Nem todos corremos por prazer

Autor: Vitor Dias  /   Dezembro 05, 2009  /   Publicado em Notícias  /   6 Comentários

No título deste artigo, não me refiro aos atletas de elíte que fazem das corridas o seu ganha pão. Esta é uma história bem diferente. Maria irá participar amanhã na Maratona de Lisboa para mostrar como as mulheres guineenses levam água e lenha para as aldeias. Uma história que nos faz pensar…

No Norte da Guiné-Bissau, encostada à fronteira com o Senegal, fica a povoação de Maria Buinen. A aldeia Suzana, na região de São Domingos, fica longe de tudo. Fica longe da água e longe da lenha que ela carrega à cabeça para cozinhar, dar de beber aos animais e toda a família tomar banho. Maria faz três viagens por dia e demora cinco horas para percorrer 40 quilómetros. E ontem a sua caminhada foi ainda maior – deixou os seis filhos, o marido e os três netos, apanhou o avião e aterrou em Lisboa.

A guineense saiu de Suzana pela primeira vez para participar na Maratona de Lisboa. A prova acontece no domingo e tem a mesma distância que ela faz todos os dias. Leva portanto alguns pontos de vantagem, mas ganhar não é o objectivo. Maria quer mostrar o que fazem as mulheres da sua aldeia para terem água potável e fogão aceso (ver caixa).

Do nascer ao pôr do Sol, cada tarefa tem o seu tempo e todos os trabalhos estão entregues às mulheres de Suzana. “Umas procuram lenha, outras guardam os campos e outras estão nas colheitas”, conta a guineense de 45 anos. Até ao fim de Dezembro, Maria vai vigiar os arrozais. Acorda às cinco da manhã para afugentar os pássaros que comem as sementeiras e é só ao início da tarde vai buscar a água para preparar o almoço da família. São nove quilómetros para encontrar o poço de água potável mais próximo. O caminho de ida e volta repete-se outras duas vezes até conseguir juntar um alguidar cheio de lenha e ainda mais 40 litros de água que ela usa nas outras tarefas domésticas.

As crianças de Suzana também trabalham. Quase tanto como as mulheres. Alcénia é a neta mais velha de Maria, tem oito anos e vai buscar água e lenha quando a avó está no campo: “No tempo das nossas mães não era preciso pôr as crianças a trabalhar tão cedo.” Só que antes havia muita chuva e muito arroz: “Antigamente, a colheita durava três meses e agora é só um.”

O arroz é a base da alimentação de toda a comunidade e a chuva assegura a sobrevivência da aldeia: “Este ano tudo correu mal”, queixa-se a guineense. Caiu pouca chuva, os bichos atacaram o arrozal, a sementeira teve de ser transplantada três vezes e a colheita é feita com muito cuidado para evitar desperdícios: “Um pé de cada vez, cortado à faca, para os bagos não fugirem.” Mesmo assim, o arroz só vai chegar para alimentar os habitantes de Suzana durante quatro meses: “E depois acabou.”

Quando faltar o arroz, Maria e outras mulheres da povoação de São Domingos vão passar a viver das palmeiras. O fruto é usado para fazer vinho e o óleo de palma que mais tarde será vendido nos mercados da fronteira senegalesa: “É o dinheiro da venda que nos vai sustentar o resto do tempo.” Serve para comprar o arroz, para “tratar das doenças” e, se sobrar, para os filhos e os netos continuarem na escola.

A maratona de Maria Buinen não tem meta para cortar. Ela corre todos os dias e, nas últimas semanas, corre ainda mais porque está a treinar para a prova de domingo. Tem ténis novos e quer estar preparada para competir ao lado dos atletas: “É que eu nunca fiz isso.”

Fonte: Jornal i

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6 Comentários

  1. Nelson Perneta 6 de Dezembro de 2009 19:05

    Boa Noite amigos.É verdade nem todos corremos por prazer,esta história mostra a dureza, da vida de alguns povos que correm o dia a dia para sobreviver.na minha modesta opinião é destes povos que nascem os verdadeiros campeões, porque são postos há prova ou ganham ou ficam na mesma situação de miséria,e nós muitas vezes nos queixamos.Comparando a esta história nós somos reis vivendo num belo castelo com todas as condições.Boa semana a todos

  2. Alberto Marques 10 de Dezembro de 2009 19:58

    Boas Vítor
    Por aquilo que vejo só nos devemos considerar abençoados em vez de reclamar por tudo e por nada.
    Aproveito para lhe dar os parabéns pelo livro, e felicidades para mais anos a frente do seu espaço que muito tem contribuído para a divulgação da corrida e o largar do sofá.
    Um especial agradecimento aos fotógrafos:Jorge Dias,José Mimoso,Manuel Cruz,Novais pelo tempo despendido na recolha das fotos para mais tarde recordar.Continuação de boas corridas.

    Alberto Marques (Amigos Quinta Das Freiras)

  3. Vitor Dias 10 de Dezembro de 2009 22:29

    Viva Alberto

    Obrigado pelas tuas palavras, continuação de boas corridas e cumprimentos ao pessoal da Quinta das Freiras.

    Cumprimentos

  4. Nelson Perneta 11 de Dezembro de 2009 21:26

    Quinta das Freiras? desculpem-me,julgo conhecer esse sítio.

  5. Alberto marques 15 de Dezembro de 2009 19:42

    Boas Nelson

    Fica no centro de Rio Tinto, perto das piscinas.
    Ponto de encontro da brigada do reumático.
    Abraço e boas corridas.

    Alberto Marques

  6. Nelson Perneta 16 de Dezembro de 2009 21:06

    Boa noite Alberto.O sítio que estava a dizer que conhecia,não era esse,este está localizado no Funchal(Madeira) com os meus cumprimentos

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