivaram uma investigação sem fim, uma verdadeira caça ao homem que durante 7 anos liderou a prova rainha do ciclismo. Vamos acreditar que quem o acusou nunca tomou nada? Se ele passou todos os testes anti-doping, estando alegadamente dopado, como podemos pensar que outros não estavam também? Mas não o conseguiram ultrapassar, não o conseguiram vencer.

O próprio presidente da Autoridade Antidopagem de Portugal (ADoP), Luís Horta, admitiu que os ciclistas continuam a ultrapassar limites fisiológicos da raça Humana sobretudo no Tour de France. Como se justificam estes feitos? O perfil genético não mudou, os protocolos de treino não podem justificar tudo, gostaria até de pensar que a combinação treino + dieta e suplementação poderia fazer isto mas estes limites são fisiológicos e nada, natural, pode justificar estes resultados.

Para haver records, tem de haver doping. Lance é apenas neste momento o alvo a abater mas será que foi só ele que desacreditou o sistema de controlo de substâncias dopantes? Podemos pensar que os outros não o conseguiram fazer? Estamos a acusar um atleta que ganhou 7 vezes o Tour com base unicamente em acusações de muitos dos seus rivais e de uma opinião “pública” baseada em frustrações da USADA e do COI.

Os seus fãs mereciam ouvi-lo na primeira pessoa e tiveram esse privilégio, outros atletas poderiam ter-se calado e renunciado a assumir o erro.

Recorde-se que este homem sobreviveu a um cancro e continuou a vencer. Depois de deixar o ciclismo, Lance dedicou-se a outras modalidades, correu várias vezes a mítica Maratona de Nova Iorque, completou vários triatlos na distância Ironman.

Além das suas prestações desportivas, inspirou uma fundação (Livestrong) e foi cabeça de cartaz de muitas campanhas da luta contra o cancro. Por inveja ou por falta de assunto, neste momento é o vilão do dia.

Fica a questão, poderia outro atleta, dopado ou não, fazer igual?

SUSANA LOURENÇO

Apesar de não ser uma fã do ciclismo profissional, tornei-me ao longo dos anos numa fã incondicional de Lance Armstrong. Quem não gosta de ver alguém que lutou com uma doença tão grave, conseguir cometer a proeza de ganhar 7 vezes o Tour de France?  É uma verdadeira fonte de inspiração e esperança para todos nós. Quando as primeiras suspeitas do uso de dopping surgiram, não as levei a sério. Quando elas se mantiveram e ele negava, mantive-me sempre do seu lado e pensava “pobre homem, depois disto tudo ainda tem uns invejosos a querer deitá-lo abaixo”.

Em conversas com amigos, foram-me dizendo que o uso de doping no ciclismo profissional é normal e que quem não o faz fica em último. Nunca acreditei, mantive-me sempre fiel e crente nas suas palavras. Quando ouvi falar da sua entrevista com a Oprah, a dúvida surgiu pela primeira vez na minha cabeça. Depois de dois dias ansiosa por ouvi-lo, confesso que ao longo da entrevista me deparei com uma mescla de sentimentos desde a revolta, traição, petulância,  desilusão e uma profunda tristeza.

Vi um homem de poucas palavras, traído pelo avanço da ciência e do rigor dos testes, confessar que usou doping e que sem ele não acharia ser possível ganhar 7 vezes o tour de France.

Mas a pergunta que se impõe na minha cabeça diante de isto tudo é porque queremos nós sempre o impossível? Porque ansiamos nós tanto por  heróis?

Alguém me disse recentemente que “para haver records tem de haver dopings”. Mas se são records com doping deixam de ser records, não?

Se o uso de doping é normal no ciclismo  profissional então para quê ser hipócritas? Ou baixamos as nossas expectativas para níveis humanamente possíveis ou assumimos que gostamos dos impossíveis e legalizamos o doping no desporto.

