Dor de burro

Autor: Jose Gomes Pereira  /   Setembro 01, 2012  /   Publicado em Lesões e Doenças  /   9 Comentários

Dor de burroOs praticantes regulares de atividade física, particularmente os que se dedicam a modalidades de resistência, conhecem bem a sintomatologia dolorosa abdominal de caráter transitório. Na gíria do treino, esta manifestação dolorosa é bem conhecida do atleta, mas clinicamente mal explicada, designa-se “dor de burro”. A relativamente escassa literatura científica sobre o assunto designa-a por dor abdominal transitória relacionada com o exercício (Exercise-related Transient Abdominal Pain – ETAP). No presente apontamento, tentaremos uma abordagem no âmbito da sua etiologia e prevenção.

Introdução

Os praticantes regulares de atividade física, particularmente os que se dedicam a modalidades de resistência, conhecem bem, por experiência própria, os efeitos da sintomatologia dolorosa abdominal de caráter transitório que, pela intensidade e desconforto que provocam, podem determinar a interrupção do exercício. Na gíria do treino esta manifestação dolorosa bem conhecida do atleta, mas clinicamente mal explicada, designa-se “dor de burro”.

 

Delimitação conceptual

A relativamente escassa literatura científica sobre o assunto designa-a por dor abdominal transitória relacionada com o exercício – DATE (Exercise-related Transient Abdominal Pain – ETAP). Na gíria do treino, para os anglo-saxónicos, é designada por “stitch”. Costuma ser descrita como uma dor localizada, por vezes intensa e incapacitante, uni ou bilateral, nos hipocôndrios direito, esquerdo ou ambos. A dor pode também irradiar para o ombro homolateral.

Na condução de um estudo de investigação sobre a DATE, é condição preliminar e fundamental a clarificação do facto de se tratar de uma manifestação única, isolada ou, ao invés, uma manifestação decorrente de uma multiplicidade de fatores. Se a considerarmos como manifestação isolada, a fim de um melhor esclarecimento sobre o objeto de estudo, impõem-se uma definição formal. Propomos a seguinte: dor abdominal relacionada com o exercício, de caráter transitório, com desaparecimento ou atenuação com a continuação do esforço, localizada e referida ao hipocôndrio, logo abaixo das costelas, com ou sem irradiação ao ombro homolateral. Pode ocorrer em qualquer tipo de atividade desportiva.

 

Epidemiologia

Morton e Callister estudaram 965 atletas de 6 modalidades desportivas. Estes estudos revelaram que um número significativo de atletas experimentara este tipo de sintomatologia: atletismo de meio-fundo e fundo (69%), natação (75%), ciclismo (32%), basquetebol (47 %), aeróbica (52%) e hipismo (62%). A DATE parece ser mais prevalente nas atividades que envolvem grandes grupos musculares, de caraterísticas aeróbias e com carga vibratória. É invariavelmente descrita como uma dor bem localizada (79%), nas regiões direita ou esquerda do abdômen (78%), com irradiação ao ombro em 14% dos casos estudados. Embora a DATE possa interferir com o desempenho, a sintomatologia tem tendência a desaparecer com a continuidade do exercício e adequação ao gesto técnico e ao esforço da função ventilatória.

 

Etiologia

A generalidade dos estudos apontam duas causas relativamente consensuais: a isquemia diafragmática e a tensão mecânica sobre os ligamentos esplancnicos. As menos citadas são a irritação do peritoneu parietal e, ainda menos frequentemente, as cãibras musculares.

No que concerne à localização, é uma dor subcostal, frequente nos quadrantes abdominais supero-externos (hipocôndrios), podendo no entanto apresentar outras localizações ou revelar um caráter errático.

A variabilidade observada no local da dor, reportada por alguns atletas, contraria a hipótese  que relaciona o envolvimento dos ligamentos viscerais, exemplo da natação. Por outro lado, a inervação visceral dos ligamentos parece estar em desacordo com a natureza bem localizada da dor, o que pode sugerir uma origem somática. Estas observações levaram ao desenvolvimento de explicações alternativas.

