Entrevista com Eduardo Santos

Autor: Vitor Dias  /   Dezembro 15, 2008  /   Publicado em Entrevistas
Tags: audio, eduardo santos, entrevista, Entrevistas, o mundo da corrida
Tempo de Leitura: 8 minutos

Entrevista com Eduardo Santos

Leia o que nos tem para dizer uma pessoa que tem dado muito ao atletismo e à corrida em Portugal. Corre há 40 anos, já fez 35 maratonas, criou um site sobre corrida há 10 anos, um fórum há 3 e este ano criou mesmo um clube de corrida. Pode conhece-lo aqui e quem sabe ao vivo no próximo ano em algumas provas que irá organizar.

Nome: Eduardo Santos
Idade: 52 anos
Peso: 60 kg
Altura: 1.67
Clube: O Mundo da Corrida

Profissão: Neste momento, estudante do curso de Educação Física e Desporto / Treino Desportivo / Especialização em Atletismo.
Actividades ligadas ao treino e ao Grupo O Mundo da Corrida.

Correr por Prazer (CP): Há quantos anos corre?
Eduardo Santos (ES): 40 Anos. Aos 10 anos organizava corridas na rua, mas foi por pouco tempo, depressa se fartaram de mim, porque ganhava sempre. Oficialmente (atleta federado), comecei a correr com 14 anos. O meu treinador na altura era o Professor José Araújo, figura ímpar no Atletismo Nacional, que, com 84 anos ainda mantém a sua actividade como treinador nas escolinhas José Araújo em Queluz. Quando pode ainda participa em minis e caminhadas. É sem dúvida um exemplo vivo de amor à modalidade, que todos devemos tomar em atenção.

CP: Como era correr nessa altura? Quais as diferenças mais evidentes para os dias de hoje?
ES: Havia poucas crianças a praticar Atletismo. Os treinos de corrida contínuos que efectuava na antiga pista do Benfica (onde é agora o terminal de autocarros do Campo Grande), eram feitos com os atletas mais velhos, lembro o José Abreu, o Tavares da Silva, o Pedras, o Cidálio, entre outros.
Existem como é evidente, grandes diferenças nas metodologias de treino usadas nas camadas jovens, embora compreenda que há 40 anos o objectivo de um determinado exercício, era o mesmo de hoje, tinha de se trabalhar e suar mais para um resultado idêntico ao de hoje.

Com a evolução das escolas de fundo e meio fundo, e grandes progressos a nível dos saltos e lançamentos operados principalmente na Europa, a partir dos anos 80, consegue-se hoje atingir bons resultados com menos trabalho que nos anos 60 e 70.
Aprimorou-se as metodologias existentes em termos qualitativos, diminuindo demasiado a quantidade em vários sectores.
O fundo e o meio fundo Português veio por aí abaixo até hoje.
Em contrapartida, deram-se avanços consideráveis nos saltos e lançamentos.

A maioria dos clubes, com os grandes à cabeça queria apenas crianças ganhadoras, com grandes aptidões, para a prática da modalidade. Lembro-me dos “1ºs Passos” do Sporting onde de um mar de jovens, apenas ficavam os três primeiros num teste de 1000 metros.
Esta postura dos clubes funcionou durante anos como uma alavanca inibidora da prática do Atletismo, junto das crianças menos aptas.
A Mocidade Portuguesa, como entidade mobilizadora (do regime vigente), juntava milhares de jovens, mas as suas estruturas funcionavam mal, a sua organização era precária nos objectivos e apenas funcionava para mostrar multidões na televisão.
Hoje, o Desporto Escolar está em franca progressão e em muitas escolas do País, já se começa a sentir grandes mudanças na modalidade.
As Associações Regionais estão também a fazer um trabalho importante junto das camadas jovens.

CP: Quantas maratonas já fez, quando e qual foi a primeira e qual a sua preferida?
ES: 35 Maratonas, Lisboa (7, com a do Luís Sousa), Paris (4), Londres, Nantes, Sevilha (2), Valência, Valência de Alcântara, Palma de Maiorca, Galiza, Badajoz (2), Santiago de Compostela, Spiridon (2), Coimbra, Almeirim, Granada (2), Les herbies, Toral, Gold Carlos Lopes, Transestrela, Tapete (Ginásio), Porto (2).

32 para tempos entre as 2.21.47(Sevilha) e as 2.55
3 para mais de 3 horas (Transestrela e Lisboa 2003 e Gold Carlos Lopes)

A primeira foi em Dezembro de 1983 no autódromo do Estoril, numa organização da Spiridon. Fiz 2.47.27, no ano seguinte estava a fazer 2.36.14 na maratona Nacional em Almeirim e em 1985 também na maratona Nacional, mas em Coimbra, 2.23.14.

É difícil nomear a maratona preferida, mas vou tentar por partes!

