Asma, Alergia e Desporto: um “triatlo” duro de vencer

Autor: Ana Maria de Freitas  /   Janeiro 16, 2009  /   Publicado em Lesões e Doenças
Tags: alergias, asma, desporto, lesão, Miguel Indurain, Nuno Marques, rosa mota

Asma, Alergia e Desporto: um “triatlo” duro de vencer

A asma é uma doença do foro respiratório. Consiste numa inflamação crónica a nível dos brônquios, geralmente associada a uma obstrução generalizada das vias aéreas, que em indivíduos mais susceptíveis pode provocar episódios de dispneia (falta de ar), pieira (ruído tipo assobio; “gatinhos”), sensação de aperto torácico e tosse com maior incidência no período nocturno e início da manhã. A sua reversibilidade pode ser espontânea ou medicamentosa.

Existem factores desencadeantes da asma, tais como:
• Aero-alergéneos: pêlo de animais; pólens; fungos; pó domiciliar; ácaros domésticos existentes nos colchões, tapetes, almofadas e roupa da cama;
• Infecções víricas;
• Irritantes das vias aéreas: tabagismo (passivo e activo); poluição ambiental;
• Produtos químicos;
• Frio;
• Exercicio;
• Estados emocionais.

Estes factores são na realidade importantes para o processo de manifestação da doença, no entanto, devemos salientar a predisposição genética para todo o indivíduo que tenha uma história familiar de asma ou atopia (rinite alérgica, conjuntivites, dermatites) pois mais rapidamente pode vir a apresentar a sintomatologia da doença.

No entanto, devemos considerar que a asma nem sempre é fácil de diagnosticar, atendendo a que a sua sintomatologia é em muitos casos semelhante a outras patologias respiratórias. Um exame de avaliação da função respiratória, como a espirometria – teste que permite medir o volume de ar inspirado e expirado e os fluxos respiratórios -, a confirmação da reversibilidade dos sintomas com medicação e a história da crise bem como os factores a podem ter desencadeado, auxiliam o médico a estabelecer o verdadeiro diagnóstico. Alguns exames complementares de diagnóstico, tais como um simples Rx torácico ou um Tomografia Computorizada (TAC) permitem que o médico afaste a hipótese de outras patologias.

A asma tem episódios de maior exacerbação, aquilo que vulgarmente denominamos por crise asmática. A gravidade da situação varia de pessoa para pessoa e ao longo do tempo. Os episódios podem ser de maior ou menor gravidade e são controlados por medicamentos. Os mais utilizados são os broncodilatadores (que se apresentam sob a forma inalatória e comprimidos) e os anti-inflamatórios corticosteróides. Também as vacinas de dessensibilização são frequentemente utilizadas, com maior incidência nas fases da infância e adolescência. Claro que todas estas prescrições são da inteira responsabilidade médica e variam de indivíduo para indivíduo.

Asma, Alergia e Desporto: um “triatlo” duro de vencer

A alergia é uma situação na qual o sistema imunológico do indivíduo reage a uma substância como se fosse nociva e que se encontra no meio ambiente. Uma pessoa pode ter asma, alergia ou ambas as situações. O que acontece na realidade, é que a maioria das crianças asmáticas, bem como metade dos adultos com asma, sofrem de alergias.

Podemos dizer que o mecanismo das reacções alérgicas e da asma são semelhantes: o sistema imunológico reconhece de uma forma errada determinadas substâncias como sendo nocivas ao organismo e consequentemente, liberta elementos inflamatórios (histamina, citocinas e leucotrienos) que podem provocar sintomas como pieira ou espirros. De referir que a diferença que existe entre a alergia e a asma é que a primeira engloba um vasto campo de manifestações, como por exemplo a rinite alérgica, conjuntivite alérgica e dermatite, enquanto que a asma refere-se apenas a uma condição dos brônquios.