A hipótese etiológica que advoga a isquemia do diafragma pressupõe que a redistribuição do débito sanguíneo em esforço, com clara redução da perfusão esplancnica abdominal e que envolveria também o diafragma – músculo hiperfuncionante no decurso do esforço. Esta presunção tem sido fortemente questionada, não só por não ter sido provada, mas também por não seguir o padrão fisiológico das adaptações agudas, hemodinâmicas e outras, típicas da musculatura hiperfuncionante. Para Steege e col., a isquemia abdominal está presente em 100% dos atletas submetidos a provas de intensidade máxima e em 50% dos submetidos a provas de esforço de intensidade sub-máxima. Os atletas que revelam dor abdominal no decurso do esforço são portadores de gradientes gástricos mais elevados e maior acidose metabólica, avaliada pela lactatemia, para a mesma intensidade do esforço, quando comparados com os que não se revelaram portadores da sintomatologia dolorosa abdominal11.

A hipótese que se consubstancia na tensão mecânica sobre os ligamentos esplancnicos conta com um suporte fisiológico credível. De facto, uma das principais adaptações hemodinâmicas agudas nas respostas ao esforço é a hiperperfusão sanguínea da musculatura hiperfuncionante, com concomitante hipoperfusão do território abdominal – visceral. Se considerarmos que o aumento da volémia na resposta ao exercício decorre também de uma constrição do baço, em primeiro lugar, e também do fígado, órgãos localizados nos hipocôndrios esquerdo e direito respetivamente, podemos aceitar como fisiologicamente credível que a causa esteja relacionada com as alterações hemodinâmicas na resposta aguda ao exercício, com redução do fluxo sanguíneo local abdominal e simultânea constrição esplénica. Este facto poderá ser agravado pelo efeito vibratório associado ao exercício. Não obstante a hipótese diafragmática pode ser contrariada pela elevada prevalência deste tipo de sintomatologia em cavaleiros, uma atividade que não se carateriza por solicitação ventilatória elevada, nem por uma hipoperfusão sanguínea do território visceral abdominal. Mantêm-se no entanto todos os outros fatores e a carga vibratória.

O modelo explicativo consignado no parágrafo anterior não contraria a hipótese que aponta para a irritação do peritoneu parietal. De facto, a sua relação com o nervo frênico, com eventual irradiação da dor ao ombro, obedece e respeita o critérios anatomofisiológicos. Para Morton, a irritação do peritoneu parietal é uma hipótese plausível e defensável no plano fisiológico, atendendo à sua sensibilidade á carga vibratória e aos movimentos de flexão e rotação do tronco. A região subdiafragmática do peritoneu parietal é inervado por ramos do nervo frênico, o que explicaria a localização errática da dor e a relativamente frequente irradiação ao ombro. O mecanismo subjacente à irritação peritoneal, apesar de especulativo, baseia-se no facto do mecanismo de atrito poder ser o resultado das variações de pressão intra-abdominal, com excursões diafragmáticas mais amplas na resposta aguda ao exercício, associados aos mecanismos de contração e distensão visceral, agravados em esforço na fase pós-prandial.

 

Como prevenir a DATE ?

A generalidade dos estudos refere a repleção gástrica como uma das causas mais comummente aceites. De facto, a sintomatologia dolorosa é mais frequente na fase pós-prandial. Nesta circunstâncias, as conhecidas regras de ingestão de alimentos, sólidos e líquidos, parecem jogar um papel fundamental na prevenção. A generalidade dos autores consultados apontam para a necessidade de uma criteriosa estratégia de hidratação pré-esforço, com restrição de líquidos hipertónicos. Importa também a implementação de corretas metodologias de intervenção em treino e competição, invariavelmente relacionadas com o nível de condição física (atletas mais treinados e em melhor condição física apresentam menos queixas), com a intensidade inicial do exercício, com um deficiente “aquecimento” e com as condições ambientais – baixa temperatura em que se realiza o exercício. A idade e o sexo também se afiguram como fatores a considerar, sendo clara a prevalência em atletas jovens e mais frequente no sexo masculino.