Em termos de público e participação: Paris
Em termos de percurso: Londres
Em termos de organização: Porto
Em termos de paisagem: Continuo a preferir a minha cidade. Lisboa

Portanto, a minha maratona preferida seria um pouco destas todas, ou seja, o percurso de Londres, com o público (200 mil) e atletas (35 mil) de Paris, a organização a cargo do Porto, e o Tejo a agraciar os atletas.
Seria certamente uma grande maratona, muito perto da perfeição!!!

CP: Qual a prova portuguesa sua preferida?
ES: Outra pergunta difícil!
Desculpem-me os apologistas de que só falo em distâncias longas, mas vou escolher duas meias maratonas e a Corrida das Festas do Porto.
Penso que a Meia Maratona de Ovar, a Meia Maratona de São das Lampas e a Corrida das Festas do Porto estão muito perto da perfeição em muitos factores.

CP: Onde costuma treinar, e quantas vezes treina por semana?
ES: Mata Nacional dos Medos (Caparica), Mata da Apostiça, Praia (Caparica), Pista da Sobreda, Estádio Universitário e Estrada (margem sul).
Corro todos dias, excepto em alturas de crise…

CP: Com tanta experiência, como sugere que consigamos explicar a quem não corre que corremos por prazer?
ES: Não é uma tarefa fácil! E mais difícil se torna, quando se trata de pessoas que fumam, bebem, comem em excesso. Mas, já consegui modificar a vida de muitos, e hoje estão agradecidos por serem pessoas diferentes do que eram.
Na abordagem com essas pessoas temos de saber usar a inteligência, principalmente com aqueles que dizem, que nem a escada conseguem subir…Temos de efectuar uma aproximação lenta e por etapas. Um convite para uma pequena caminhada, uma pequena mini, geralmente é aceite ao fim de várias tentativas.
A companhia nestes casos é bastante importante e aí podemos aproveitar para os incentivar com as nossas histórias de corridas, dar a perceber que o nosso prazer, pode ser o deles também. Estes pequenos diálogos mais tarde podem funcionar como um empurrão da caminhada para a corrida.

CP: Apesar de estarmos ainda muito longe do que se passa no estrangeiro, pensa que a corrida em Portugal tem evoluído?

ES: Sim, a nível lúdico, quase em todas as modalidades.
Nota-se mais na corrida, porque junta multidões!
Grandes massas humanas de participantes no Porto, Lisboa, e noutras cidades, em provas semi-competitivas e de solidariedade, são um sinal importante de que a situação está a mudar. Aqui temos de dar os parabéns aos seus organizadores.

A outro nível, acabámos de ter em Lisboa uma maratona com mais de 1000 atletas chegados, o que, apesar de a maioria serem atletas estrangeiros, não deixa de ser um sinal positivo para o nosso País.
A nível escolar e associativo notam-se francos progressos nas camadas jovens. O que pode significar um sinal de mudança a médio e longo prazo.

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A nível federativo e da alta competição, muito positivo os progressos havidos nos sectores dos Saltos e Lançamentos e extremamente negativo o quase desaparecimento do meio fundo e fundo Português a nível da Europa.

CP: Quais as principais lacunas encontradas em provas portuguesas?
ES: Não é de estranhar que as provas que mais agradam aos atletas, são as que são organizadas por atletas ou pessoas profundamente ligadas à corrida. Aí, mesmo com falta de apoios e patrocínios, há a sensibilidade de saber contornar as questões, para no mínimo não faltar o essencial.
Preços extremamente altos, para aquilo que se oferece. Pagar 6, 7 ou 10 euros e metade do pelotão não ter água para beber é uma fraude. As queixas para aqui ou para ali, conforme nos comunicam quando protestamos, não passam de uma brincadeira de mau gosto. Ninguém defende o atleta defraudado em relação ao pagamento que efectuou. Continua a ser uma ilusão no nosso País.

CP: Quais as principais razões para haver ainda tão pouca gente a correr e a praticar exercício físico?
ES: Falta de cultura desportiva, falta de infra-estruturas desportivas abertas ao cidadão (há poucos dias fecharam mais uma pista, agora aberta a preços inacessíveis à maioria, estou a falar da pista da Sobreda, pertencente à Câmara de Almada).
Pouca publicidade aos eventos que se realiza, faz com que as pessoas fiquem em casa, quando poderiam estar a assistir e assim sentirem-se incentivadas mais tarde a praticarem.

CP: Qual a melhor forma de convencer uma pessoa que não corre e que está na indecisão de o fazer ou não? Correr com ela? Leva-la para o clube? O que sugere?
ES: Há muitas estratégias para convencer uma pessoa indecisa a iniciar a prática da corrida. Teremos de conhecer bem as suas manhas e fragilidades e tentar mostrar todos os benefícios da corrida.
Numa primeira fase, depois do convencimento, será importante o acompanhamento em todas as sessões. Este deve ser cuidado e ao sabor de quem se inicia, será o seu andamento que irá ditar a sua continuação.

