Revolução

Autor: Joaquim Margarido  /   Novembro 22, 2011  /   Publicado em Notícias
Tags: joaquim margarido, ovar
Tempo de Leitura: 6 minutos

De súbito a náusea, a vertigem. Depois, o nada! Sentiu como que um remoinho que se formava no estômago, lhe arrepanhava fígado e pulmões. De seguida os rins, as tripas, o coração. Aquele estalido agudo e penetrante permanecia cravado na têmpora esquerda, o cheiro a pólvora impregnava-lhe as narinas e o olhar vazio parecia fixo num ponto distante, indefinido, imperceptível. E enquanto o ventre implodia, viu, tal como dizem, a sua vida num ápice, ao correr da mente.

Tinha preparado tudo ao pormenor. Vivera e revivera aquele momento, antevira-lhe o simbolismo, a carga emocional, num misto de coragem e exaltação. Todos os olhos se cravariam nele e então seria, mesmo que por um instante apenas, o centro das atenções, o senhor do mundo. Afinal, tudo desembocava agora naquela triste e lamentável figura que fazia dele o mais fraco entre os mais fracos, um ser completamente inqualificável, inútil, desprezível.

A decisão tinha sido tomada num segundo, há meses atrás. Como todos os dias, chegara do escritório às sete em ponto. Beijara desprendidamente a mulher sem sequer ter reparado no seu novo penteado. Passara os olhos pela correspondência e sentara-se à mesa à espera de ser servido. Os filhos aproximaram-se sem o olharem. Jantou depressa, quase sem falar, preso vá-se lá saber a que pensamentos. E enquanto ela ficou a tratar da loiça e os filhos subiram ao quarto, levantou-se e deixou-se cair pesadamente no sofá em frente à televisão. De canal em canal, à espera das nove, deu com um filme que lhe prendeu a atenção. Era passado na Inglaterra e dava para perceber que a vida não estava nada fácil para aquela gente. O desemprego afectava uma larga camada da população e, para ganhar uns trocos, meia-dúzia de “maduros” tinham decidido fazer um “show” musical em que, peça a peça, a roupinha ia desaparecendo de cima do corpo até ficarem tal como vieram ao mundo, naquilo a que convencionaram chamar “The Full Monty”.

Identificou-se imediatamente com uma das personagens. Baixo, atarracado, ventre proeminente, nada o estilo “glamouroso” de quem, meneando o corpo, se dispõe a mostrar atributos físicos dignos de nota. A personagem bem se esforçava por melhorar a linha, subia colinas ou atravessava prados a correr, quase até cair para o lado, ou espartilhava-se em largas bandas de filme plástico, na vã tentativa de perder uns quilos de peso. Mas era incapaz de ceder à tentação de uma simples barrita de chocolate. Ou duas, ou três…

Quando desligou a televisão para se ir deitar, não resistiu a mirar-se ao espelho. E não gostou mesmo nada do que viu. Ainda olhou para a balança, mas evitou-a. Ao entrar na cama notou que a mulher, pressentindo-o, se virara para o outro lado. E ali ficou acordado, durante uma infinidade de tempo, barriga para o ar, as pernas cruzadas, sentindo que só poderia censurar-se a si próprio e que era chegada a hora de pôr um ponto final nesta vida. Se outros o fizeram, ele fá-lo-ia também.

Os dias transcorreram uns atrás dos outros. A “cisma” passou a ser maior que uma “doença”. Cada vez mais reservado, chegava agora do trabalho cerca de duas horas após o habitual, sem disso dar qualquer explicação à mulher. Jantava à pressa e sentava-se no sofá a ler. Eram livros e revistas “da especialidade”, como ele dizia, os quais se recusava a partilhar. Mas pouco tempo se demorava por ali. Quando a mulher subia ao quarto, já ele dormia profundamente, como que invadido por um cansaço profundo, do qual necessitasse absolutamente de recuperar.

A atitude desprendida dos filhos contrastava agora com a da mulher. Preocupava-a a postura do marido, sentia-lhe uma ansiedade crescente. Via-o muito mais magro, notava que alterara o próprio regime alimentar, que já não lhe pedia de vez em quando um assado de que tanto gostava. E sentia o coração estremecer quando o via sair de manhã para o trabalho, aprumado como sempre, mas agora com um saco de lona a par da mala de executivo de fechos cromados que lhe dera pelo Natal de há dois anos. Um dia, quase a medo, perguntara-lhe para que era o saco. Respondera-lhe, meio a sério, meio a brincar, que levava ali “as suas pistolas”.