Para além dos aspetos referidos no parágrafo anterior, algumas estratégias podem ser alvitradas:

 

1. Controlo do ritmo ventilatório, alternância entre tempos expiratório e expiratório. Este controlo objetiva a sincronização entre a técnica e a amplitude dos ciclos ventilatórios, nomeadamente na fase expiratória permitindo um movimento diafragmático mais amplo. Não é errado, diremos mesmo que é aconselhável, que se incremente a “respiração abdominal” aquando do surgimento dos primeiros sintomas. Apesar das avaliações por espirometria em episódios de DATE não revelaram alterações significativas, os atletas reportam alivio da sintomatologia através de controlo da ventilação.

2. Treino da  musculatura abdominal, nomeadamente da parede antero-lateral. Acredita-se que a parede abdominal, na sua fundamental ação de suporte dos órgãos intra-abdominais e também como músculos respiratórios, permitem uma mais rápida adaptação às alterações agudas, frénicas e hemodinâmicas, verificadas na fase inicial de exercícios intensos de caraterísticas gerais.

3. Reeducação postural e reforço da musculatura dorso-lombar. A manifestações de dor abdominal relacionada com o exercício são mais frequentes em portadores de desvios da coluna vertebral, particularmente cifose da coluna dorsal.

 

 

Bibliografia

Morton DP, Callister R. Electromyography and spirometry measurements during ‘stitch’ [abstract]. Fifth International Olympic Committee World Congress on Sport Sciencesbook of abstracts Sydney, October, 1999. ACT: Sports Medicine Australia, 1999;226.

Morton DP, Callister R. Characteristics and etiology of exercise-related transient abdominal pain. Med Sci Sports Exerc2000;32:432–8.

Morton DP, Aragon-Vargas LF, Callister R. Effect of ingested fluid composition on the experience of exercise-related transient abdominal pain. Proceedings of the Australian Conference of Science and Medicine in Sport. Perth, October. ACT: Sports Medicine Australia, 2001:63.

Morton DP, Aune T. Role of the thoracic spine in the experience of exercise-related transient abdominal pain. Proceedings of the Australian Conference of Science and Medicine in Sport. Perth, October. ACT: Sports Medicine Australia, 2001:80.

Morton DP, Callister R. Factors influencing exercise-related transient abdominal pain.Med Sci Sports Exerc2002;34:745–9.

Morton DP. Exercise related transient abdominal Pain. The causes of exercise related transient abdominal pain remain to be elucidated. Br J Sports Med 2003;37:287–288.

Morton DP, Aune T, Callister R. Influence of body type and posture on the experience of ‘stitch’ [abstract]. Fifth International Olympic Committee World

Muir, B. Exercise related transiente abdominal pain: a case report and review of the litarature. J. Can Chiropr Assoc 2009; 53(4).

Plunkett BT, Hopkins WG. Investigation of the side pain ‘stitch’ induced by running after fluid ingestion. Med Sci Sport Exerc 1999;31:1169–75.

Rehrer NJ, Brouns F, Beckers EJ, et al. Physiological changes and gastrointestinal symptoms as a result of untra-endurance runningEur J Appl Physiol1992;64:1–8.

Steege FRW, Geelkerken RH, Huisman AdB, Kolman JJ. Abdominal symptoms during physical exercise and the role of gastrointestinal ischaemia: a study of 12 symptomatic athletes. Br J Sports Med. 2011 Oct 20.

 

Autor do artigo:

Prof. Dr. J. Gomes Pereira

Médico, Medicina Desportiva. Professor da Faculdade de Motricidade Humana. Lisboa

Publicado na Revista de Medicina Desportiva informa

A publicação aqui apresentada teve a respectiva autorização do seu autor e da revista atrás mencionada.

