Rupturas musculares

Autor: Joao Carlos Maia  |   Categoria: Notícias

Depois de termos falado sobre contraturas musculares, um problema secundário, muito associado a más posturas e à repetição continuada de um mau gesto técnico, vamos agora tentar perceber as rupturas musculares, uma condição clínica em si, mais rara do que possamos imaginar, e, no atletismo, muito associada aos músculos mais “dinâmicos”, nomeadamente os da barriga da perna, adutores e quadricipites.

Uma ruptura muscular pode ser causada pelo estiramento brusco dos músculos, pela contracção repentina quando em carga ou por um episódio de sobrecarga num período relativamente curto de tempo, como correr uma maratona por exemplo.

Desportos que requerem explosões de velocidade, como certas modalidades do atletismo, aumentam o risco de lesão. Assim como a fadiga muscular, pouca flexibilidade e a falta de aquecimento prévio à prática desportiva.

Todas as rupturas musculares podem ser graduadas de 1-3, consoante a gravidade da lesão:

  • O grau I corresponde a pequenas lesões (até 10% das fibras musculares envolvidas), também designadas de micro-rupturas.
  • No grau II existe lesão de até 90% das fibras musculares.
  • O grau III implica a ruptura de mais de 90% das fibras musculares ou uma ruptura completa. Estas últimas geralmente ocorrem junto à transição de músculo para tendão ou já no próprio tendão em si.

As rupturas musculares podem ainda ser apenas intra-musculares, ou seja, dá-se uma ruptura das fibras musculares, sem envolver a bainha muscular (fino tecido que envolve e protege cada músculo). Isso significa que o sangramento inicial pode parar mais cedo (em poucas horas) devido ao aumento da pressão dentro do músculo. O resultado é uma perda considerável da função e dor que pode levar dias ou semanas a recuperar. Não é provável a formação de um hematoma visível neste tipo de lesão, especialmente numa fase inicial.

A ruptura pode, em alternativa, ser inter-muscular, em que há uma ruptura do músculo e de parte da bainha que o rodeia. Isto significa que a hemorragia inicial vai demorar mais tempo a parar, especialmente se não colocar gelo. No entanto, a recuperação é muitas vezes mais rápida do que nas rupturas intra-musculares, pois o sangue e outros fluidos não estão confinados à bainha muscular, podendo ser reabsorvidos mais rapidamente. Um hematoma, que pode alastrar-se a toda a região próxima ao músculo afectado, dependendo da gravidade da lesão, é frequentemente observado.

Esteja alerta para os seguintes sintomas

Rupturas de Grau I:

  • Uma pontada de dor fina, bem definida, localizada a meio do músculo, que surge a primeira vez durante a prática desportiva.
  • Poderá ser capaz de continuar a correr com um desconforto ligeiro.
  • Tensão e dor localizados nos 2-5 dias depois da lesão.

 

Rupturas de Grau II

  • Dor aguda bem definida, localizada a meio do músculo, que surge a primeira vez durante a prática desportiva.
  • Dor ao caminhar.
  • Poderá formar-se inchaço no músculo.
  • Hematoma leve a moderado.
  • Tensão e dor localizada durante uma semana ou mais.

 

Rupturas de Grau III

  • Dor imediata e incapacitante, localizada a meio do músculo, que surge a primeira vez durante a prática desportiva.
  • Uma dor súbita, geralmente na junção musculo-tendão.
  • Hematoma e inchaço significativos
  • Nos casos de rupturas completas, muitas vezes pode ser visível a separação muscular sob a pele.

 

Uma boa avaliação, incluindo uma história clínica e exame atento da barriga da perna são geralmente suficientes para diagnosticar uma ruptura muscular. Uma ecografia ou RM podem ser pedidas para confirmar o diagnóstico e avaliar a extensão da lesão.

 

Tratamento

O tratamento em fisioterapia, nas primeiras 24 a 48 horas após a lesão e enquanto o diagnóstico não está confirmado, consiste e controlar os sinais inflamatórios, através de:

  • Descanso: Evite caminhar ou estar muito tempo de pé. Se tiver de o fazer utilize canadianas. Andar a pé pode significar um agravamento da sua lesão.
  • Gelo: Aplique uma compressa de gelo na área lesada, colocando uma toalha fina entre o gelo e a pele. Use o gelo por 20 minutos e depois espere pelo menos 40 minutos antes de aplicar gelo novamente.
  • Compressão: uma meia elástica pode ser usada para controlar o inchaço.
  • Elevação: A perna deve ser elevada um pouco acima do nível do seu coração para reduzir o inchaço.
  • Analgésicos e anti-inflamatórios não-esteróides poderão ser receitados pelo médico para controlar o processo inflamatório e aliviar as dores.

