David Caldeirão

Autor: Mark Velhote  /   Junho 17, 2011  /   Publicado em Entrevistas, Triatlo  /   7 Comentários

David CaldeirãoDesta vez rumamos a Sul, mais concretamente a Loulé para conhecer melhor um campeão Age Grouper do Triatlo! Sempre a liderar a o pelotão da frente da tribo amadora do Triatlo qualquer elogio que lhe façamos pecará sempre por escasso….

Correr Por Prazer (CP): David, agradecemos a tua disponibilidade para esta entrevista!!

Mark, fiquei surpreendido com esta “entrevista” proposta por  ti (vocês) , afinal não é todos os dias que um triatleta amador como eu, é convidado para falar do desporto que adora fazer, que me provoca emoções, faz-me ser mais determinado para atingir objectivos , e me trouxe ao longo destes 25 anos muitas amizades, agradeço  desde já a oportunidade!!!

CP – Começamos justamente por aí. Como é possível um “pai de família” arranjar tempo para treinar 3 modalidades? Conta-nos um pouco do teu dia-a-dia de treinos.

David: não há formulas milagrosas…, tenho um dia-a-dia “normal”, com um emprego das 9h00 às 18h00, como toda a gente, provavelmente a única diferença seja a gestão do tempo, todos nos queixamos da falta de tempo, mas poucos se dão ao trabalho de gerir melhor o seu dia de forma a conseguir aumentar o chamado “tempo útil”!

É claro que sem o apoio, paciência e compreensão da família, nada disto seria possível, também faço os possíveis por envolve-las, tentando encontrar motivos de interesse para elas, nos locais das provas, o mais difícil não é ter tempo para treinar é conseguir manter o equilíbrio do triângulo, família-triatlo-trabalho!

Normalmente treino 2x por dia durante a semana, uma hora de manhã (6:30) e uma hora à “hora de almoço” (13:00), durante o fim-de-semana apenas 1x, tento sair sempre cedo (6:30) e treinar até à hora da família acordar! Por norma faço uma média de 14h00 por semana, esta média pode subir até às 18h00 por semana em ano de IronMan…, o que não varia é a percentagem dedicada a cada disciplina, natação 20%, ciclismo 50%, corrida 30%!

CP: Como e quando o triatlo entrou na tua vida?

David: O triatlo entrou na minha vida no longínquo ano de 1990, na altura fazia parte da turma de desporto do Liceu de Oeiras e em conversa com um grande campeão do triatlo, Paulo Pereira, surgiu a ideia de participar no triatlo de Oeiras, que se realizava no jardim de Paço D’Arcos e tinha um percurso bem diferente do que tem agora, dava a volta pelo interior do concelho de Oeiras e passava à minha porta…, na aldeia de Leceia.

CP: Qual a importância do Louletano no teu sucesso? A equipa ajuda ou é sucesso individual?

David: O louletano tem obviamente uma grande importância, este é um desporto individual, em especial quando falamos de longa distância, mas por vezes esquecemos que o nosso “sucesso” está dependente do grupo com que se treina, treinar em grupo é muito motivador, faz-nos esquecer o “sofrimento”, ajuda a passar o tempo, “obriga-nos” a ir treinar mesmo quando não apetece!

Para além disso a equipa de Triatlo do Louletano, é como um filho, que ajudei a criar…, sou um dos responsáveis pela equipa, tento motivar os outros triatletas para continuarem a melhorar a “dar”sempre mais um pouco, com isso fico a ganhar também, porque eles também acabam por me motivar, obviamente que associado a isto tudo está a partilha de despesas e acima de tudo as amizades que se vão criando…

CP: Estar no Algarve também  ajuda? Seria a mesma coisa se tivesses de treinar no centro de uma cidade grande?

David: Viver no Algarve, ajuda bastante, o Algarve tem das melhores condições da Europa para treinar triatlo, em toda a região existem boas infra-estruturas, nesse aspecto o concelho de Loulé para além de boas praias, tem piscinas, pista de ciclismo, pista de atletismo, boas estradas e pouco trânsito. Normalmente os meus treinos dividem-se pelas piscinas de Loulé e Silves, pelas estradas interiores, com destaque para a N124, sem esquecer a Fóia, Malhão, Barranco do Velho e Cachopo, o meu conselho para quem quer vir treinar ao Algarve é fugir da N125, para correr opto pela pista de Quarteira, jardim de Vilamoura ou Silves!