Mas não é o desporto saudável? Não são os atletas profissionais os que nos inspiram para queremos fazer sempre mais? Não queremos nós incutir aos jovens a prática do desporto, como um bom meio de ser saudável e conviver mais, criando laços de companheirismo e amizade?  Não vejo como o doping entra na equação.

Provas de Trail

25 Comentários

  1. Vitor Dias 20 de Janeiro de 2013 18:15

    Tal como já tinha publicado na minha página pessoal no facebook:

    …”aquele que sempre tanto admirei, tornou-se hoje na maior desilusão no que ao desporto diz respeito.

    LA não passará agora de um homem que admiro por ter vencido o cancro, nada mais.

    Cumprimentos

    Vitor Dias

  2. António Pinheiro 20 de Janeiro de 2013 18:18

    Apesar de me sentir “traído” pelo Lance Armstrong, partilho da opinião da Filipa Vicente.

    Fez asneira, mas assumiu… Quantos e quantos, doparam-se, continuam a dopar-se e vão continuar a fazê-lo livremente?

  3. Pedro Azevedo 20 de Janeiro de 2013 18:52

    Cadeia e falência!
    Que moralismo!
    Alguém acha que se consegue fazer isto sozinho?

    Querem fazer um assassinato de caráter quando a questão é mais funda, do ciclismo, em particular, e da sociedade em geral!

    Ganhar a qualquer preço!

    Que diferença existe entre isto e qualquer outro tipo de corrupção?

    Só vejo uma e em benefício de Armstrong e de outros como ele! Foram usados como marionetes (semi-conscientes!!!) ao serviço da propaganda publicitária e do enriquecimento de muitos!!!

    Culpabilizem e criminalizem TODOS, não arranjem bodes expiatórios, pois quer o ciclismo quer a sociedade tem muito para expiar!

  4. Luís Rodrigues 20 de Janeiro de 2013 19:04

    Infelizmente o Lance Armstrong é para mim uma grande desilusão. Por muito que quisesse ganhar, e por muito mérito que tenha no esforço que colocou nos treinos, nas provas e no seu dia-a-dia, hoje é apenas um mentiroso.
    Quem leu os livros dele, como eu li, terá ficado certamente convencido que ele não se dopava. A forma como ele falava insistentemente do tema, a sensação de honra que passava era muito grande.
    Honra essa que nem neste momento ele mostrou ter, porque apenas depois de já ter sido desmascarado é que vem confessar o erro, numa vã tentativa de ter “palco” novamente.
    Não será pelo doping que tenho esta opinião, já que infelizmente poucos desportistas de topo não o devem fazer, mas é completamente inaceitável a forma como negava o que agora confessa.

  5. Sandra Silva 20 de Janeiro de 2013 19:27

    Concordo com a Filipa. A partir do momento em que todos usam, como questionar as vitórias que Lance alcançou, “dopado”? De facto, ele destacou-se, apesar de tudo. Algo nele o distingue dos demais. Ao longo de todo este processo de culpabilização de Lance, houve momentos em que cheguei a pensar que ele estivesse de facto “inocente”. Mas por outro lado, essa questão da culpa não iria mudar nada no que sinto por alguém tão especial como ele. Ao fim e ao cabo, eu sabia que ele até poderia ter recorrido ao dopping, sim, mas tal conhecimento não abalou o que eu penso sobre ele. Porque tenho consciência de que tais acusações poderiam ser estendidas a todos aqueles contra quem ele competiu nas provas das quais agora decidiram retirar-lhe o mérito. O que senti, acima de tudo, foi pena. De facto, chegara o momento de alguma cabeça rolar. E na roleta calhou a de Lance Armstrong. Sinto pena dele, da sua familia, pois decerto este não é o legado que ele gostaria de deixar aos filhos. Mas sobretudo, os verdadeiros culpados disto tudo são as próprias entidades Anti dopping, essas corruptas organizações, que estabelecem conspirações contra este e aquele, mas vão sobrevivendo à custa daqueles que dão o corpo e vendem a alma para os sustentar! O que seria de toda essa gente sem as vitórias, sem as conquistas de campeões como Lance? Ele foi engulido pelo próprio sistema que o empurrou para o dopping. Para mim, podem retirar-lhe os titulos, ele continuará a ser o campeão de todas essas 7 Tours de France, o campeão da Vida e da Luta contra o Cancro, a “voz” de incentivo do meu Nike + no Ipod que me acompanhou nos meus primeiros passos na corrida. E talvez amanhã eu vá comprar uma das suas pulseiras amarelas Livestrong, e passe a exibi-la solidariamente. Porque os cães ladram, mas a caravana sabe que tem de passar e ir em frente.