As alterações do foro respiratório podem comprometer a prática de exercício físico. Quando o exercício se inicia, a respiração altera-se, tornando-se mais rápida, de forma a poder responder às necessidades do organismo. O ar inspirado deve entrar pelo nariz de forma a ser filtrado, aquecido e humedecido de forma a chegar aos pulmões nas melhores condições. Quando este processo não se verifica, implica que o ar chegue aos pulmões sem ter o tempo suficiente para aquecer e humidificar ao longo das vias aéreas. Estas vão perder água e calor, o que em pessoas mais susceptíveis, pode conduzir a um broncoespasmo (aperto dos brônquios). Desta forma os brônquios podem reagir, iniciando-se um processo inflamatório com produção de muco, o mesmo acontece para aqueles que tem uma rinite alérgica, pois nestas circunstancias o nariz está obstruído e consequentemente o indivíduo passa a inspirar pela boca (e não pelo nariz), logo o ar não é humidificado nem aquecido, o que vai agravar consideravelmente a situação.

Na realidade, a prática de exercício fisco é um grande estímulo para a indução de sintomatologia respiratória num doente asmático. A asma induzida pelo exercício (AIE), é uma crise asmática, onde o indivíduo refere tosse, pieira e sensação de aperto torácico, e que surge com a intensidade do exercício. Sabemos que existe um elevado número de desportistas que apresentam estes sintomas durante ou após a prática do exercício. Por outro lado, muitas pessoas com alergia mesmo que habitualmente não tenham asma podem manifestar sintomas da doença quando fazem exercício. Em regra os seus sintomas aparecem logo no inicio do exercício e tende a agravar nos 15 minutos seguintes.

Como pode o exercício físico “viver” com a Asma?
Uma das maiores problemáticas é na realidade conciliar a prática do exercício físico com uma situação em que existe um problema respiratório. Se o exercício aumenta, a respiração altera-se de forma a poder responder às exigências da situação na qual se encontra. Sabemos que os médicos são frequentemente confrontados com decisões de aconselhamento relacionado com o tipo ou modalidade desportiva para um doente asmático.

Em tempos remotos os doentes que carregavam consigo o “fardo” da asma, viam a sua actividade física demasiadamente limitada, devido ao facto de existir o medo de desencadear uma crise aquando a actividade física. Actualmente isso não se verifica. A asma é uma doença que pode ser controlada medicamente, desde que seja feito um plano adequado à pessoa, independentemente da idade que tenha. Desta forma o doente asmático pode e deve praticar a sua actividade desportiva preferida ao mesmo nível de um indivíduo não asmático, mesmo a nível competitivo e olímpico! Podemos referir alguns atletas famosos em todo o mundo que tiveram a asma como companheira do seu quotidiano, são eles o ciclista Miguel Indurain, a corredora Rosa Mota ou o tenista Nuno Marques.

Apesar de tudo podemos considerar que existem modalidades desportivas consideradas de maior risco ou mais vulneráveis, são elas os desportos ao ar livre ou mais expostos ou frio (ciclismo, desportos de inverno), a natação e o atletismo, principalmente os corredores de fundo, pois os pulmões são forçados a trabalhar arduamente e serão estes indivíduos que mais rapidamente poderão desencadear uma crise asmática. A natação é um bom desporto para aqueles que tem asma, na medida em que tem factores positivos: a atmosfera que lhe proporciona é húmida e quente, facilita o treino muscular dos músculos respiratórios e a posição horizontal mobiliza a expulsão do muco. No entanto, o contacto com o cloro existente na água pode ser comprometedor para a parte respiratória e ser um factor desencadeante de uma crise.

Torna-se, fundamental melhorar a eficácia e a eficiência da prestação de cuidados de saúde ao doente asmático, de forma a melhor o habilitar e capacitar a autocontrolar a sua doença. Encorajar a prática de qualquer modalidade será um benefício para o seu praticante. A asma não é uma contra-indicação para praticar desporto, antes comporta inúmeros benefícios para os doentes. O sedentarismo, pode ter consequências nefastas para a saúde, pois sabemos que conduz ao excesso de peso e à obesidade, e estes factores estão associados a um pior prognóstico da asma.

Em termos conclusivos, torna-se imperativo terminar com o mito de que o exercício físico é prejudicial para os asmáticos. A ignorância, a ausência de um correcto diagnóstico, uma fraca adesão ao tratamento prescrito pelo médico e um mau controlo da doença, faz realmente mal à saúde de todos aqueles que são portadores da doença. A asma não deve ser de forma alguma, um impedimento para a prática de qualquer actividade física. Seja um desporto de lazer, de alta competição ou uma simples aula de educação física deve ser praticada por todos aqueles que apreciam a sua prática.

Ana Maria de Freitas
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