Joelho de Corredor

Autor: Joao Carlos Maia  /   Setembro 01, 2011  /   Publicado em Lesões e Doenças
Tags: condromalácia, joelho, patelo-femural, rótula
Tempo de Leitura: 5 minutos

Joelho de CorredorJoelho de corredor é o nome comum que se dá à síndrome de dor patelo-femural, termo médico que designa dor na face anterior do joelho, proveniente da articulação patelo-femural (ou seja, a articulação entre a rótula e o fémur).

A síndrome de dor patelo-femural é geralmente associada a ligeiro desconforto/dor na parte anterior do joelho, acompanhados de incipientes sinais de inflamação, no entanto, quando não tratada, e sobretudo se se insistir no esforço, causa seguramente danos estruturais à articulação, conhecidos como condromalácia (desgaste da cartilagem articular).

A articulação do joelho é um mecanismo extremamente preciso, em que, quando o joelho dobra, a face posterior da rótula desliza ao longo de uma goteira existente no topo inferior do fémur. Quando existe algum “desalinhamento” desse mecanismo as componentes da articulação entram em esforço, provocando os referidos sintomas.

Estes “desalinhamentos” podem ser causados por:

Problemas nos pés, como o pé plano ou andar com o pé em pronação, são a causa mais frequente de síndrome de dor patelo-femural, especialmente nos corredores. Estas alterações induzem uma mudança de alinhamento do joelho, que rodará para dentro, colocando mais pressão sobre a articulação patelo-femural.

Mau Alinhamento da rótula. Por vezes são os próprios ligamentos em volta da rótula que não estão a desempenhar correctamente o seu papel de estabilização deste componente articular. Estas alterações resultam, por exemplo, de lesões antigas em movimentos de torção do joelho.

Lesões no joelho, incluindo contusões que provoquem lesão ligamentar e pequenas lesões repetitivas devidas ao treino excessivo ou ao mau gesto técnico combinado com laxidez ligamentar.

Uma diminuição/desequilíbrio da força muscular no membro inferior também pode contribuir para o agravamento desta síndrome, pois os músculos desempenham um papel importante ao absorver as tensões exercidas sobre o joelho.

Ângulo Q (de forma simplificada é o ângulo formado entre o alinhamento descendente do fémur e uma linha vertical, em que o eixo se localiza na rótula). Quando este ângulo é maior existe uma maior compressão sobre o lado externo da rótula aumentando a probabilidade de desenvolver joelho de corredor. Este fenómeno é mais frequente nas mulheres, pois têm uma bacia de formato mais largo e uma menor relação de força entre o quadricipete e os isquio-tibiais.

Esteja alerta aos seguintes sintomas:

Dor ao redor do joelho. A dor é sentida na parte da frente e no interior do joelho. Muitas vezes é difícil identificar o local exacto, podendo ser descrita como uma dor vaga à frente do joelho.

A dor não é constante. É geralmente pior ao subir e descer escadas ou em corrida. Além disso, pode ser provocada por, por exemplo, levantar depois de ficar sentado por longos períodos.

Pode haver uma sensação de crepitação acompanhada do som de “estalos” do joelho à medida que este mexe.

Por vezes ocorre inchaço ao redor da rótula.

 

Diagnóstico

Uma boa avaliação, incluindo uma história clínica e exame atento do joelho são suficientes para diagnosticar a síndrome de dor patelo-femural. Esta condição em si não é vista nos exames de imagem, no entanto um raio-X ou RM podem ser pedidos para efectuar algumas medições que comprovem o “desalinhamento” articular e para descartar outras patologias ou avaliar a extensão dos danos na articulação.

 

Tratamento

O objectivo do tratamento, numa primeira fase, consiste em controlar os sinais inflamatórios, através de:

Descanso: Evite caminhar ou estar muito tempo de pé. Se tiver de o fazer utilize canadianas. Andar a pé pode significar um agravamento da sua lesão.