Obviamente não é o mesmo do que treinar numa grande cidade, cresci em Oeiras, também andei e cai na marginal, e sempre que possível levava a bicicleta no carro até Sintra ou Cascais, e só depois pegava na bicicleta! Também cheguei a treinar em Monsanto, muito complicado…

CP: Antes das provas ainda sentes aquele “friozinho” na barriga ou já fazes todas a provas com uma “perna às costas”?

David: quando deixar de sentir ansiedade, nervoso “miudinho” e o tal “friozinho” na barriga, deixo de fazer provas…, passo a fazer apenas treinos! Nunca, nunca passa, aliás dependendo da prova até me parece que aumenta!

CP: Qual o teu background desportivo?

David: Sou atleta federado desde os 13 anos, acho que isto diz tudo, comecei no atletismo, como iniciado fazia de tudo como é habitual, depois já juvenil cheguei ao 2º lugar nacional de provas combinadas (heptatlo), o meu futuro no atletismo já se encaminhava para as provas combinadas, o decatlo, mas quando, após meses de treino, cheguei um dia à pista para fazer “apenas” uma prova de 100m…, fiquei desiludido, queria mais, e assim começou o interesse pelo triatlo!

CP: De uma maneira geral o segmento mais “temido” no triatlo é a natação, concordas? Que conselho dás a que tem este receio?

David: não concordo de todo, acho natural que quem nunca “nadou” se sinta menos à vontade, e como é lógico quanto mais tarde se começa, pior! Mas ao contrário do que defendem alguns teóricos, o meio aquático também faz parte de nós, não é por acaso que passamos os nossos primeiros nove meses de vida dentro de agua, e quando vejo o à vontade com que as minhas filhas com 4 meses se movimentam dentro de agua, ainda tenho mais essa certeza!

Para quem tem receio da agua, só existe um caminho procure um técnico e companhia para treinar na piscina e para quem quer fazer triatlo não se esqueça de ir nadar em aguas abertas, é das melhores experiencias que se pode ter, entrar num lago, tipo espelho e sentir a “onda” que saí do nosso corpo ou ir para a praia e “lutar” contra as ondas, sempre com companhia e respeito pelo agua/mar.

CP: Tens tempos de natação muito bons. Qual o segredo?

David: segredo? Tempos de natação muito bons? Mas eu nem tenho tempos oficiais de natação, e segredo só se for o gosto que tenho pelo meio aquático, quando estou dentro de água consigo abstrair-me do “mundo” sou apenas eu e a água…, talvez seja esse o segredo. Em relação aos tempos não são nada de especial, falta a técnica, o facto de ter começado tarde, apenas aos 17, influencia e muito, nado mais em força e isso reflecte-se bem nas provas, quando é com fato e se tiver ondulação, chego mais perto dos bons nadadores, se for sem fato num “espelho de água” perco sempre mais tempo.

CP: No teu blog lemos várias referência ao teu treinador (Paulo Conde). Qual a quota de responsabilidade do treinador no sucesso de 1 tri-atleta?

David: no meu caso o Paulo Conde, não é “apenas” treinador, não é sequer amigo, ele faz parte da FAMILIA! Não existe uma quota, partilhamos responsabilidades nos sucessos e nos insucessos, na motivação e na desmotivação, já nos conhecemos há 30 anos e é muito fácil “trabalhar” com ele, é mesmo muito bom ter alguém que nos motiva quando estamos em baixo ou que nos põe um travão quando andamos eufóricos. Para quem tem duvidas e pensa que treinar sozinho é uma boa solução, só posso dar um conselho, arranje um treinador com quem partilhar o treino.

CP: No ciclismo o material ajuda? Como é que se conseguem fazer médias de 40 km/h?