Após esta primeira fase, e com o diagnóstico confirmado, o tratamento irá depender da gravidade da lesão:

 

Ruptura de grau I: A reabilitação deve estar completa ao final de cerca de 2 semanas. O tratamento deve incluir:

 

Fase 2: Após as 1ªs 24 a 48 horas e até às 2 semanas

  • Alongamentos suaves dos músculos lesados, 2 a 3 vezes por dia.
  • Massagem de drenagem e de mobilização de tecidos.
  • Aplicação de ultra-sons.
  • Continuar o descanso das actividades que provocaram a lesão e a utilização de meia de compressão elástica no caso de a lesão ser nos membros inferiores.
  • Ao final da 1ª semana introduzir o fortalecimento muscular progressivo, incluindo exercícios em carga. À medida que for efectuando os exercícios sem dor reintroduzir a corrida.
  • Ao final da 2ª semana deve voltar à actividade desportiva e continuar por algumas semanas exercícios específicos de fortalecimento e alongamento do músculo lesado.

 

Ruptura de grau II: A reabilitação deve estar completa ao final de cerca de 4-6 semanas. O tratamento deve incluir:

 

Fase 2: Após as 1ªs 24 a 48 horas e até às 2 semanas

  • Continuar o descanso das actividades que provocaram a lesão e a utilização de meia elástica.
  • Alongamentos suaves dos músculos da barriga da perna, 2 a 3 vezes por dia.
  • Em vez de apenas gelo poderá aplicar durante 20 a 30 minutos quente e frio, alternadamente, 5 minutos cada, três vezes por dia
  • Deve iniciar um programa específico de reabilitação, orientado pelo seu fisioterapeuta

 

Fase 3: Semanas 3, 4, 5 e 6

  • Introduzir o fortalecimento muscular progressivo, incluindo exercícios em carga. À medida que for efectuando os exercícios sem dor reintroduzir corrida.
  • Ao final da 4ª semana deve ser reintroduzido o gesto desportivo em ambiente clínico, iniciar a corrida.
  • Na 6ª semana deve retornar à prática desportiva e continuar por algumas semanas exercícios específicos de fortalecimento e alongamento do músculo lesado.

 

Ruptura de grau III: A reabilitação poderá demorar mais de 3 meses em casos de ruptura completa. O tratamento deve incluir:

Se o músculo apresentar uma ruptura total o tratamento consiste na reconstrução cirúrgica. Se suspeitar de uma lesão grave deve parar imediatamente a actividade desportiva e dirigir-se ao hospital para ser avaliado. Se a ruptura for parcial será seguido o protocolo de reabilitação das rupturas de grau II, com a adaptação dos respectivos períodos de tempo.

 

Exercícios terapêuticos para uma ruptura parcial nos gémeos

 

Os seguintes exercícios são exemplos e são geralmente prescritos durante a reabilitação de uma ruptura parcial nos gémeos. Deverão ser realizados 2 a 3 vezes por dia e apenas na condição de não causarem ou aumentarem os sintomas.

 

 

 

 

 

 

 

Alongamento da cadeia posterior Sentado, com a perna a alongar esticada. Tente chegar com as mãos o mais abaixo possível. Mantenha essa posição por 20 segundos. Repita entre 3 a 6 vezes, desde que não desperte nenhum sintoma.

 


 

 

 

 

Flexão resistida do pé Sentado, com o elástico na ponta do pé. Puxe a ponta do pé para cima, depois deixe o pé voltar lentamente à posição inicial. Repita entre 8 a 12 vezes, desde que não desperte nenhum sintoma.

 

Reforço muscular dos gémeos Em pé, apoiado numa cadeira, coloque-se em pontas dos pés. Desça lentamente até todo o pé apoiar no chão. Repita este movimentos entre 8 a 12 vezes, desde que não desperte nenhum sintoma.

 

Antes de iniciar estes exercícios deve sempre aconselhar-se com o seu fisioterapeuta.

 

 

 

Referências

Counsel P, Breidahl W. Muscle injuries of the lower leg. Semin Musculoskelet Radiol. 2010 Jun;14(2):162-75.

Agre JC. Hamstring injuries. Proposed aetiological factors, prevention, and treatment. Sports Med. 1985 Jan-Feb;2(1):21-33.

 

Autor: João Maia

Fonte: www.fisioinforma.com

 

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23 Respostas a “Rupturas musculares”

  1. José António Freitas escreveu:

    Boa tarde

    Li atentamente todo o artigo e os meus comentários são:

    Na sequência dos artigos anteriores, mais um de notável valia técnico-científica, muito útil a qualquer pessoa, pratique ou não atletismo, mas ainda mais a praticantes da corrida.
    Os alongamentos prescritos, periodicidade e modo de execução, são excelentes.

