A minha maratona de Berlim

Autor: Vitor Dias  /   Setembro 24, 2009  /   Publicado em Crónicas
Tags: 42 km, berlim, maratona, porto runners

A minha maratona de BerlimMais uma volta mais uma viagem. A viagem foi até Berlim, a volta foi a essa cidade carregada de história, talvez a mais conhecida e nem sempre pelas melhores razões. A comitiva da Porto Runners, composta por 10 corredores, viajou até à capital alemã, com vontade de fazer também história, não mundial, não nacional, nem sequer na história do clube. A participação nestas provas serve apenas para fazer história própria, enfrentar a empreitada com respeito, sabendo que no final a mesma nos poderá encher de orgulho pessoal, elevar a nossa auto-estima, sabendo que os nossos filhos e netos se orgulharão de mais este feito, seja agora, seja quando já quando não tivermos a oportunidade de correr a mítica distância de que tanto gostamos.

O nosso pequeno pelotão era do mais variado que se possa imaginar. Desde estreantes, aos que somavam já várias dezenas de maratonas, o certo é que ninguém a encara como sendo apenas mais uma. Parece sempre a primeira. Bem preparados, menos bem preparados, rolar apenas para chegar ao fim, são variados os objectivos, assim como os anseios, as dúvidas e o medo de falhar.

A PREPARAÇÃO

Ao contrário do que eu pensava, preparar uma maratona de verão, não é mais fácil do que preparar uma de inverno. Gosto mais de treinar à chuva e ao frio do que com calor. Acho que os treinos rendem mais, mas talvez seja apenas suposição minha. Para além disso há as férias que nos condiciona de certa forma o plano de treinos e que implica também o treinar mais vezes sozinho devido às férias dos companheiros de corrida. Preparei esta prova em 14 semanas, cumprindo o mesmo plano que tinha feito para a Maratona de Paris em Abril passado. Pareceu-me mais longo e das duas vezes que o fiz, pareceu-me ter atingido o pico de forma 3 a 4 semanas antes da prova. Talvez opte por algo de novo da próxima vez. Durante a parte inicial da preparação estive a contas com uma tendinite nos tendões de Aquiles, que pensei que pudessem deitar tudo a perder. Com calma, paciência e fisioterapia, tudo ou quase tudo se resolveu. O importante é que não foi impeditivo nesta cruzada.

Cerca de metade da nossa comitiva estava alojada a cerca de 14 Km do local da partida/chegada, o que numa cidade tão grande e com uma boa rede de transportes não é problemático. Para além disso, este era um dos hotéis com protocolo com a organização da prova o que fazia com que no dia da mesma teríamos um autocarro até ao local da partida, o que é sempre uma preocupação a menos. Partimos à hora prevista e meia hora depois estávamos muito perto do local do início de mais uma aventura. Digo perto porque o local é tão grande que era impossível chegar mais perto. Estávamos eu, a Conceição Grare, o Filipe Lemos, o João Fortuna e o Jorge Oliveira. Chegados ao local,  tivemos que nos separar pois os locais de entrega dos nossos pertences estavam divididos por número do dorsal. Fiquei na mesma zona da Conceição e os outros três seguiram noutra direcção. Combinamos encontrar-nos em local combinado o que não foi difícil. O local era um imenso parque a perder de vista, bem tratado, e ao que soubemos, fora destruído e devastado aquando da 2ª. Guerra Mundial, tendo o mesmo ficado sem uma única árvore. Quase que não dá para acreditar tal é a imensidão de árvores, arbustos, trilhas, sebes e relvados. Lá nos encontramos com excepção da Conceição que desapareceu. Sabendo nós do stress que ela sofre antes da prova e que o local de partida dela era diferente do nosso, seguimos os quatro com a intenção de fazer aquilo que não queríamos fazer nas próximos 4 horas. Nas centenas de WC’s disponíveis era impossível tal eram o tamanho das filas. Tivemos que recorrer à mata, só que até ali era difícil. Não havia um único sítio onde não houvesse gente a aliviar-se. Acabou por não ser um problema porque o à-vontade e a falta de alternativas tudo ocultavam. Acabamos por ir para o controlo do local de partida com cerca de 45 minutos de antecedência.

O local era aprazível, espaçoso e a cerca de 100 metros do pórtico de arranque. Mal chegamos, conhecemos logo dois portugueses vindos de Almada com quem ficamos à conversa. O Jorge Oliveira desapareceu da nossa beira e passados alguns minutos apareceu com mais dois colegas portugueses, da nossa cidade. Incrível, há tugas por todo o lado, mesmo no meio de tanta gente que já começava a ser multidão. Estes dois colegas eram o Carlos Pereira e o Manuel Rocha (Mane), com quem andaríamos durante quase toda a prova.

