Entrevista com Conceição Grare

Autor: Vitor Dias  /   Dezembro 01, 2008  /   Publicado em Entrevistas, Mulher Corredora  /   6 Comentários

Entrevista com Conceição Grare

Quem é atleta de pelotão há alguns anos, dificilmente não conhece esta senhora, que corre com um prazer que irradia todos quantos a rodeiam. Saiba algo mais acerca desta nossa colega que há 2 meses atrás resolveu estrear-se na distância de 100 Km.

Nome: Conceição Grare
Idade: 55 anos
Peso: 47,5 Kg
Altura: 1,61 cm
Clube: Porto Runners


Correr por Prazer (CP): Há quantos anos corres com regularidade?
Conceição Grade (CG): Há 5 anos.

CP: Porque começas-te a correr?
CG: Por prazer (na altura desta pequena entrevista, a Conceição não fazia a mínima ideia do endereço deste site. Coincidências?…)

CP: Relativamente a outros países, em Portugal existem muito poucas mulheres a correr. Quais as principais razões?
CG: Falta de iniciativa e motivação. Penso que será também pelo facto das organizações que não fazem a distinção de escalões como acontece no sector masculino, englobando-nos apenas num escalão.

CP: Em quantas maratonas já participas-te?
CG: 10 maratonas

CP: Qual a melhor maratona em que participas-te e porquê?
CG: Foi a maratona de Paris em 2006. Foi aí que consegui o meu melhor tempo.

CP: Qual a tua meia maratona preferida em Portugal e porquê?
CG: A minha preferida é a Meia Maratona Sporte Zone no Porto. Gosto muito por ser na minha cidade.

CP: Qual a maratona que aconselhas a quem pretende fazer essa distância pela primeira vez?
CG: Sem dúvida a maratona de Paris.

CP: Porque razão decides-te correr recentemente os 100 Km de Milau?
CG: Pelo desafio (ver no final desta entrevista, um resumo da crónica da Conceição acerca desta prova)

CP: Qual o segredo para o excelente tempo que realizas-te nessa prova (9h43m)?
CG: Penso que foi o facto de ir relaxada e não pensar em tempos.

CP: Quantas vezes treinas por semana?
CG: Treino 5 a 6 vezes por semana.

CP: O que sentes quando por alguma razão ficas vários dias sem correr?
CG: Nada, porque acho que devemos também pensar no descanso.

CP: Pensas que tem evoluído a corrida em Portugal, no que respeita ao número de corredores e de provas realizadas?
CG: Sim. Há mais e melhores provas. Destaco a Maratona do Porto que tem melhorado consideravelmente de ano para ano.

CP: A maioria das provas em Portugal têm um único escalão para atletas femininos. Achas isso correcto?

CG: Acho isso uma grande discriminação e penso que é essa uma das razões para haver menos mulheres a correr. Quando vamos correr ao estrangeiro, há mais escalões e coincidentemente (ou não), há mais mulheres a correr.

CP: Que conselho queres deixar para quem está a pensar começar a correr ou que se está a iniciar nesta actividade?
CG: Que se encorajem e não percam a motivação, porque para além de nos fazer muito bem à saúde, fazemos muitas amizades.

CP: Nas provas não há quem não te conheça. Como ganhas-te tanta popularidade?
CG: Acho que deve ser porque para além de gostar de correr, gosto também muito de falar. Estas duas coisas juntas fazem com que faça muitas amizades.

OS MEUS PRIMEIROS 100 KMS DE MILAU (FRANÇA)

O meu primeiro agradecimento é para ti Jean-Claude que sempre me acompanhaste nas muitas horas de preparação, deste-me sempre palavras de carinho compreensão e muito Ânimo. Eu te dedico a ti grande “marido” esta vitória que também é tua.
Á minha Mãe, que desde pequena me ensinou o velho lema “Querer é poder” e me dizia: “se queres uma coisa, consegues, que trabalhar para a ter”, eu lutei e venci Obrigado Mamã.

Ás amigas e amigos do meu Clube Porto Runners que conheci graças ao Veloso, também quero deixar uma palavra de agradecimento, em especial para aos que me acompanharam nesta luta.

Zé Carlos, tu para mim foste como um rato, que começou a roer a minha pequena cabeça, quando após a Transestrela de 2007, numa esplanada de café com alguns dos nossos companheiros de luta, tu bebias uma cerveja eu bebia umas águas, dizias que ias fazer os 100 km, disse que eras louco mas no interior fiquei a sonhar também fazer os 100 Km, Obrigado companheiro.