CP: O Eduardo é o autor e administrador do site www.omundodacorrida.com. Quando surgiu essa ideia e quais os objectivos iniciais?
ES: Desde 5 de Outubro de 1998, ou seja 10 anos (fórum 3 anos). Surgiu de uma forma muito simples, uma série de amigos que me pediam esclarecimentos (sobre treino, alimentação, etc.) diários e semanais por e-mail e telefone, lançaram a dica do site. Depois de muitas voltas na almofada, lancei-me nesse objectivo e a 5 de Outubro de 1998 nasceu O Mundo da Corrida.
O objectivo inicial era (e continua a ser) informar aqueles que se querem iniciar na corrida.
Inicialmente através de uma secção no site que era a Tribuna dos Navegantes, hoje o Fórum O Mundo da Corrida executa e assume esse papel de uma maneira eficaz e algo surpreendente.

CP: Estão a ser cumpridos esses objectivos?
ES: Sinceramente, penso que sim! Principalmente a partir da fundação do fórum.
Quero aproveitar a ocasião para agradecer a todos quantos têm contribuído para que esse trabalho esteja a ser efectuado com algum rigor e profissionalismo. Obrigado a todos.

CP: Em Maio passado, sei que fundou a Associação o Mundo da Corrida. Porque o fez e qual o objectivo desta associação?
ES: Faltava algo, havia o sonho da equipa O Mundo da Corrida. Muitos utilizadores do site e fórum, sem equipa, mostravam interesse em representar o sítio que usam para descarregar as suas palavras, as suas ideias. Havia que definir estratégias.

A aposta desta Associação, para além de prestar aos cidadãos a possibilidade de participarem em actividades que garantam o seu bem-estar físico e intelectual e de possibilitar aos seus atletas boas condições de participação nas competições, tem também que apostar na formação. Esse é um desafio que urge vencer!

CP: O que deve fazer uma pessoa que queira pertencer à vossa Associação?
ES: É só dirigir-se ao site em: http://www.associacaomundodacorrida.com/index.htm
E preencher o formulário aí existente.
Neste momento, continuamos à procura de um patrocinador que nos garanta a estabilidade financeira.

CP: Este ano organizou uma prova muito sui generis que foi o Lisboa – Fátima em estafetas? Conte-nos como tudo aconteceu (atletas, apoios, etc.), se valeu a pena e se pensam repetir.
ES: Esta foi a 2ª edição, porque em 2007 realizámos uma ida a Fátima, pela Margem Sul, que acabou mal, a cerca de 12 km de Fátima.
Mais bem preparados, rectificados alguns erros da edição anterior e com o apoio de quase todos os membros da Associação e de muitos amigos, lá estávamos dia 3 de Maio, pelas 5 horas da manhã no Parque das Nações para cumprir o nosso objectivo.
Deixo aqui as palavras do Fernando Fonseca, um dos obreiros desta aventura, escritas no dia 6 de Maio no fórum, e que transcrevem na integra o nosso sentimento por este evento.

«… Grandes ilações se tiraram deste DIA que nos vai concerteza marcar a todos para a VIDA: A UNIÃO, O ESPIRITO DE ENTREAJUDA, CAMARADAGEM, FORÇA, DEDICAÇÃO, AMIZADE, SIMPATIA são valores que no nosso dia a dia nos vão passando ao lado.
…..
Depois das horas vividas em conjunto…depois de termos sentido de Corpo e Alma que Momentos como estes fazem com que as nossas vidas tenham mais sentido…depois de toda uma mistura de sentimentos…de sorrisos…de silêncios…de olhares…de pequenos diálogos, chegámos à conclusão de que realmente a vida vale a pena por momentos como estes que passámos juntos.»

É para continuar!!!

CP: Planos para um futuro próximo (organização de provas, convívios, etc.)
ES: A nível de provas temos para 2009, em Março um trail no Cabo da Roca, em Abril a 2ª edição dos Caminhos do Tejo (em reformulação), a 24 de Maio a 1ª Meia Maratona Portuguesa em areia, no areal da Costa da Caparica, E em Outubro a 2ª edição da Corrida Terras do Grande Lago prova que foi do agrado geral.
A continuação dos eventos de orientação para crianças e as 12 caminhadas anuais. É possível ainda que o ano de 2009 nos traga o nascimento de mais eventos a nível de distâncias mais curtas, para crianças e adultos.

A nível de treinos, um calendário fixo dos nocturnos, 12 nocturnos em 2009.
A continuação dos treinos do anfitrião, alargando o seu âmbito a outras zonas do País.
A manutenção dos convívios dos Santos Populares e Natal

A Realização do 4º Encontro do Fórum O Mundo da Corrida, dentro do âmbito para que ele nasceu. Debater ideias sobre a nossa modalidade.

Eduardo Santos

Sobre Vitor Dias

Autor e administrador deste site. Corredor desde 2007 tendo completado 54 maratonas em 15 países. Cronista em Jornal Público e autor da rubrica Correr Por Prazer em Porto Canal. Site Oficial: www.vitordias.pt
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