E os últimos classificados não são gente?

Autor: Vitor Dias  /   Abril 22, 2009  /   Publicado em Notícias
Tempo de Leitura: 2 minutos

Está ainda enraizado na mente dos portugueses e não só, que a única finalidade existente nas provas de corrida é vencer ou ganhar algo.

Tal como já aqui escrevi no artigo “em que lugar ficas-te?“, existe ainda a ideia por parte do público não corredor, que a única finalidade de uma corrida é ganhar algo de material. Já pensamos por exemplo que nas provas de fundo e meio fundo, onde a lista de participantes já anda na casa dos milhares, que apenas uma dezena de atletas (se tanto) pensam ser possível ganhar a referida prova?

E nós atletas de pelotão, não mereceríamos mais destaque do que aquele que nos é dado?

Vou dar-vos um exemplo muito concreto daquilo que eu acho respeito pelo atleta de pelotão:

O Jornal francês L’ Equipe, editou no dia seguinte à Maratona de Paris, um suplemento especial de 43 páginas, dedicado exclusivamente a esta prova. Nele constam as classificações de todos os atletas, fotos aleatórias dos atletas ditos não consagrados e para mim o mais especial de tudo, a primeira página.

Na mesma consta a foto da partida, com os Campos Elísios repletos de corredores, com os seguintes dizeres “30.332 À L’ARRIVÉ” seguindo-se os nomes do primeiro (Vicent Kipruto) e da última classificada (Takako Kokubum) e os respectivos tempos de cada um deles.

O facto de fazer referência ao último classificado (que termou com 6h45m), não passou despercebido a quase ninguém a quem eu mostrei o jornal, facto que demonstra que de facto, isto não é um costume no nosso país.

Mas esta falta de sensibilidade por quem não corre para ganhar (mas que paga boa parte das custas das provas), não fica por aqui e o mais grave é que vem das próprias organizações da provas. A título de exemplo, vejamos as maratonas portuguesas. Qualquer atleta que não chegue à meta até à entrega dos prémios, pode contar com um silêncio quase sepulcral no momento em que atingiu o seu objectivo e porventura o seu maior feito desportivo. Duvido que alguma vez o “speaker” destas provas esteja de serviço para além de 2 horas após a chegada do primeiro classificado. E os restantes atletas que chegarão duas horas depois? Só são importantes até ao momento em que se inscrevem?

Outra situação que me é contada por atletas que vêm na cauda do pelotão, são as “bocas” do público do género “desiste” ou mesmo “vai para casa lavar a loiça”. Como se isto não bastasse, há ainda o incentivo à desistência por parte dos bombeiros que normalmente seguem atrás dos últimos classificado da provas.

Esta mentalidade mudará? Tem vindo a mudar ao longo dos últimos anos? Deixo aqui o convite a que comentem esta mentalidade portuguesa e não só e que deixem aqui os vossos relatos com situações idênticas às acima descritas.

Sobre Vitor Dias

Autor e administrador deste site. Corredor desde 2007 tendo completado 54 maratonas em 15 países. Cronista em Jornal Público e autor da rubrica Correr Por Prazer em Porto Canal. Site Oficial: www.vitordias.pt
Milaneza

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