David: a favor do vento ou atrás de uma moto 🙂 Agora a sério, depende muito do percurso, mas pela minha experiencia e pelo que vejo no desporto em geral, o corpo humano é uma “máquina” maravilhosa e tudo é possível, basta treinar com esse objectivo. O material ajuda é claro, mas atenção, eu sou um pouco céptico em relação a isso, parece-me sempre que existe algum exagero provocado pelas marcas, o marketing está sempre por trás desses materiais fabulosos, sempre apoiados por grandes comparativos e artigos de opinião promovidos pelas próprias marcas. Depois há a moda, se é moda compra-se…, uma coisa é certa, o único efeito que umas rodas ou capacete mais aerodinâmico (feitos para melhorar o desempenho a partir de um certo nível) tem no triatleta amador é na maior parte das vezes, um efeito motivador, é claro que isso faz com que  se treine mais, como é lógico acabas por andar mais!!! Claro que também fica muito melhor nas fotos! 🙂

CP: O segmento de ciclismo é uma prova de contra-relógio puro? Queres partilhar connosco algum treino específico que utilizes?

David: falas das provas de longa distância, nesse caso chamar prova de contra-relógio puro a percursos com 90km, 120km ou 180km, parece um pouco exagerado! No ciclismo fazem esses contra-relógios, mas em 10km ou 40km, é diferente! Em relação ao treino, posso dizer que a maior parte dos atletas, faz muitas repetições na piscina, faz muitas séries e fartlek’s de corrida, mas depois quando se fala de ciclismo, limitam-se a andar…, andar…, andar…! No meu caso faço exactamente o mesmo que na corrida ou natação, fartlek’s, rampas, repetições mais curtas, series mais longas, muitos treinos de rotação, treinos específicos em posição de CR, é claro também ando de bicicleta só para “passear”.

CP: Sabemos que estás  a preparar o Campeonato Europeu de Triatlo em Pontevedra. Alguma preparação especifica ou é apenas mais 1 prova do Calendário?

David: é uma das coisas que me diferenciam da maioria dos triatletas AgeGroup, o Campeonato da Europa de Triatlo é SÓ A PROVA do calendário, todo o treino foi preparado e planeado com vista a esta prova…, costumo dizer que sou um Amador Profissional, dou importância a todos os pormenores, vejo a startlist’s, vejo os percursos, tento treinar no local da prova à hora da prova, penso no que tenho que levar para comer e beber, marco hotel com muita antecedência, penso e planeio a viagem ao pormenor, tal como os “miúdos” também continuo a não dormir de véspera!

CP: Em Peniche venceste pelo 3º ano consecutivo o teu Age-group. Qual a tua expectativa para Pontevedra?

David: para quem ficou nos últimos 3 anos em 3º, 2º e 3º no Campeonato da Europa AG35-39, parece-me obvio qual a minha expectativa, nesta altura recebo muitas mensagens de apoio e é muito bom ver que a expectativa é muito elevada, gosto disso, a minha motivação aumenta. Tento não pensar muito nisso, até porque nestes campeonatos, ao contrário do campeonato Português, não se conhecem os adversários, por isso a minha expectativa, está mais direccionada para conseguir completar os 1,5km+40km+10km entre 2:00 e 2:05, é para isso que me preparei e tenho (quase) a certeza que quem conseguir fazer um tempo destes vai conseguir estar na discussão da competição AgeGroup. Uma coisa já sei…, vamos ser 56 triatletas AgeGroup Portugueses no Campeonato da Europa de Pontevedra e a expectativa de me divertir é enorme!

CP: Qual a tua distância preferida? (se é que se pode fazer esta pergunta)

David: realmente é uma pergunta que não sei responder, depende daquilo que treinas, se tivesse que escolher só uma,  provavelmente ia para a chamada Longa Distância, ou antigo Triatlo C , com 4km de natação, 120km de ciclismo e 30km de corrida, não é tão exigente como o IM, mas é um pouco mais que o 1/2IM. Talvez…

CP: Planos para o teu 2 º IM? (nota do redactor:o David completou o seu 1º IM em Copenhaga em 9h18m). O  Objectivo é baixar da 9h?

