Correr 100 km

Autor: Joao Meixedo  /   Janeiro 09, 2016  /   Publicado em Slider, Treino  /   6 Comentários

correr 100 kmSejamos realistas, não é normal correr 100 quilómetros seguidos. Para si pode até ser, mas no momento em que decidir contar aos seus amigos que vai cumprir essa distância mítica, prepare-se para ser imediatamente adjectivado de forma muito pouco elogiosa.

Haverá os que vão pôr em causa a sua saúde mental, os que temerão pela sua saúde física e ainda os que não entendem o porquê da necessidade de aceitar um desafio deste tipo. Com este último grupo não perca sequer tempo em explicações. Até pode ser que um dia venham a entender, mas o esforço terá de vir do lado de quem se dispõe a entender: é algo que não se explica.

Tal como defendi já em artigo anterior, a evolução do corpo humano dotou-o mecanicamente de características específicas de animal corredor, e fisicamente de capacidades únicas de resistência, de entre os restantes membros do reino animal. Dispomos de um tendão de aquiles, cuja função é a de ajudar na flexão planar, isto é: especificamente a de simultaneamente conferir equilíbrio enquanto potencia o impulso necessário à passada rápida, ou seja o passo de corrida. Quanto à resistência, atente-se na evolução de tribos como os bosquímanos do deserto do Kalahari, que caçam sem armas, perseguindo em passo de corrida moderada um animal mais rápido ao longo de dias inteiros, chegando a empreitada a atingir os 70 quilómetros. A presa, apesar de invariavelmente mais rápida e mais feroz, acaba por ser vencida pelo cansaço e pelo sobreaquecimento. É que os humanos dispõe de outra característica que favorece a actividade da corrida – o arrefecimento por meio da transpiração, pois ao libertarmos suor livramo-nos do excesso de calor produzido pelo esforço muscular.

Se no que diz respeito à saúde mental, a questão se coloca no exacto sentido contrário – a falta de corrida é que me deixa louco – resta-me então analisar a questão da preparação, que acredito seja o ponto consensual.

O conceito de evolução, a que me referi já neste texto mas a uma outra escala, deverá estar presente na nossa mente quando tomamos ou pretendemos tomar a decisão de avançarmos para distâncias cada vez mais longas. Efectivamente, com a actual febre das corridas – o malfadado running – há corredores de fim-de-semana que se lançam em desafios impensáveis ao cabo de meia-dúzia de meses de “experiência” na área, com as inevitáveis consequências que infelizmente adiante acabarão por constatar. A passagem de maratonista a ultramaratonista é um passo sério, que deverá surgir como uma evolução natural do corredor e nunca como uma necessidade de se poder mostrar o nosso mais recente feito nas redes sociais.

A preparação para a tarefa exige que se pense detalhadamente o desafio, dando a necessária atenção ao mais ínfimo dos pormenores. Uma das primeiras dúvidas que se nos coloca é a do número de quilómetros que deveremos correr para nos treinarmos para uma prova de 100km. Na realidade, deveremos focar-nos mais no número de horas de treino do que no número de quilómetros percorridos. Podemos manter velocidade alta nos treinos curtos, mas deveremos focar-nos essencialmente em treinos cada vez mais longos e lentos; isto é: demorados. A introdução de desnível em alguns dos treinos é também fundamental. Vá testando a alimentação nos treinos de maior duração; não faça experiências no dia da prova. A hidratação e a alimentação são fundamentais ao longo da corrida: beba sem sede e coma sem fome.

No caso de se tratar de uma prova em circuito ou com estações de vida, um detalhe importante é ter uma equipa de apoio, que na prática pode apenas ser uma pessoa amiga, que vai tratando do nosso equipamento e alimentação e que tenha sempre preparada uma palavra de conforto nos períodos mais complicados. Convêm não descurar roupas mais quentes, a vestir mal a temperatura ambiente desça abruptamente, mesmo que não tenhamos sensação de frio.

O tempo de preparação é muito variável de indivíduo para indivíduo, e poderá ser bem curto, se o historial do nosso corpo contar já com alguma maratona ou treinos mais longos nos dois ou três meses que antecedem a prova. Quanto à evolução entre distâncias é também uma decisão que apenas poderá ser tomada com base num aprofundado conhecimento do nosso corpo e da nossa mente. Deixo o exemplo do meu caso, em que passei da maratona de estrada para a maratona de montanha e daí para uma prova de 70 km, de onde me abalancei directamente para a distância de 140km. Saltei, pois, os 100km.

