A Minha Maratona de Madrid

Autor: Vitor Dias  /   Abril 28, 2010  /   Publicado em Crónicas
Tags: 42 km, madrid, maratona
Tempo de Leitura: 5 minutos

No passado domingo corri a minha quinta maratona, pela segunda vez consecutiva por terras espanholas. Levava na bagagem a despreocupação, a descontracção, a boa disposição e a certeza que seria mais uma empreitada difícil, fruto de algumas condições que seriam novidade e que lançavam no ar um clima de incerteza de que tanto gosto.

Nunca gostei de monotonias e uma maratona feita pela primeira vez, como seria o caso desta, vinha mesmo a calhar. Decidi participar na prova poucas semanas atrás, o que desde logo evitou fazer um plano de treinos elaborado e por isso uma preparação adequada. Juntando isto à altitude de Madrid (640 metros acima do nível do mar), do difícil percurso (que a própria organização anuncia na sua revista como das maratonas mais duras da Europa) e a possível temperatura alta, mostrava-se uma tarefa árdua, mas ao mesmo tempo desafiante e motivadora.

A VÉSPERA

Eram 5 da manhã de sábado e partimos eu e os meus colegas João Craveiro e o Luis Pires, rumo ao aeroporto Sá Carneiro, começando ali a nossa maratona, porque para nós tudo começa quando saímos de casa, já para não falar que começou umas semanas antes com os treinos de preparação. Gostamos de usufruir desde o primeiro minuto, e o ir tão cedo daria para conhecer a cidade e levantar os dorsais dos nossos outros 9 colegas de equipa que se juntariam a nós nessa mesma tarde de sábado.

Viagem calma, chegada a Madrid e ida directa à Expo-Maratona. Trata-se de um espaço agradável, limpo e airoso mas sem grandes novidades. Trata-se acima de tudo de stands publicitários de marcas, produtos e de outras maratonas. Dirigimo-nos ao hotel abdicando da pasta party. Tarde calma com ligeiro descanso no hotel e passeio por alguns locais de visita obrigatória com as Puertas Del Sol e Plaza Maior. No final da tarde juntaram-se a nós os restantes colegas de equipa e pouco tempo depois estávamos a jantar num restaurante já previamente reservado, na companhia de Tiago Dionísio, Rita Manso e Pedro Belchior, companheiros de corrida de Lisboa que iriam participar na prova no dia seguinte. O jantar serviu de reunião para meia dúzia de colegas que vão participar na Comrades, na África do Sul no próximo mês de Maio. Foi delicioso ouvi-los falar de corridas, aventuras, preparação, truques, dicas, histórias de verdadeiro encanto vindo de quem tem a maior experiência a nível nacional nesta matéria. Eu sentia-me pequenino e ao mesmo tempo satisfeitíssimo. Só o Tiago Dionísio completou 130 maratonas e irá este ano completar a Comnrades (89 Km) pela décima vez consecutiva. Por curiosidade, somamos o nº. de maratonas que estavam na mesa: 340. Incrível. Foi uma noite memorável para mim, o mais júnior da mesa.

A PROVA

O hotel era perto da partida, levantamo-nos sem stress, pequeno almoço nas calmas. Saímos a pé em direcção à partida. Tanta gente na mesma direcção. Boa disposição na cara de toda a gente. Chegamos ao Paseo Recoletos e eram já milhares os que esperavam pelo tiro de partida. Juntamo-nos a eles e minutos depois estávamos prontos para correr 42,195m pelas ruas de Madrid. Apesar de ser tanta gente, a partida foi passífica. A avenida é muito larga e poucos minutos depois estava toda a equipa da Porto Runners junta e descontraída. Os primeiros 5 Km sobem ligeiramente e aliado à altitude da cidade, não deu para grandes falas. Ía tudo muito calado apenas respondendo aos espanhóis que nos interpelavam falando ora do Cristiano Ronaldo, ora do José Mourinho e até de Paulo Futre. Foi assim até às famosas Torres Kio. A partir desta altura acabou a subida e pouco tempo depois separamo-nos do pelotão da prova dos 10 Kms que nos aplaudiam e gritavam palavras de incentivo.
Até aos 20 Kms fui abordado pelo amigo Manuel Cunha de Braga, que só conhecia da net. Seguiu connosco, era o ritmo dele. Seguíamos todos juntos, conversando, ora uns com os outros ora com alguns espanhóis que nos interpelavam e nós a eles. Perguntamos o nome dos monumentos e lá vinha uma simpática explicação. Um espanhol saudou-nos: Viva tripeiros. Ficamos espantados, mas mais espantados ficamos quando ele explicou a um colega a razão de sermos tripeiros. Convidei-o para vir à maratona do Porto. Disse que se come tão bem no Porto que seria uma boa hipótese. As maratonas são sempre um bom pretexto para conhecer novos destinos.

