Correr para crer

Autor: Joao Meixedo  /   Novembro 14, 2012  /   Publicado em Notícias  /   9 Comentários

Correr para crerÉ notório o recente crescimento de popularidade da corrida entre todas as faixas da população, sendo a presença massiva de pessoas nas provas de estrada uma prova desse facto, o que não explica, no entanto, o seu aparecimento.

Quem são, então, esses corredores amadores? Numa abordagem ampla é talvez possível dividi-los em três grupos distintos, sendo o primeiro constituído por pessoas altamente competitivas, e para as quais treinar e competir representa uma actividade compensadora mesmo em termos monetários. Num segundo grupo colocaria todos os que correm por prazer, que treinam com e por prazer, como acontece com qualquer outro hobby, e para os quais o exercício é ele mesmo o motivo da satisfação. Temos, por último, um grupo de pessoas consciente dos benefícios da corrida mas que não tira satisfação do exercício. Diria que este é o grupo dos que correm como quem toma uma medicação, dos que têm uma atitude demasiadamente passiva perante a actividade física pelo que com a mesma leveza com que iniciam também abandonam a corrida e permanecem eternamente neste ciclo vicioso, pelo que podem ser considerados eternos iniciantes. De qualquer modo é cada vez mais reduzido um quarto grupo, o das pessoas que encaram o exercício físico apenas como uma forma desagradável de se cansarem desnecessariamente, e que não praticam nem sentem necessidade de praticar qualquer tipo de desporto. Provavelmente a maior parte de nós encaixa no segundo grupo, mas espreitando o primeiro; não sendo a corrida por prazer incompatível com a definição de metas e objectivos pessoais tanto de treino como de resultados competitivos.

Se por um lado é óbvio que a forma ancestral básica de deslocação do ser humano é caminhando – motivo pelo qual há vozes que defendem que a corrida é contra-natura – não é menos verdade que a partir do momento em que este se encontre com pressa, a caminhada de imediato se transforma em corrida. Atente-se ao tradicional exemplo da caça, quer no papel de caçador quer no de potencial presa.

Longe vão todavia esses tempos, sendo que os motivos que hoje nos levam a começar a correr podem ser tão distintos como o Verão a aproximar-se e a gravidade a fazer das suas, colocando as nossas curvas fora do local onde nos habituamos a vê-las, ou a necessidade de transição de um desporto mais violento para um aparentemente menos agressivo, mas que nos permita manter a forma.

Seria demasiadamente exaustivo e ambicioso o esforço de tentar elencar a totalidade dos diferentes impulsos que faz com que cada um de nós decida calçar as sapatilhas e saltar para a estrada; de qualquer das formas arrisco-me a afirmar que a decisão de começar a correr tem maioritariamente por base preocupações de saúde, nas suas mais variadíssimas vertentes.

Se, ao invés, nos centrarmos nos motivos que levam à selecção da corrida em detrimento de outro qualquer desporto para fazer face às nossas necessidades desportivo-recreativas, um sem número de vantagens salta à vista. Desde logo a facilidade logística de um desporto que dispensa a necessidade de conciliar agendas e de reserva e pagamento de local específico para a sua prática, pois pode ser praticado de forma solitária e recorrendo-se a equipamento simples e barato, que nos pode acompanhar em qualquer circunstância, permitindo-nos que não decorram mais do que cinco minutos entre a decisão de correr e começar efectivamente a fazê-lo. São mais-valias que se destacam relativamente às outras práticas desportivas.

A possibilidade de convívio com atletas de renome, que treinam nos mesmos locais que nós e com quem facilmente se chega à fala, e a participação em provas em que os mesmos estão presentes, misturando-se profissionais com amadores e mesmo com “aprendizes de feiticeiro” é seguramente um factor de motivação, dificilmente ao alcance na esmagadora maioria dos desportos.