Luís Pires, após teres terminado os teus 100 km de Millau e nos contaste com entusiasmo as maravilhas dessa corrida, senti muitas formigas nas minhas pernas e logo disse que também queria fazer. Luís, Zé Carlos e Oliveira deram-me logo força e animaram-me dizendo “Conceição tu também podes fazer”. Então comecei a pensar, se a Maratona de Estocolmo me correr bem, vou mesmo nisso.

O resultado foi mais que positivo, primeiro porque estava muito calor, segundo tive as esposas dos nossos atletas e mais uma vez o meu marido a darem-me força.

Mês de Junho, as duvidas continuam, sentia-me numa balança, de um lado o desejo de ir, do outro o medo, a decisão de ir a Millau é difícil.

O símbolo da justiça é a balança, e como que por encanto apareceu o nosso jurista Zé Carlos com uma proposta dizendo: -“Eu estou contigo, vou a Millau, vou te fazer companhia,” essas palavras para mim foram o mais importante, logo respondi “combinado vamos a Millau” em 27de Setembro.

Dia 24 Setembro, os preparativos para a partida deixam-me nervosa, a minha outra metade não pára a preparar a bike e a estudar a melhor forma de abastecimentos e apoio durante esta prova mítica. Como todos sabem, para ele, a bike tem de estar cinco estrelas.

Os telefonemas das nossas amigas e amigos não param a darem-me força e a dizer para ir com atenção, alguns diziam-me com preocupação: – Conceição pensa bem na tua saúde, todas estas chamadas me davam mais força e mais formigueiro nas pernas.

DIA 25 às 8.15, já estávamos prontos, eu e o meu marido para fazermos esta viagem de 1400 Km . Partimos do Porto para Millau onde chegamos ás 22.15. Para nossa surpresa e alegria também estavam a chegar ao hotel os nossos amigos Zé Carlos, Mendes e Adriano, lá falamos um pouco e fomos para os quartos, eu estava cansada e queria dormir (já passava das 22.15 o que para nós já era de madrugada, normalmente a esta hora já tinha dormido metade do sono).

Dia 26, depois do pequeno almoço, encontramos o Ângelo do NAM que também ia fazer os 100 km . Eu só pensava na prova, a minha cabeça não conseguia pensar em mais nada, queria ir ver o célebre Viaduto de Millau.

Mais uma vez obrigado Zé Carlos que me acalmaste dizendo: – Calma Conceição, não podemos ir a pé, fica a 5 km daqui e 10 km ida e volta, mas podemos ir de carro ver o percurso.

Lá fomos nós, quando comecei a ver as subidas fiquei atrapalhada (eu gosto pouco de subir) comecei logo a ter dores de barriga, quando chegamos aos 70 km eu disse para o Zé Carlos: – Pensas que eu vou poder fazer isto? Ele com aquela calma de jurista respondeu-me: – Conceição, tu vais fazer sem problemas, mas eu pensava nas subidas e dizia cá para mim, é pena não ter as pernas do Abel, para poder subir como ele.

Dia 27 dia, “ D “ adormecemos, nós que somos sempre pontuais, aconteceu adormecer logo neste dia, calculem como fiquei, “ começou mal o meu dia,“ tinha marcado com o Zé Carlos tomarmos o pequeno almoço na tenda da partida, como não apareci, ele é que nos veio acordar, fiquei toda stressada, ele como sempre com a sua calma e paciência só me dizia “temos tempo Conceição.”

São 9.20, lá estamos nós a fazer o primeiro controle de saída, e eu como sempre, a chatear os colegas com as minhas queixinhas “dói uma perna, não sei se vou acabar, dói a barriga, estava toda stressada, recebi muita força e ânimo, todos me diziam: tem calma, vais acabar, não vais ter problemas.

Chegou a hora da partida, 10.00 horas, ouço o tiro de partida, senti uma ansiedade, um bater do coração mais forte, um vazio interior e uma vontade de dar um berro, ao mesmo tempo uma alegria é uma sensação que não posso explicar é única pois sinto-me só e frágil.

Partimos de trás, eu tinha dito: Zé Carlos vou sempre contigo! Mais uma vez menti, desculpa, mas sabes como eu sou, com aquelas formigas todas!… fui na passada do Ângelo mas também por pouco tempo, ele estava rápido de mais para mim e eu comecei a ficar para trás.

Cheguei aos primeiros 6 km, o Jean-Claude deveria estar aqui! Fiquei surpreendida, era um mar de bicicletas misturadas com um mar de corredores!

Falo para mim, como é que vou encontrar o Jean-Claude? Calculem, eu Conceição com todo o meu stress no meio de tantos corredores e ciclistas sem ver o seu anjo da guarda!