  6. Carlos Natividade Silva 20 de Janeiro de 2013 19:29

    Desporto e campeões com doping, NÃO.
    Um lutador contra o cancro, sem dúvida.
    Assumir o “erro”, sim entre aspas, porque demorou muito tempo, é uma fraude, atitude própria de mentirosos, porque qualquer comum mortal educado e simples, assume os erros com humildade, sempre que os pratica.
    LA é uma desilusão, infelizmente igual a muitos outros.
    Com batota, nada vale a pena.

  7. Ricardo Telmo Fernandes 20 de Janeiro de 2013 19:37

    Concordo com a Susana. O doping e a antitese de tudo o Que deve ser o desporto, e deve ser condenado em todas as circonstancias. O amstrong representa a hipocrisia e o ganhar a todo o custo . Quanto a assumir , so o fez quando encostado a parede depois de dez anos
    Ele ganhou milhoes na sua carreira baseda na mentira e difamou e processou quem se atravessou a sua frente.

  8. David Sousa 20 de Janeiro de 2013 20:28

    Armstrong para muitos um mito, para outros um excepcional desportista vitima de uma campanha orquestrada pelas cúpulas de comando da modalidade. A história tinha tudo para dar certo um ciclista de top que vence um cancro, de nacionalidade norte americana como convém ao estilo Hollywoodesco que vence e convence todo o mundo ao ponto de ninguém durante esta épica carreira conseguir duvidar da veracidade deste verdadeiro fenómeno. O problema é que agora dizem que o esquema de doping de Lance era infalível, mas não o eram os esquemas utilizados pelos ciclistas da “ONCE” o de Marco Pantanni, Ulrich, e tantos tantos outros ciclistas apanhados nas malhas do doping durante o reinado Armstrong e Miguel Induraim que venceu ele também 5 voltas à França estava limpo? Não creio pois em pouco tempo passou de um ciclista banal para uma verdadeira máquina e atendendo ás palavras de Lance “ninguém vence tantas voltas sem recorrer à batota”. Para terminar espero que como em tantas outras situações se consiga chegar aos verdadeiros culpados desta fraude, que todos aqueles que utilizaram a imagem de Lance para para daí tirarem benefícios (UCI incluída)sejam em breve desmascarados.