O essencial é avançar com autoconfiança em alta. É evidente que quando estiver na linha de partida, ou mesmo na véspera da prova, a tentar dormir, todas as dúvidas o assaltarão e pensará que ainda está a tempo de desistir. Afaste esses pensamentos. Lembre-se que foi isso que sentiu antes da sua primeira maratona, da sua primeira meia-maratona, da sua prova de 10km, ou mesmo quando pela primeira vez se equipou e saiu de casa para tentar correr os primeiros quilómetros, esgueirando-se pela porta das traseiras com receio de ser visto por algum vizinho que o achasse demasiado atrevido. Na realidade você recordava-se que correr era colocar um pé à frente do outro, mas naquele momento não saberia se aguentaria até à esquina mais próxima.

Lembre-se, pois, que no que diz respeito à preparação da mente, todos sabemos que correr longas distâncias consiste muitas vezes em colocar a emoção à frente da razão; e quanto mais longa e demorada é a jornada mais nos vamos apercebendo de que aquilo que procuramos, acima de qualquer realização física, é sermos transportados para um outro estado de espírito, um local distante onde o nosso corpo desiste de nos controlar e se rende ao poder da mente.

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A adrenalina é uma coisa boa!

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6 Comentários

  1. Fernando Henrique Gomes Silva 9 de Janeiro de 2016 20:43

    Parabéns João! Texto sensacional e motivador. Ainda tenho uma longa jornada de treinos e provas, antes de aventurar-me em tal distância, mas certamente é uma meta, e eu chegarei lá. Feliz ano Novo! Um abç

  2. Meixedo 9 de Janeiro de 2016 20:55

    Muito obrigado, Fernando.
    Quanto mais longa mais prazeroza, essa jornada. Não há que saltar etapas, mas antes apreciar ada uma delas. O caminho faz-se caminhando.
    Bom ano e boas corridas,
    JP Meixedo

  3. Manuel Emidio 13 de Janeiro de 2016 22:37

    Boas. Fiz 100 Km em Viana do Castelo, aos 50 anos, hoje tenho 64. Comecei, sofri, mas, acabei, 10 h e uns trocos. Começaram, cerca de 80 atletas e finalizaram uns 45. Hoje existe outra mentalidade e muita gente a correr,mas á 15 anos, não era assim. Para fazer os 100 Km, aconselho uma preparação de pelo menos 1-2 treinos de resistência de pelo menos 6-7h. Quem pensar fazer e acabar…é uma experiencia única para o resto da vida. Bons treinos. Manuel Emidio emidio@netcabo.pt

  4. Meixedo 14 de Janeiro de 2016 9:46

    Bom dia, caro Emídio.
    Obrigado pelo comentário e pela dice, vinda de quem sabe do que fala. Efectivamente “10 h e uns trocos” é uma belíssima marca.
    Hoje em dia, por vezes, esses treinos de 6 ou 7 horas acabam por ser substituídos por provas (normalmente de montanha) de duração semelhante ou até superior, corridas durante o período de preparação
    Uma vez mais, obrigado pelo testemunho.
    Um abraço,
    JP Meixedo

  5. António Pardal 15 de Janeiro de 2016 14:28

    Caro João Meixedo,
    Acabei de ler o seu texto “Correr 100 Km” e não consigo de estar mais de acordo com o que escreve.
    Por absoluto desafio pessoal, fiz o ano passado, aos 59 anos, os 100 Km do UTSM – Portalegre. No final, independentemente do tempo que não interessa nada (foi uma eternidade !), senti uma satisfação absolutamente indescritível e um estado mental para daquele a que a razão normalmente nos transporta.
    Direi que é o desafio total a todos os níveis do nosso ser.
    Mais uma vez, parabéns pelo seu texto.
    A. Pardal

    aalém da razão mas muito pessoal, sem publicitações sociais.
    maximizada pelo facto de para tal ter feito treinos “loucos” que chegaram a atingir quase 10 h num dia.

  6. Meixedo 16 de Janeiro de 2016 21:37

    Obrigado pelo seu comentário, caro António Pardal.
    Esse estado para o qual somos transportados, de facto não se explica, apenas se confirma com conversas cúmplices entre pessoas que já tiveram esse privilégio.
    Se quiser repetir, a de Lousada é já em Abril 🙂
    Até breve,
    JP Meixedo

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