A temperatura começou a subir, felizmente que nesta altura havia muitas sombras e com muito público sempre a aplaudir. Nesta altura não esqueço uma bela imagem. Uma menina de cerca de 5 anos, segurava um prato cheio de uma espécie de sonhos e esticava-os para que nos servíssemos. Lindo. O público participa na festa e isso agrada a quem corre. O trajecto desta maratona é lindíssimo e nesta fase da prova é a melhor de todas. Muitos monumentos, jardins, chafarizes e jardins lindíssimos. O nosso colega João Morais, que fazia a sua segunda maratona, estava maravilhado com o apoio do público. Ele estava contentíssimo e demonstrava-o. Isso deixava-me bastante satisfeito também.

Passamos à Meia Maratona com um tempo modesto mas sem preocupações (1h46m). Nenhum de nós ía com objectivos específicos, a temperatura já era bastante alta (26 graus) e o objectivo era chegar ao fim sem grande sofrimento. Nesta altura encontrei o Fernando Andrade e o João Hébil. Algumas palavras e perdi-os num abastecimento. Ao Km 25 entramos num belo parque (Casa de Campo) com sombras mas já com uma temperatura imprópria para correr. Aqui conheci o Silvério, colega do Porto que corre como nós no Parque da Cidade mas que o acaso fez com que nos conhecêssemos no meio da prova na capital espanhola.

Ao Km 28 eu tinha tanto calor que começava a pensar como é que iria chegar ao fim. Tinha que arranjar forças vindas não sei de onde e correr pelo seguro, ou seja sem pôr em perigo a minha integridade física. Isto era novidade para mim. Decidi rolar até aos 30 Kms no mesmo ritmo e aí pararia. Não ficaria sozinho pois nesta altura eu levava cerca de 500 metros de avanço sobre os meus colegas. Disse ao Silvério para seguir e que iria parar aos 30. Eu nunca tinha parado numa maratona por medo de depois ter dificuldade em recomeçar. Aproveitei o abastecimento dos 30, hidratei-me, parei e fiz ligeiros alongamentos. Fui a passo até chegar o meu grupo. Passou em primeiro lugar o João Mota Freitas e o João Morais. Chamaram-me mas mandei-os seguir. Esperei pelo Luis Pires que vinha a acompanhar o João Craveiro. Segui com eles e não mais os deixaria. Eles rolavam bastante lentos e isso também me custava, Optei por rolar ligeiramente mais rápido que eles e sempre que apanhava uma subida (e eram muitas) parava e andava até que eles me apanhassem. Foi assim até aos 39 Kms, sempre com muitas subidas e muito público que em alguns sítios até nos dificultava a passagem.

Aos 39 Kms (Estação A Tocha) “é que foram elas”. Nós sabíamos o que nos esperava. Passou o Fernando Andrade por mim. Eu estava a andar e mais uma vez à espera do João e do Luis. Dos 39 Kms até aos 41 kms, “não é para meninos”. Subida íngreme. Fui parando e rolando. Tentei um arranque até ao final mas não fui além dos 300 metros a um ritmo rápido. Entrei no Parque Del Retiro, já com o calor e as dores esquecidas. Milhares de pessoas a aplaudir. Aqui foi só abrir os braços e sorrir para a foto. O relógio oficial indicava a minha pior marca na distância (3h43m04s) mas depois das dificuldades porque passei, era enorme a satisfação de estar a cortar a meta e em perfeitas condições físicas.

Madrid já está no meu curriculum, a próxima corro em casa, no Porto a 7 de Novembro.

Pontos fortes desta Maratona: Muito público, excelente assistência médica, muitos abastecimentos líquidos, percurso muito bonito.

Pontos Fracos: Ausência de abastecimentos sólidos, percurso sinuoso, Kit de atleta fraco.

A Minha Prova (Garmin Connect)

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Sobre Vitor Dias

Autor e administrador deste site. Corredor desde 2007 tendo completado 54 maratonas em 15 países. Cronista em Jornal Público e autor da rubrica Correr Por Prazer em Porto Canal. Site Oficial: www.vitordias.pt
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