A PROVA

Pum, soa a pistola, soltam-se os balões amarelos e aí vão 40 mil pelas ruas de Berlim fora. O pelotão fluía sem dificuldade nenhuma, as avenidas eram largas, não houve atropelos nem perigo de quedas. Seguimos eu, o João, o Filipe, o Jorge, o Carlos e o Mane. Fizemos o primeiro Km com a média de 5min11s, baixando nos seguintes gradualmente. Ao Km 3 o Filipe mandou-nos seguir, que não era aquele o ritmo dele. Ficamos reduzidos a 5 elementos. No primeiro abastecimento que surgiu do nada, houve confusão mas não para nós porque quase todos abdicamos de ir à água. Chegamos aqui com média de 4min/50s por Km, o que deu para ver que eu ia mais lento que em Paris. Eu levava as passagens de Paris coladas no relógio para me ir regulando. O meu primeiro objectivo era acabar a prova, o segundo seria fazer melhor tempo do que em Paris (3h18min30s). Não ia de forma alguma obcecado nesse objectivo, aliás as últimas semanas nem me tinham corrido bem, o que me deixava com poucas hipóteses de o fazer. Ao Km 5 eu levava 36 segundos de atraso em relação a Paris. É óbvio que durante a prova não tinha esta precisão, estou a analisa agora, mas eu comparava a média e sabia que a diferença de 4 segundos na média daria mais ou menos esta diferença. Seguimos compactos até ao próximo abastecimento, ao 9 Kms onde havia água e bananas. Não posso deixar de fazer referências à maratona de Paris, ainda muito na minha memória. Aqui os abastecimentos perdem em todos os aspectos em relação à capital francesa. Não estão tão bem assinalados, sólidos só havia bananas, a água é servida em copos que são enchidos de bacias cheias de água vindas de bocas de incêndio (posso estar enganado mas pareceu-me que sim) e os isótónicos, também em copos, eram de qualidade duvidosa. Só provei o primeiro, não quis mais.

Voltando à prova, pouco depois dos 12 Km, perdemos o Jorge. Nos abastecimentos eu tinha grande dificuldade em encontrar o grupo, felizmente eles viam-me bem a mim, já que o adereço de Portugal na minha cabeça fazia-me sobressair dos demais. Nesta altura passamos por uma atleta descalça. Metemo-nos com ela e ela, bem disposta, disse-nos que era mais barato. O Carlos e o Mane eram boas companhias, não conhecíamos o andamento deles, mas aquele andamento parecia ser bom para todos. Eu estava mais lento do que o que pretendia, mas não me estava nada a apetecer alargar a passada. O Mane, tal como eu, estava bastante atento aos pormenores durante a prova, estava sempre a chamar-nos à atenção para casos estranhos. Não muito à frente, chamou-nos à atenção para um corredor ao qual lhe faltava parte da perna na zona do joelho. Há gente com uma coragem…

Entre o Km 11 e 12 houve um abastecimento líquido onde me molhei bastante, inclusivé nos pés. Isso levou-me a uma situação nova, que foi desapertarem-se os cordões da sapatilha esquerda, apesar dos 3 nós que sempre lhes dou. Ainda bem que foi ali, se fosse mais à frente… Avisei o grupo, adiantei-me, tratei do assunto e apanhei-os sem dificuldade.

KM 15

Neste abastecimento de água e fruta deixamos o Carlos por opção dele. Ele não estava bem e não quis arriscar ir connosco. Nesta altura estávamos a rolar à média de 4min/35s por Km e eu estava com um atraso de cerca de 1 minuto em relação a Paris. Estávamos agora três. Eu, o João e o Mane. O João era o que estava melhor. Era ele que impunha o ritmo. Seguimo-lo até aos 20 Kms e aí eu fui para a frente e acelerei um bocado para ganharmos uns segundos na passagem da meia maratona. Era altura de descansarmos a família e os amigos, pois nessa altura seria enviado um SMS automático para os contactos que tínhamos previamente escolhido no site oficial da prova. Perguntei ao João se o tinha feito, ele disse-me que inseriu cerca de 30. Eu tinha-me ficado por metade e todos chegaram a tempo e horas, fosse de quem estava na Alemanha connosco, fosse dos que cá ficaram. Os meus filhos deliraram com os SMS’s que receberam (à meia maratona e no final), que indicava o tempo, a posição, o nome, etc.