Não obstante estas aparentes vantagens, para quem se inicia nesta prática desportiva é de todo aconselhável que o faça integrado num grupo de corredores mais experientes, sobretudo se essa resolução se segue a anos de alguma passividade desportiva, pois há precauções que devem ser tomadas para evitar situações para as quais poucos corredores amadores estão alertados.

Sendo o humano uma criatura eminentemente competitiva, deve ser visto com naturalidade o facto de que ao fim de determinado tempo de treino regular se comece a procurar algum tipo de desafio competitivo, até porque a obtenção de sucesso melhora a nossa auto-estima, sendo essa mais uma das vantagens da corrida. Todavia, à medida que esse sucesso competitivo à escala pessoal vai surgindo e que a corrida competitiva se vai gradualmente transformando numa dependência, o risco de irem sendo redefinidas metas excessivamente ambiciosas apresenta-se como uma contrapartida perigosa que normalmente leva ao excesso de treino e a consequentes lesões, que a generalidade dos corredores, principalmente aqueles que provêm de outros desportos, pensava que nunca encontraria na corrida.

De todo o modo, a maioria das pessoas que corre fá-lo por recreação e prazer, sendo a corrida, acima de tudo, uma fonte de enorme satisfação, quer se trate de treinos ou de participação em provas. Não estão preocupados com resultados e não correm contra o cronómetro nem contra os seus companheiros de treino. Cortar a meta é a principal fonte de satisfação, quer se trate de uma curta prova de estrada ou de uma maratona.

Nas provas de estrada, logo ao seguir ao grupo de atletas de topo segue um segundo grupo de amadores com características competitivas, após o que surge um considerável intervalo para esse último e extenso número de “corredores por prazer”, que constitui a mais gratificante secção da mole corredora, que dão colorido às provas e que fazem do evento uma festa para quem nela participa e para quem a ela assiste, e sobre os quais deveria recair o maior agradecimento por parte dos organizadores, pois a estes voluntários pagantes se deve, mais do que sucesso, a única possibilidade de viabilização financeira, fundamental à existência destes eventos.

24h Portugal 2018

9 Comentários

  1. Jacinta Almeida 14 de Novembro de 2012 21:50

    Caro João Meixedo
    O artigo está excelente. Os meus Parabéns.

  2. Mário Pinto 14 de Novembro de 2012 22:23

    Parabéns pelo artigo.
    Um abraço do segundo grupo.

  3. Luis Sousa Pires 15 de Novembro de 2012 13:41

    Grande Meixedo, podes crer! Quem fala assim…

  4. Fernando Pereira 15 de Novembro de 2012 20:40

    Fernando Pereira
    Um abraço do segundo grupo.

  5. João Meixedo 15 de Novembro de 2012 23:48

    Caros amigo(a)s,
    Muito obrigado pelas vossas palavras.
    Um abraço … aqui do segundo grupo 🙂

  6. Rui Pinho 16 de Novembro de 2012 14:13

    Excelente artigo Meixedo. É o chamado “abre olhos”. Somos todos amadores, gostamos de correr, mas muitos caímos na tentação de querer sempre dar “o litro”. Depois aprendemos com as lesões e abrandamos os ritmos. Eu, como sabes sou do fim do pelotão. E isto apenas porque comecei a correr já “lesionado”, o receio de lesões precede o gosto pela corrida. Mas reconheço o pelotão exactamente como o descreveste. Aquele abraço.

  7. João Meixedo 17 de Novembro de 2012 8:13

    Essa perspectiva de começar a correr lesionado é interessante, Rui; até temos um ditado para isso: aquele do fundo das costas e do medo … mas parece que alguns de nós têm as pernas directamente ligadas ao lombo 🙂
    Aquele abraço.

  8. Roberto Torres 23 de Novembro de 2012 16:34

    Bom artigo… concordo plenamente.
    Eu cá acho que a nossa história nos tornou corredores desde sempre! Podemos é estar a “evoluir” para caminhantes…;)

  9. João Meixedo 25 de Novembro de 2012 15:12

    Uma perspectiva a que faz todo o sentido, Roberto 🙂

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