O dia era chegado. Escolhera uma data especial, simbólica, marcante. Uma data que gritasse alto e bom som a palavra “REVOLUÇÃO”. O 5 de Outubro era perfeito. A mulher estaria de turno na fábrica e ele “despacharia” os filhos para os sogros e estaria sozinho para pôr o plano em prática. A noite, tinha-a passado em claro. Via e revia ao pormenor todos os passos a dar, fazia e refazia a lista dos materiais necessários à prossecução dos seus objectivos, de trás para a frente. Rememorava tudo o que lera e refazia os passos, um a um, até ao momento decisivo, derradeiro, sem retorno.

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A manhã encontrou-o mal humorado, carregado de incertezas, vazio por dentro, vacilante, derrotado. Era inútil pensar mais no assunto, a decisão estava tomada. Agora era seguir em frente, levar avante a derradeira parte do plano. Cambaleante, dirigiu-se à casa de banho. Enquanto sentia a água quente bater-lhe com força na nuca, lembrou-se que este era o erro número um. Quanto mais tenso, mais determinado. Para quê relaxar, amolecer o corpo, esmorecer a vontade? Depois, enquanto desfazia a barba, deu-se conta do erro número dois. Ninguém faz a barba nestas ocasiões. Era um ritual todas as manhãs, mas esta era uma manhã diferente, bem diferente por sinal. Preparou o saco de lona com o mínimo indispensável, as suas pistolas ao de cima. Rabiscou à pressa um bilhete para a mulher, deixou-o displicentemente em cima da mesa da sala e saiu.

A mulher chegou mais cedo que o costume. Pensou que o encontraria ainda a dormir. O quarto vazio, a cama desfeita, havia ali algo que não batia certo. Com o coração descompassado desceu as escadas e viu o bilhete, meio dobrado, em cima da mesa. Leu-o apressadamente e saiu de casa a correr. Meteu-se de novo no carro e arrancou a toda a velocidade. Sabia bem onde ele estava e precisava urgentemente de chegar a tempo. As suas suspeitas iam-se transformando em certezas à medida que o tempo se escoava irremediavelmente. A noite passada na fábrica tinha-lhe esgotado o ânimo e era às últimas reservas, ao mais fundo de si, que recorria agora neste verdadeiro contra-relógio.

Deu com uma primeira barreira policial, explicou a situação e conseguiu que a deixassem passar. Prosseguiu, entrou em contramão e deixou o carro estacionado no meio da estrada. Corria, corria agora com quantas forças tinha, por entre dezenas de vultos que a fitavam atónitos, as grossas lágrimas a gelarem-lhe a face. Sabia que estava próximo, muito próximo, mas sentia-se impotente para continuar a avançar. E, de súbito, o tiro… Aquele estampido atroando os ares, levantando revoadas de pombos e pondo tudo à sua volta a mexer.

Sentiu o sangue gelar-se-lhe nas veias. Os segundos passavam agora cada vez mais lentamente. Viu a mente a esvaziar-se. Deixou de ouvir aquela turba ululante de gente que por ela passava e a invectivava a que saísse dali para fora. Tanta gente ali à volta, gritos, insultos, encontrões, e ela, inerte, indefesa, o retrato da solidão no maior abandono de todos os mundos. Subitamente, sentiu os joelhos dobrarem-se. Sentou-se maquinalmente na berma do passeio, depositou a cabeça entre as mãos e chorou. Chorou convulsivamente, sufocadamente, pensando nele como se tivesse acabado de perder a única coisa que realmente valia a pena neste mundo.

As últimas pessoas iam passando já sem olharem para ela. A rua começava a ficar deserta e só um ou outro vulto ainda se mantinha por ali. E de repente, viu-o. Não muito longe, do outro lado da estrada, ali estava ele, igualmente sentado no passeio, inconfundível, com as suas “pistolas” nos pés, uns New Balance vermelhos, novinhos em folha. À medida que se aproximava, sentiu invadi-la um misto de ternura e admiração tão grande, que pareceu que o peito lhe ia rebentar. Ele ergueu os olhos e viu-a também. Não estariam a mais de vinte metros um do outro. Levantou-se e abriu os braços, como que a perguntar-lhe: “Que fazes aqui?” Ela adivinhou-lhe a pergunta e devolveu-a, em voz bem alta: “Não podes desistir agora. Vai-te embora. Não percas tempo. Estarei aqui a ver-te chegar!”

Olhou em frente, hesitou. Voltou os olhos para a mulher, acenou-lhe e partiu, as pernas avançando como que mecanicamente, ainda a recompor-se daquele episódio que quase traiu os seus intentos. Ao longe, avistava-se ainda a cauda da longa fila. E esta Meia-Maratona Cidade de Ovar seria, para ele, uma verdadeira prova de fogo, a primeira de muitas, qual delas a mais marcante.

JOAQUIM MARGARIDO

 

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