David: ainda não há planos, existe apenas “namoro”, tenho ideia de voltar para o ano ao IronMan, mas enquanto não me inscrever, não vale a pena falar…, uma coisa é certa o objectivo não será baixar das 9h00, o objectivo vai passar por ACABAR mais um IronMan, se possível num lugar que me dê o famoso “passaporte” para ir nadar, pedalar e correr, numa famosa ilha do Pacifico!

CP: Existe alguma prova que não possas perder? E qual a prova que te ficou guardada na memória?

David: não ligo muito a isso, mas normalmente e por razões óbvias tento não faltar ao Triatlo de Quarteira, uma das melhores festas do triatlo Português.

Tenho muitas provas na memória, mas sem dúvida que para mim, e enquanto não for à famosa ilha…, o TRIATLON TITAN é o melhor que já fiz, não sei se é o ambiente acolhedor e familiar, o percurso belíssimo mas demolidor, a pequena aldeia de Zahara de La Sierra que duplica de população nesse fim-de-semana, a maneira como são tratados TODOS (do 1º ao ultimo) os TITANEROS. Este ano volto lá, para o meu 3º TITAN, para tentar entrar no top10.

CP: Um conselho  final para quem se está a iniciar no Triatlo em Portugal?

David: hoje em dia é muito “fácil” iniciar-se no triatlo…, há provas praticamente em todo o país, com distâncias muito variadas e acessíveis a todos, muita informação, blogues, sites, fóruns ou o facebook, cada vez se fala mais de triatlo, mas sem dúvida que o primeiro passo é procurar um clube ou grupo de triatletas no local de residência, isso torna tudo mais fácil.

Para quem já passou esta fase, só tenho um conselho, treinem, nada acontece por acaso…, e mesmo que vos pareça que não estão a melhorar, insistam, pois mais cedo ou mais tarde vão ter uma boa surpresa!

Bons treinos e bons triatlos…

David, agradecemos novamente o teu precioso tempo e estamos certos que depois de ler esta entrevista ainda vamos ter mais “Clientes” a praticar Triatlo. Boa Sorte para Pontevedra!

Quem quiser acompanhar ou contactar o David poderá fazê-lo sempre através do seu blog Caldeirão d´Ferro! Estamos certos que ele vos receberá tão bem quanto nos recebeu a nós!

Bons treinos para todos!

Provas de Trail

7 Comentários

  1. Isa Parreira 17 de Junho de 2011 12:40

    Parabéns David, pela entrevista, pelo reconhecimento que te fazem (que é mais que merecido!!) e por continuares a influenciar positivamente todos os amantes deste fantástico desporto.

  2. Pedro Pinheiro 17 de Junho de 2011 16:22

    Um excelente exemplo de amor à modalidade, durante várias décadas, e nem o facto de ser amador e Pai de família, o levou a abandonar a modalidade. Antes pelo contrário, continua a obter bons resultados.

  3. João Gameiro 17 de Junho de 2011 23:19

    Ando nestas lides do triatlo há 2 dias, por puro divertimento e para ocupar o tempo (estou na pré-reforma), mas cedo o nome do David se me tornou familiar. É um excelente exemplo de como se deve estar no Desporto. Será para mim um incentivo. Força.

  4. damas 24 de Junho de 2011 15:05

    parabens pela entrevista david , gostei muito !
    abraco

  5. Alberto Barbosa 5 de Julho de 2011 10:11

    Desde que vi pela 1º vez triatlo fiquei fascinado e pensei para mim: ” porque é que quando eu era jovem não se via, nem ouvia nada sobre esta modalidade, adorava ter praticado”, contudo, verifiquei mais tarde, que pessoas de todas as idades a praticam. Tenho 34 anos e sou de Viana do Castelo, esta cidade tem condições fantasticas para a pratica de triatlo contudo, e infelizmente,aqui não existe quem promova ou dê condições para a pratica da mesma. Mesmo assim tenho a esperança de 1 dia entrar em algumas provas.

  6. Deni Vargues 13 de Julho de 2011 16:45

    Gd Atletaaaaaaaaaaaa, um exemplo a seguirrrrr

  7. tenis oakley 1 de Agosto de 2011 16:52

    Fantastico a entrevista muito bom david, é isto ai.

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