Joaquim Margarido

Autor: Joaquim Margarido  /   Outubro 26, 2010  /   Publicado em Vivências
Tags: 21 kms, cortegaça, joaquim margarido, meia maratona, orientovar, Vivências
Tempo de Leitura: 5 minutos

Joaquim Margarido quase que dispensa apresentações no que ao jornalismo desportivo diz respeito. Enfermeiro de profissão, começou por praticar atletismo em 2001 tendo participado nesse ano na Meia Maratona de Ovar. Colaborou com revistas e jornais da especialidade onde se destacam as revistas “Atletas”, “Sportlife”, “O Praticante” e a “Atletismo”. Em 2007 teve o seu primeiro contacto com a Orientação, tendo nesse ano criado o Blog Orientovar. Toda a sua escrita não passou despercebida ao longo destes anos, tendo ganho o prémio de jornalista do ano da Associação de Atletismo de Aveiro por duas vezes (2006 e 2008). Em 2008 e 2009 lançou os seus livros “Crónicas Norte Alentejano O’ Meeting” e “Crónicas Norte Alentejano O’ Meeting“.

A partir desta data, Joaquim Margarido colaborará com o CorrerPorPrazer.com sempre que possível, facto que nos agrada de sobremaneira, dado que não temos a menor dúvida que será uma mais valia para os conteúdos do nosso site e concerteza bem do agrado dos nossos leitores. Para iniciar esta colaboração, deixamos aqui um primeiro artigo, escrito em 2005 mas que nunca foi publicado.

A “Meia” vista por dentro

Levantou-se cedo. Queria tomar o mesmo pequeno-almoço de todos os dias e ter a certeza de que a digestão estaria feita à hora da prova. Voltou a certificar-se que nada faltava no saco: o equipamento e as sapatilhas, claro, mas também aquelas pequenas coisas que têm de o acompanhar para todo o lado: alfinetes, vitamina A para os mamilos, papel higiénico, os elásticos dos óculos e os preciosos discos desmaquilhantes para protegerem as partes mais sensíveis do pé. Quando sai de casa os filhos já estão acordados e desejam-lhe boa-sorte. Todos irão vê-lo na viragem aos 10 kms.

Segue quase até ao Furadouro e vira para a Estrada Florestal. Quer passar uma última vez antes da prova pelo percurso, interiorizar melhor (como se tal fosse possível) todos os pequenos acidentes, cada subida e descida, até os locais onde o piso mais degradado aconselha a seguir pela direita ou pela esquerda. Sabe que agora só conta consigo mas é importante esta forma de concentração, uma espécie de transe do qual só sairá quando o tiro de partida soar.

Quando chega a Cortegaça depara-se com uma azáfama enorme. O trânsito é intenso e ainda estamos a uma hora do início da prova. Encontra um bom lugar para estacionar e vai ao encontro dos colegas de equipa. Cumprimenta este e aquele, pergunta por fulano, trocam-se encolheres de ombros quando se fala no incontornável Benfica. Finalmente encontra os seus, recebe o dorsal e parte com um colega em busca de ajuda para a resolução dum problema inesperado, a falta de inscrição e a necessidade dum dorsal de última hora. Tudo acabará por se resolver mas agora está atrasado. E há ainda o seu dorsal para pregar na camisola, uma tarefa que lhe rouba preciosos minutos dado a enorme falta de jeito para “centrar aquela coisa” e fazer com que não lhe estorve os movimentos durante a prova. Quando parte para o aquecimento faltam menos de vinte minutos para as 10h00.

A música ecoa vigorosa nas colunas mas quase não a ouve. Corre para cá e para lá, sem nexo. Os níveis de ansiedade atingem agora os limites do suportável. Sente que não aqueceu o suficiente mas tem de ocupar o seu lugar na partida. Não quer sair atrás, ir para ali a fazer “slalon” durante uma “porrada” de tempo, sem conseguir desenvolver a sua corrida nos determinantes momentos iniciais. Escuta as conversas deste e daquele, dá um palpite, deseja boa sorte aos que o rodeiam e o tiro de partida apanha-o completamente distraído. Agora é correr, correr para a frente, confiar que a mesma força que o trouxe até ali o acompanhará durante o trajecto, o protegerá e fá-lo-á terminar a prova sem percalços de maior. Só assim sentirá confiança para começar desde já a pensar na próxima.

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Sente-se muito solto nos primeiros quilómetros. As séries de 1.000 metros feitas ultimamente deram-lhe outra mobilidade, a capacidade aeróbica não se vai ressentir tão cedo deste andamento, vai bem e deixa-se ir. Um colega segue-lhe na peugada. Tem outras ambições mas teme que o ritmo seja exagerado. Vão trocando impressões, procuram corrigir a tendência para acelerar a cada quilómetro que passa, temem o “estoiro” precoce. Falha o abastecimento aos 5 kms mas alguém lhe faz chegar uma garrafa de água num gesto de amizade e companheirismo tão cultivado por todos. Ainda antes do 9.º quilómetro, quando os primeiros se cruzam com ele, perpassa-lhe na mente a ideia que “não há justiça neste mundo, tanto esforço e já três quilómetros de desvantagem.” Não há dúvida que, no desporto como em tudo na vida, há indivíduos cujas capacidades ultrapassam em muito a bitola da normalidade e não basta tentarmos fazer o mesmo que eles fazem: está nos genes, já nasce com a pessoa.

“Vamos fazer um tempo obsceno aos 10 kms”, pensa com os seus botões. Acabará por pagar caro o atrevimento… ou talvez não. Continua a sentir-se bem mas o piso nesta fase da prova é francamente mau, muito irregular, e começa a fazer “mossa”. Contudo, “os seus” lá estão no momento certo para o animar, ajudando-o a esquecer que há ainda outro tanto para percorrer. Aos 12 kms começa a fraquejar, o colega deixa-o, apanhando o “comboio” de outro grupo. Procura fazer apelo à sua capacidade de superação nos momentos decisivos. O cronómetro não engana, continua em bom ritmo e isso dá-lhe ânimo para enfrentar os quilómetros decisivos. Continua forte à passagem aos 15 kms, volta a refrescar-se bem e ainda sonha em juntar-se ao colega quando o vê desaparecer na curva da antiga lixeira de Maceda. Só voltará a vê-lo na chegada.

Faltam quatro, três, dois quilómetros. A curva à esquerda para a Avenida da Praia é já ali. Conseguiu manter o ritmo mas agora sente que atingiu os limites. A ansiedade cresce à medida que os segundos se vão esgotando. “Tem calma, o mais difícil está feito, só precisas de manter.” Com enorme vontade e esforço vai vencendo metro a metro a distância que o separa da chegada. Já mal ouve os incentivos das muitas centenas de populares que ladeiam as duas bermas da Avenida. O músculo da coxa direita começa a acusar o esforço, diminui ainda mais o andamento, não quer que uma cãibra o obrigue a terminar a prova a passo. Faltam 300 metros para o final quando dá uma última olhada ao cronómetro e o rosto ilumina-se-lhe, transfigura-se. Agora já nada pode deitar por terra a concretização do seu mais secreto desejo. Passa por um companheiro que o incentiva e retribui com um grito emocionado que lhe vem do mais profundo de si: “Vou bater o meu ‘record’!”

Joaquim Margarido
Maio de 2005

Fyke

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