MEIA MARATONA

Gente, gente, gente. Impressionante a quantidade de pessoas que se acumulava neste local da prova. Cartazes, buzinas, bombos, bidões, um barulho infernal, mas ao mesmo tempo uma festa arrepiante, que nos faz esquecer o cansaço que começa aos poucos a chegar. Passamos aqui com 1h39m23s o que me fazia estar 1m56s atrasado em relação a Paris. Conformei-me, descontraí, fiz contas de cabeça e vi que o meu objectivo de fazer a minha melhor marca estava posto de lado. Mesmo assim acompanhei o ritmo que ía vivo, fruto do esforço do João Fortuna. O Mane mantinha-se valentemente colado a nós.

Ao Km 25, a rolar por volta dos 4m15s/Km, disse ao João que aquele ritmo não era o meu, que continuasse que eu iria abrandar. Perguntei ao Mane como é que se sentia e ele disse-me que o ritmo estava forte para ele. Fiquei de certa forma satisfeito por ver que não iria ficar sozinho. O João foi-se embora e daqui para a frente e até aos 35 Kms, foi a melhor parte que eu já fiz em maratonas. Começamos a rolar entre os 4m30s e os 4m40s. Eu sentia-me muito confortável e o Mane também, conformei-me em não fazer o tempo de Paris e foi a descontracção total. Relembro que conheci o Mane 5 minutos antes da partida e por isso havia muito para conversar. Soube que era do Porto, que treinávamos nos mesmos locais, que eu não o conhecia, mas que ele me conhecia a mim e principalmente o correrporprazer.com. Conversa puxa conversa e parece que vamos ter mais um atleta na Porto Runners. Correremos também em Novembro a maratona da nossa cidade. Entre um ou outro abastecimento, lá agrupávamos sem grande problema, sempre com muita atenção, pois ainda faltava cerca de 12 Kms para a meta e não me apetecia ir sozinho até ao fim e concerteza que a ele também não. Disse-lhe que para o meu tempo já não iríamos e que iríamos para o dele que era de 3h30m.

KM 35

Eis o quilómetro crucial desta minha maratona. A descontracção fora tal nos últimos 10 Kms que nem dei pelo tempo passar, nem pelo ritmo a que íamos. Olhei para a média a que passei aos 35 Km em Paris e vi 4m40s. Olhei para o relógio e vi a nossa média até aquela altura que era de 4m39s. Nem queria acreditar que estava com 42 segundos de avanço em relação a Paris e que a manter-me assim poderia fazer a minha melhor marca. No entanto este dado era  enganador para prejuízo meu. É que eu estava com um desfazamento de quase 500 metros em relação às placas de indicação dos Kms da maratona, ou seja o meu GPS marcava os Kms antes das placas. Isto deve-se ao facto de não andar em linha recta, devido às ultrapassagens que fui fazendo, assim como a ida aos abastecimentos. No entanto, isto deu-me grande ânimo e apesar de saber que não iria ser fácil, propus-me sofrer estes últimos 7 Kms e quem sabe fazer a minha própria história em cidade de tanta história. Mas o melhor de tudo é que o Mane era uma companhia fantástica. Nesta altura eu já o tratava por Mane. Ele disse-me que era Mane para os amigos e eu, embora que prematuramente, já o considerava dessa forma. Ele ia mais cansado do que eu, mas a cada 5 metros que eu me adiantava, virava-me para trás, não falava mas ele via que era a chama-lo. Ele lá colava e lá fomos ultrapassando mais e mais gente, pois nesta fase já se vê muita gente parada, principalmente nos abastecimentos. Depois de duas chuveiradas que resolvemos aproveitar, aproximamo-nos do último abastecimento ao Km 40, onde já íamos em algum sofrimento mas com uma média capaz de nos empurrar para a frente sem termos já grandes forças. O Mane abeirou-se do abastecimento e eu abdiquei dele, tal como tinha feito em Paris. Eu não precisava de água por meros 2 Kms e aqueles segundos poderiam ser preciosos. Disse ao Mane que ia arriscar o meu melhor tempo e ele mandou-me seguir incentivando-me. Entre outras coisas que ganhei nesta minha terceira maratona, foi o perder o medo. Não me lembrei que poderia ter caimbras, que poderia esgotar, nada. Para a frente é que era o caminho. Logo a seguir ao Km 40, a maior lufada de ar fresco que eu poderia ter ganho. A minha mulher e a mulher do Geraldino de bandeira portuguesa em punho e aos gritos quando me viram. Eu ía apressado mas ainda deu para em andamento pousar para a fotografia. Fiquei para posteridade com um ar fresco, não parecia ter feito já 40 Kms.

