Não é preciso nascer no Quénia para correr como um queniano

Autor: Vitor Dias  /   Março 23, 2011  /   Publicado em Notícias  /   2 Comentários

Não é preciso nascer no Quénia para correr como um quenianoCampeão europeu esteve no Quénia a desenvolver uma tese sobre o domínio dos fundistas africanos e defende que o segredo é a determinação. Monótonas. São assim as provas de fundo dos Campeonatos do Mundo de atletismo desde há 30 anos. Não é por isso de estranhar que a cena de pancadaria nos últimos mundiais de corta-mato em Punta Umbría, Espanha, tenha feito correr tanta tinta. A prova já estava no fim quando Samuel Tsegay, da Eritreia, e Abera Kuma, da Etiópia, deixaram a velocidade de lado e começaram a troca de socos.

Os dois atletas africanos acabaram por ser desclassificados, mas nem por isso facilitaram as medalhas às outras equipas. Com quenianos e etiópios a apoderarem-se invariavelmente dos pódios mundiais, as disputas deixaram de ser globais e já se tornaram num mano a mano africano que tem afugentado os europeus. Muitos atletas queixam-se de que é impossível competir contra “seres superiores”, mas agora Arturo Casado vem explicar que afinal todos podem correr como um verdadeiro queniano.

“É um argumento racista sem qualquer base”, defende o campeão da Europa nos 1500 metros, a propósito das teorias sobre a superioridade dos atletas africanos. “Sempre se tentou encontrar explicações genéticas, porém, a única conclusão foi que eles têm os gémeos ligeiramente mais delgados. No que diz respeito à biomecânica é uma vantagem, mas isso pode ser resultado de uma adaptação fisiológica, pelo facto de correrem descalços desde pequenos”, insiste o atleta madrileno, que passou o mês de Fevereiro em Item, no Quénia, a desenvolver uma tese de doutoramento sobre o tema.

Tendo como ponto de partida a teoria da “prática deliberada”, de K.A. Ericsson (para quem a excelência do rendimento resulta do esforço prolongado), Casado explica que é preciso ter em conta que os quenianos correm muitos quilómetros por dia desde os quatro anos. “E mais do que o treino, extremamente bem estruturado, eles são muito atentos e sabem interpretar os sinais do corpo melhor do que nós, europeus. Para além disto, têm o estímulo da altitude que os faz andar muito desde muito novos.”

Em Iten, Casado encontrou um grupo de cerca de 1000 atletas de alto nível a treinarem com apenas um treinador e a correrem com ténis gastos e T-shirts rotas. Social e economicamente, o atletismo é a única forma que estes jovens têm para progredir. A maioria não conhece outra forma de viver (ou sobreviver). “Descansam, treinam, comem pouco e vivem do que a terra lhes dá. O dinheiro que ganham em dois anos na Europa basta-lhes. Regressam ao Quénia, compram as suas quintas e têm a vida feita.” Nos últimos anos tem-se ainda assistido a uma situação curiosa. O número de jovens maratonistas, uma modalidade reservada a atletas mais experientes, é cada vez maior. Diz o madrileno, por ser a categoria mais bem paga.

Chegar à final dos 1500 metros no Mundial de Daegu, na Coreia do Sul, e desafiar as equipas africanas é o grande objectivo de Arturo Casado para 2011. Uma medalha ou uma boa marca são a melhor forma de demonstrar a validade da sua tese – o meio em detrimento da genética. Mas, por enquanto, a lei do mais forte continua a pender para os lados de África. Em Punta Umbría, Casado foi 71.o, muito longe do pódio e das seis medalhas de ouro (em oito) quenianas.

Fonte: Ionline

2 Comentários

  1. antonio pacheco lima nunes 13 de Maio de 2011 19:09

    eu nasci em penafiel e nao sou queniano mas a maioria dos quenianos com a minha idade nao calçam as sapatilhas e ainda sou novo um abraço lima de paços de ferreira

  2. Bruno Tavares 10 de Agosto de 2012 11:49

    Este artigo tese de doutoramento deu para esboçar um sorriso. A origem geográfica dos corredores quenianos é bem conhecida a décadas desde Kip Keino (Nandi Tribo) um pequeno numero de tribos notavelmente os kisii e os Kalenjin, que compreen
    dem menos de 15% da população queniana são responsáveis por 50% das medalhas ganhas. Em torno do Rift Valley estão presentes 20% da população do Quénia os Pokot, Marakwet, Tugen, Keiyo(David Rudisha e Wilson Kipketer), Kipsigis e especialmente os Nandi. Claro que deixar a discussão do fenómeno entre natura e cultura seria redutor. Noentanto só existem quatro tipos de atletas no mundo independentemente da sua origem atletas de grande talento habilidade e grande motivação é deste grupo que produz os campeões e os recordistas. Atletas com grande talento mas com pouca motivação estes atletas passam a épocas a frustrar o treinador. Atletas com pouco talento mas com muita motivação estes frustram-se por vezes a eles próprios e são sérios candidatos a overtraining e finalmente atletas com pouco talento e pouca motivação estes não deviam fazer qualquer tipo de desporto que requeira disciplina e empenhamento, estão na actividade errada.

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