Ando mais uns metros e lá estava ele, em cima da sua bika á minha espera, senti uma alegria e um alivio enorme, agora já tenho o meu companheiro de apoio, como gosto muito de falar fui sempre a falar com ele e com os outros atletas, dizendo chalaças e brincadeiras, comendo umas sandes e bebendo uns sumos, pois estava sempre com apetite.

Cheguei à maratona com 3.59.35 senti uma alegria enorme, pensei “estou rápida“ eu não tinha dito a ninguém, mas tinha posto na minha cabeça que gostava de fazer 10.10, isso devia de dar mais ao menos 4.20, mas sentia-me muito bem, só queria chegar ao tal viaduto de Millau.

Quando cheguei ao viaduto começou a parte mais difícil, as tais subidas.

Pobre Jean-Claude, teve de subir a pé ao lado da bike, eu continuei sempre a correr e a ficar muito orgulhosa, ouvia os outros concorrentes comentar “ela está com um passo muito bom.“

Chegamos aos 50 km, agora penso, só faltam 5 km para eu ter tantos km de corrida como anos de vida .

Chega os 60 km, digo ao Jean-Claude que fique ali, pois temos outra subida, ele responde-me: – Então tens de levar o teu frontal! Eu ri-me e respondi não preciso, quando passar por aqui outra vez serão 80 km e ainda vai estar de dia.

Chegamos aos 70 km, St Afrique, ai estava a roupa que tínhamos mandado para nos mudarmos, tivemos 26 graus durante a tarde, ás 23h00 previam 4 graus, como ainda era cedo eu não mudei de roupa, disse para enviarem para Millau porque não ia precisar.

Passados alguns km, surge um “milagre“, vejo eu na minha frente o nosso amigo Ângelo, começo a gritar por ele, (calculem aqueles meus gritinhos histéricos ) que prazer tivemos em nos encontrar, lá fomos os dois outra vez a subir, até que vimos o Zé Carlos que ia do outro lado mas com grande dificuldade, com muitas cãibras e dizia que ia desistir, mas ele com a força mental que tem foi continuando.

Nós, lá seguimos o nosso caminho no sentido da chegada, eu a controlar sempre com o relógio, e dizia para o Ângelo, vamos muito rápidos 5.10 estava-mos entre os 80 e 90 km e sabíamos que ainda tínhamos subidas, as nossas mentes superavam tudo.

Chegamos aos 97 km, o Ângelo aumentou ao andamento só o voltei a encontrar na tenda.

Eu ainda consegui fazer uma ponta final em grande, encontrei reservas para fazer um sprint final a 4.23 /min (ao fim de 100 km).

Terminei os 100 km com 9.43.40, fui chamada ao controle anti doping, vejam lá uma atleta do Porto Runners a passar pelo controle.

Amigas e amigos sinto uma alegria enorme que quero partilhar convosco. A vitória também é vossa.

Conceição Grare

Azores Triangle Adventure 2018

6 Comentários

  1. Antonio Vasconcelos 9 de Dezembro de 2008 14:02

    Simplesmente espectacular e bonito. A tua sinceridade, simplicidade e tenacidade estao bem patentes nas tuas palavras. Força Conceiçao Grare continua, és um lindo exemplo…
    (atletas do pelotão – 54 anos – Clube. Clinica Dentaria de Gaia)

  2. Fernando Nunes 23 de Setembro de 2009 23:50

    Li toda a tua entrevista, adorei pala tua força e alegria de viver e de estar na vida es um exemplo de vida desportiva, “as arvores morrem de pé”.
    Queria desejar-te os parabens pela tua bravura na prova dos 100 Km e da tua grande prestação da maratona de Paris.
    Os meus sinceros parabens
    Um bem haja Conceção Grare.

  3. Isabel Henriques 18 de Outubro de 2009 20:05

    Fantástico!!:) Parabéns, pela coragem e pela força!!

  4. valter verde antao 2 de Dezembro de 2009 15:50

    parabens!!! a conceiçao é uma força da natureza. nao a conheço pessoalmente,ma sou um fã da sua coragem e da maneira como esta e vê o desporto!!! felecidades!! bj

  5. Carlos Salgado 9 de Fevereiro de 2012 16:52

    Conceição…
    Não tenho palavras para expressar o prazer que tenho em correr ao seu lado. Li com atenção a sua entrevista, senti vários arrepios e reconheci-me aquando da Maratona Porto 2011. É um prazer chegarmos ao fim, e tal feito,devo-o a todos aqueles que fazem parte do PortoRunners, e a si, inclusivé, pela força com que disputa qualquer prova. Parabéns e, até um futuro próximo, noutra corrida da nossa vida. Carpe Diem.

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