  9. Simão Padrão 20 de Janeiro de 2013 21:22

    Infelizmente, tudo na vida que desperta interesse, desperta a parte comercial, e quando entra o dinheiro em jogo, tudo o que é belo, ético, correto, digno, e até mesmo a verdade e a honra passam para segundo plano. Desporto é vida, e vida é desporto, mas mesmo assim este bem precioso não ficou alheio a esta malha comercial. Neste momento desporto é o que eu faço, o que o comum anónimo faz. O que se faz em alta competição, «não querendo generalizar» já não é desporto, é tudo que vale para ganhar fama, interesses, patrocínios, dinheiro, etc… E neste caso, o Lance não é exceção. O doping tira-lhe o brilho todo, mas ainda lhe é reconhecido algum mérito e muitas capacidades. É verdade que muitos «ou todos» se dopavam, mas também é verdade que ele andava um passo à frente no doping, e dessa forma, não se sabe se ganhava sem doping, ou se ganhava com o “mesmo doping” dos que andavam um passo atrás. E isso é mau para o desporto, e mau principalmente para os verdadeiros desportistas. Fica para a história um homem que fez muitas coisas boas, e fez muitas coisas más, que pelo menos, vão servir como maus exemplos. Mas também fica reconhecida a grande capacidade física: a vitória contra o cancro; as 7 “vitórias” no tour; o regresso 3 anos mais tarde com quase 38 anos e ficar em 3º lugar (segundo ele sem doping, mas vale o que vale); depois aos 40 ganha half-Ironmans.. Sem dúvida uma grande máquina. O seu admitir de tudo, não me parece de grande valor, nem que sirva de redimição, uma vez que só admitiu quando já estava num beco sem saída: quando já todos os seus colegas tinham admitido e descrito todo o esquema; quando já se tinha dado como provado e retirado os títulos, quando já ele próprio tinha desistido de se defender da causa… Contudo, ainda pode melhorar a sua imagem, tem a oportunidade de ser muito útil e utilizar os seus conhecimentos para ajudar a encontrar medidas para combater o doping de verdade, uma vez que ele era o melhor a contornar o esquema. E agora com o passaporte biológico, pode ser que a coisa vá lá, e o ciclismo saia da total de credibilidade em que caiu… ..com a sua ajuda.

  10. Paulo Cavaleiro 20 de Janeiro de 2013 21:46

    Pela coragem e determinação demonstrada no melhor e no pior, existindo fortes indícios de que o doping é uma prática generalizada na disciplina, nomeadamente no Tour, continua a merecer o meu respeito e admiração, outro terão colaborado ou beneficiado tanto ou mais do que ele, mas estão calados.

  11. Rui Martins 21 de Janeiro de 2013 9:10

    LA será sempre um ser especial, por tudo o que fez e agora até pela forma como admite ter feito. Desilusão? Claro que sim! Mas como é possivel o homem mais controlado no antidopping no Tour passar todos os controles a negativo? É porque o sistema não é, ou era, fiável! Sendo assim todos podem estar dopados.
    Não consigo tirar conclusões!!!
    Prefiro lembrar a determinação e a capacidade de luta, isso sim um verdadeiro exemplo para todos!

  12. Filipa Vicente 21 de Janeiro de 2013 13:23

    É importante deixar uma questao clara, por muito que nos custe, o desporto de alta competiçäo näo é realmente desporto na sua essência. Pelas razöes referidas no inicio do artigo: o desporto é para ser algo saudável e näo um atentado aos limites fisiológicos.
    Eu näo sou a favor do doping nem contra…respeito as opçöes de cada um, desde que saibam assumir as consequências.
    Mas considero-me realista! Desporto é o que fazemos quando calçamos as sapatilhas e vestimos o equipamento, vamos correr/outra coisa e temos de dividir o nosso tempo de lazer com familia, trabalho, etc.
    O que nós vemos na TV é, por muito espectacular que possa parecer e por muito que nos possa motivar, puro ENTERTAINEMENT!

  13. Vitor Dias 21 de Janeiro de 2013 15:14

    A propósito, no JN de hoje:

    Biblioteca transfere livros sobre Armstrong para a secção de ficção

    http://www.jn.pt/PaginaInicial/Cultura/Interior.aspx?content_id=3005247

  14. Orlando Silva 24 de Janeiro de 2013 14:50

    Quanto ao caso Armstrong, só posso dizer que obviamente foi uma desilusão ver um grande ídolo do ciclismo enveredar por esses caminhos menos corretos, mas também acredito que ele neste momento também esta a ser um bode expiatório, de um complexo caso que envolve muitas pessoas, alguém tinha que cair e ele foi o primeiro a ter que dar a cara!

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