Gelo: Aplique uma compressa de gelo na área lesada, colocando uma toalha fina entre o gelo e a pele. Use o gelo por 20 minutos e depois espere pelo menos 40 minutos antes de aplicar gelo novamente.

Compressão: um joelho elástico pode ser usado para controlar o inchaço.

Elevação: A perna deve ser elevada um pouco acima do nível do seu coração para reduzir o inchaço.

Analgésicos e anti-inflamatórios não-esteróides poderão ser receitados pelo médico para controlar o processo inflamatório e aliviar as dores.

Após este período, deverá ser realizada uma avaliação postural rigorosa (estática e dinâmica) do paciente por um ortopedista, fisioterapeuta e/ou podologista.

O primeiro passo após a avaliação será corrigir alguma alteração biomecânica, sobretudo através de reeducação postural, e da escolha de calçado, palmilhas ou órtoteses mais adequados a cada caso.

Após este trabalho o tratamento irá incidir sobretudo no fortalecimento muscular e na reeducação do gesto desportivo. Algumas técnicas utilizadas são:

Exercícios de fortalecimento estático do quadricípite e glúteos.

Estimulação eléctrica funcional (FES) pode ser usada para estimular o músculo quadricípite.

A ligadura de tape para o realinhamento da rótula no sulco femural também demonstrou ter efeitos positivos em jovens do sexo feminino entre os 10 e os 20 anos com este síndrome.

Progressivamente devem ser introduzidos exercícios em carga, como o leg press e agachamentos (nunca a mais de 90º de flexão do joelho).

A cirurgia é pouco usada nestes casos. No entanto, pode ser útil para, por exemplo, liberar um ligamento tenso, de forma a corrigir o alinhamento da rótula.

 

Alguns exercícios terapêuticos para o Joelho de Corredor

Os seguintes exercícios são geralmente prescritos durante a reabilitação de uma síndrome de dor patelo-femural. Deverão ser realizados 2 a 3 vezes por dia e apenas na condição de não causarem ou aumentarem os sintomas.

Fortalecimento do quadricípite
Joelho de Corredor
Deitado, com um rolo sob o joelho. Contraia o músculo da coxa e perna de forma a esticar o joelho e puxar a ponta do pé para si.

Repita entre 8 a 12 vezes, desde que não desperte nenhum sintoma.

 

Fortalecimento dos quadricípites

Em pé, com a região lombar apoiada na bola e os pés ligeiramente afastados. Dobre os joelhos até aos 45o/60o, mantendo as costas alinhadas. Suba lentamente para a posição inicial.

Repita entre 8 a 12 vezes, desde que não desperte nenhum sintoma.

 

Alongamento do quadricípite

Joelho de Corredor Em pé, apoiado. Agarre no pé da perna a alongar e aproxime-o o mais possível da bacia. Mantenha as costas alinhadas. Mantenha essa posição por 20 segundos.

Repita entre 5 e 10 vezes, desde que não desperte nenhum sintoma.

Antes de iniciar estes exercícios você deve sempre aconselhar-se com o seu fisioterapeuta.

 

Referências

Bolgla LA, Boling MC. An update for the conservative management of patellofemoral pain syndrome: a systematic review of the literature from 2000 to 2010. Int J Sports Phys Ther. 2011 Jun;6(2):112-25.

Collado H, Fredericson M. Patellofemoral pain syndrome. Clin Sports Med. 2010 Jul;29(3):379-98.

Earl JE, Hoch AZ. A proximal strengthening program improves pain, function, and biomechanics in women with patellofemoral pain syndrome. Am J Sports Med. 2011 Jan;39(1):154-63.

Waryasz GR, McDermott AY. Patellofemoral pain syndrome (PFPS): a systematic review of anatomy and potential risk factors. Dyn Med. 2008;7:9.

Autor: João Carlos Maia – Fisioterapeuta

Fonte: www.fisioinforma.com

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