Km 40. Foto: Ana Maria de Freitas

Quinhentos metros à frente, mais uma injecção de motivação: O Geraldino a gritar incessantemente quando me viu, correu alguns metros, gritou palavras de incentivo e só não correu mais porque o público já era muito. Nesta altura eu já via as portas de Brandenburgo, símbolo da cidade. Estava ainda a uns mil metros e depois eu sabia que seriam uns 300 longos metros até à chegada final. Acelerei ainda mais, doíam-me as pernas mas estava bem em termos respiratórios. A multidão era imensa, milhares e milhares de pessoas sempre a apoiar quem corria. Impressionante a envolvência que a cidade tem com a prova. Passei debaixo das portas já abaixo de 4 min/Km e eis que fico surpreendido com o que vi. As bancadas que na noite anterior tinha visto ali montadas, estavam completamente cheias de gente a bater palmas sincronizadamente. Cansaço, nem pensar. Aquilo foi um anestesia geral. Sprintei como acho que nunca o fiz, levantei a cabeça e fiz os 200 metros de corrida mais agradáveis da minha vida. Se não estivesse a tentar fazer o meu melhor tempo, acho que abrandaria o mais que pudesse para poder apreciar aquele deslumbrante espectáculo. Desde as portas que deixei de olhar para o meu relógio para que ele não me desmotivasse, pensei em correr e no final veria no que dava, eu sabia que estava no limite de Paris. Olhei para o relógio oficial que marcava 3h19m e alguns segundos. Eu sabia que teria 2 minutos a serem descontados devido ao delay da partida. Agora só me faltava dar uns passos, levantar os braços, apontar o número três ao céu e sentir toda a emoção de ter terminado uma das maiores maratonas do mundo, estabelecendo a minha melhor marca pessoal com 3h17m46s de tempo oficial.

AGRADECIMENTOS

À minha família (Ana, Gonçalo e Francisco), que tão sacrificada é durante todas as semanas de preparação e pelo apoio incondicional que me dão.

Aos meus colegas de clube que fizeram parte da comitiva, José Carlos Costa, Conceição Grare, Filipe Lemos, Manuel Mendes, João Mota Freitas, Jorge Oliveira, Rui Pinto e ao Luis Pires.

Um agradecimento especial ao Geraldino Silva por nos ter acompanhado, sabendo de antemão que não iria poder correr. Com a sua experiência tornou-se um apoio fundamental para toda a comitiva.

Ao Abel Cardoso e ao João Vieira que não nos puderam acompanhar, mesmo estando inscritos. Para eles a maior força. Contamos convosco na próxima.

A todos os quantos treinaram comigo nos dias quentes de verão, com uma palavra especial para o Marco Silva e para o Rui Correia, que me “deram cabo do corpo” nas séries.

À nutricionista Filipa Vicente pela ajuda que me tem dado, tanto a mim como a outros colegas de corrida. Sabemos a importância da alimentação na vida de um atleta e quando as coisas nos correm bem, sabemos que está também ali a “mão” de quem estuda e nos aconselha o que nos faz realmente bem.

Ao massagista Fernando Melo porque nunca acabei tão bem nem me senti tão bem após a prova.

Um agradecimento final para todos os que me telefonaram, me enviaram email’se SMS’s, tanto antes como depois da prova. Não vou indicar nomes porque além de serem muitos, posso esquecer-me de alguém.

CURIOSIDADES DA PREPARAÇÃO

Duração: 14 semanas
Quilómetros percorridos: 925
Nº. de treinos previstos: 70
Nº. de treinos cumpridos: 65 (92,8%)
Nº. de horas: 80
Locais: Porto, Matosinhos, Vila Nova de Gaia, Valongo  e Alcácer do Sal
Equipamento: Sapatilhas Asics GT 2130 e Asics GT  2140, relógio Garmin Forerunner 305.

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Vídeo da minha chegada

A minha prova no Garmin Connect

Classificação dos Atletas Portugueses

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Sobre Vitor Dias

Autor e administrador deste site. Corredor desde 2007 tendo completado 54 maratonas em 15 países. Cronista em Jornal Público e autor da rubrica Correr Por Prazer em Porto Canal. Site Oficial: www.vitordias.pt
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