24h Portugal 2018

9 Comentários

  1. Luis Rato 1 de Setembro de 2012 16:27

    Meu caro Prof. Dr. J. Pereira Gomes
    Agradeço a sua introdução sobre a explicação da dita “dor de burro” mas ou eu sou muito burro ou até parece que quem corre são todos intelectuais. Naturalmente eu entendi a explicação, mas também entendo quem anda neste mundo das corridss, nem sempre tem a mesma formação de quem escreve e por vezes há necessidade de simplificar a linguagem de modo a que toda a gente entenda. Neste caso pontual todos nós que andamos nests corridas sabemos o que é a dor de burro, mas o que muitos de nós não sabemos, é como evitá-la ou como fzê-la deaparecer quando aparece quando estamos a correr. E é isso que é necessario explicar numa linguagem mais corrente, mais simples de modo a que todos entendemos, traduzindo para uma linguagem mais simples esses termos tecnicos.
    obrigado pela atenção e explicaçao.
    LR

  2. Fernando Conceição 2 de Setembro de 2012 18:41

    Faço minhas as palavras do Luis Rato.

  3. Lopes - Fafe 3 de Setembro de 2012 19:50

    Eu todas as épocas quando inicio os treinos após uma paragem, logo nos minutos iniciais da corrida aparece a dor eu costumo carregar um bocadinho no local e inclinar-me, para aquele lado, e passa rápidamente, ás vezes salta para o outro, e eu repito o exercicio, a dor desaparece e volto ao ritmo. Também me acontece nas meias maratonas, quando bebo água a mais.
    Resumindo em minha opinião a dor do burro, tem origem em o atleta estar mal preparado, fazer mau aquecimento e beber ou comer seguido de corrida.
    Quanto ao conteúdo, gostei do que li, embora seja muito científico.
    A todos saudações desportivas
    João Lopes

  4. susana 4 de Setembro de 2012 12:34

    complica de ler..e de perceber!!!
    será que não se consegue explicar com uma linguagem mais simples??

  5. Vitor Dias 4 de Setembro de 2012 16:07

    Caros Luis Rato, Fernanda Conceição e Susana

    Antes de mais queremos agradecer a visita ao nosso site, o interesse pelo artigo em causa, assim como os vossos oportunos comentários.

    Tal como consta no final do artigo, o mesmo foi publicado na Revista de Medicina Desportiva informa, uma revista destinada principalmente a profissionais de saúde, pessoas essas que possuem um conhecimento científico específico e “linguagem” especial. Dessa forma, os conteúdos ou termos usados, poderão estar escritos em linguagem “menos corrente” e portanto não compreensíveis por alguns leitores do Correr por Prazer (digo isto em qualquer conotação negativa, aliás onde eu próprio também me incluo).

    No entanto, e dado a falta de artigos no que respeita a esta matéria (já por várias vezes nos foi solicitado a abordagem deste tema), e sendo eu um leitor assíduo desta prestigiada revista, achamos pertinente e muito útil partilhar o artigo, fazendo-o tal e qual como ele foi publicado na revista. Nem de outra forma o poderíamos fazer, sob pena de estarmos a desrespeitar o trabalho desenvolvido pelo autor.

    Uma vez mais agradecemos o interesse no artigo e prometemos em próximas publicações, pedir autorização aos autores dos mesmos, de forma a que a linguagem utilizada venha de encontro ao leitor “mais comum”, beneficiando e chegando o mais possível aqueles que se interessam pelas nossas publicações.

    Cumprimentos

    Vitor Dias

  6. wanda 22 de Janeiro de 2014 22:46

    também concordo que num site desta natureza seria um tema interessante para a maioria das pessoas que corre… mas que deveriam evitar os termos técnicos que tornam a leitura complicada…
    .obrigada de qq modo por todas as outras publicações acessíveis

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