Requiem a um par de meias

Autor: Rui Pinho  /   Novembro 22, 2012  /   Publicado em Equipamento  /   7 Comentários

Requiem a um par de meiasTodos sabemos da importância do equipamento do corredor. Essa importância é exponenciada quando se trata (como era o meu caso) de alguém que nunca correu mais que uns escassos quilómetros e para quem, uma afoita aventura se resumia a fazer uma ou duas 1/2 maratonas por ano. Quando decidi dar o passo seguinte, o de me preparar para a maratona, fui-me aconselhar junto de quem sabia o que era correr tal distância.

O medalhado olímpico em Los Angels 1984 António Leitão, tinha uma loja de artigos desportivos em Espinho. Fui lá num dia de Agosto. Cheguei, disse à empregada que lá estava que queria aconselhamento para a compra de umas sapatilhas para correr uma maratona. Pegou no telémovel, “Sr. António, está aqui um senhor que não sabe o que calçar para uma Maratona”. “Trouxe as sapatilhas velhas?”, perguntou-me. Esquecera-me desse conselho que já tinha lido. Pormenores. Regressei uns dias depois, já com um par de sapatilhas usado.

Como de costume, o António Leitão não estava na loja, mas rapidamente veio, quando a jovem lhe telefonou. Apresentou-se simpaticamente dizendo o nome, como se eu não me lembrasse daquele bigode, um adereço habitual na década de 80, a marcar um sorriso de orelha a orelha, com uma camisola de alças branca, apenas com as cores da nossa bandeira na horizontal a dividi-la ao meio do peito que haveria de receber a medalha de bronze dos 5000 mts. O Leitão era uma referência do atletismo nacional e sofria agora por não poder correr, mas logo se disponibilizou para me ajudar no que eu precisasse. Era um ser humano, na vida como na corrida, de uma humildade, alegria e altruísmo contagiantes. Um herói para muitos que como eu o viram correr elegantemente, quer nas pistas, quer na estrada ou corta-mato.

Aconselhou-me as sapatilhas indicadas para o meu peso e passada (após análise das velhas) e quase me obrigou a comprar um par de meias. Quase, porque não precisou, convenceu-me. O argumento foi simples: “Quem gasta dinheiro com equipamento tem que comprar bom, para comprar poucas vezes. E principalmente para proteger o que mais sofre numa maratona: Os pés.”

Sábias palavras. As sapatilhas fizeram mais de 3.000 km. As meias não sei bem, mas tenho já 6 maratonas de estrada, todas corridas com elas, bem como todos os treinos longos. Nas 6 ultras que fiz, apenas em duas não as utilizei. Têm seguramente mais quilómetros que muitas sapatilhas que por aí andam.

Agora que chegou a hora de as reformar, achei justo fazer esta resenha de um elemento tão importante como descurado por muitos de nós, atletas de pelotão.

24h Portugal 2018

7 Comentários

  1. João Meixedo 22 de Novembro de 2012 12:38

    Ainda bem que a internet não disponibiliza o 5º sentido 🙂
    Bela crónica.
    Aquele abraço.

  2. José António 22 de Novembro de 2012 22:34

    Gostei.

  3. Paulo Pires 22 de Novembro de 2012 23:51

    Em várias provas em Espanha e este ano na maratona do Porto estiveram uns espanhóis representantes da WrightSock. Abençoados!!! Recomendo a quem sofre como eu de pézinhos de donzela.

  4. Fernando Andrade 23 de Novembro de 2012 17:50

    Gostava tanto delas (p’lo conforto
    Em tantos passos dados na Corrida
    Por terreno diverso, liso ou torto
    P’la protecção dos pés, de alguma ferida);
    Com elas abraçava o são desporto
    Correndo solto, assim, feliz da vida…
    Maldito seja o tempo, que traz rugas
    E transforma em trapos tais peúgas .

    Abraço, Vitor. Também a mim me custa desfazer das coisas e acabo por ter gavetas cheias de meias rotas, eheh

  5. Vitor Dias 23 de Novembro de 2012 19:35

    Obrigado Fernando.
    No entanto lembro que o texto não é meu mas do Rui Pinho.
    Quanto à tua escrita… fico encantado com cada linha que escreves.
    É impossível ficar indiferente e cada vez acho mais que estás na profissão errada.
    Grande abraço.

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