    É um privilégio ter acesso a conselhos desta envergadura. Agradecimentos ao João Carlos Maia,

    José Freitas.

  2. Paulo Rodrigues escreveu:

    Mais um excelente artigo e muito esclarecedor!
    Parabéns!

  3. Joao Oliveira escreveu:

    famosas rupturas

  4. Joao Oliveira escreveu:

    famosas rupturas

  5. carla escreveu:

    Olá
    Vc tem alguma informação sobre lesão no tricipes do braço – ruptura de fibras, lesão tipoII. Já faz dois meses, mas o local continua com inchaço e dor. estou fazendo fisioterapia – ultrassom e tens e colocando gelo.
    agradeço a atenção

  6. Jeferson Pinheiro escreveu:

    to ficando velho.

  7. Fernando Silva Silva escreveu:

    GOSTEI PARABENS..

  8. Pedro Mac escreveu:

    Para mim vai ser muito útil, obrigado.
    Já agora e abusando um pouco…uma pergunta…posso andar de bicicleta durante a recuperação de uma ruptura de grau I/II?
    Obrigado

  9. Orlando Silva escreveu:

    Pratique atletismo durante alguns anos e este artigo está muito completo! Parabéns!

  10. Bartolomeu Cabral escreveu:

    obrigado parabens um abraço.

  11. jose angelo escreveu:

    gostei muito das informações,pena que eu não tenha visto a alguns anos atras,pois,ja tenho uma ruptura de grau 3 no musculo principal da coxa.gostaria de saber se da religar esse musculo através de cirurgia mesmo que o rompimento tenha acontecido à aproximadamente 4 ou 5 anos a lesão bem visivel e parece que a parte de cima vai atrofiando a cada ano.se puder me responder ficarei muito agracido.

  12. Fernando Duarte escreveu:

    Gostei tudo explicado de maneira simples e eficiente!ja sei o que fazer com minha ruptura parcial do tendão de Aquiles

  13. Fernando Duarte escreveu:

    Gostei tudo explicado de maneira simples e objetiva ja sei como tratar a minha ruptura parcial do tendão de Iarlen Aquiles

  14. Thiago escreveu:

    Boa Tarde, tenho uma ruptura de grau 3 no musculo adultor da coxa.gostaria de saber se da para religar esse musculo através de cirurgia mesmo que o rompimento tenha acontecido à aproximadamente 4 anos a lesão é bem visivel e quando contraio o musculo ela fica mais visivel ainda

  15. Vânia Marques escreveu:

    Boa explicacao…

  16. Vânia Marques escreveu:

    Filipe Caires esta e' para ti… :-P

  17. Filipe Caires escreveu:

    :-( Obrigado

  18. Filipe Caires escreveu:

    Acho que é uma rotura de grau II :-(

  19. cynthia escreveu:

    Estou fazendo contraturas musculares por repetição há mais ou menos 3meses. Estou com 48 anos, sempre fiz esporte e continuo , alternando a pratica da corrida , tenis , voley de praia e quadra. Ja parei por 2 semanas , aparenyemente melhorou , volto a jogar tenis , volei e derepente volto a sentir a lesão. Começou com a panturrilha e agora tb posterior de coxa. Não é sempre no mesmo ponto , é como se flutuasse cada hora num lugar. Tenho alongamento bom acima da media, exames de sangue sem alterações, e realmente não sei que profissional procurar. Gostaria de orientaçõa.

  20. João Maia escreveu:

    Olá Cynthia,

    O ideal será consultar um fisioterapeuta que avalie a sua lesão e estabeleça um plano de tratamento que inclua o retorno progressivo à atividade física.

    Atentamente

    João Maia

  21. FILIPE escreveu:

    PERGUNTO : TUDO O QUE FOI DITO TEM ALGUM EFEITO NUMA SENHORA DE 92 ANOS ? ESTÁ BEM MAS AS PERNAS NÃO AGUENTAM O CORPO . OBRIGADO

  22. Rosan escreveu:

    Durante uma aula de revezamento 4×100, tive gde. dor local em posterior da coxa. O Ultrassom diagnosticou descolamento músculo-aponeurótico de 1,5 cm. Como tratar, é grau II?

  23. Ney Wilson escreveu:

    estava jogando futebol e senti minha perna adormecer toda e parecia que estava sem perna cai no campo e fiquei com muita dor na coxa e no quadril parecia que eu estava com uma perna maior que a outra fui no medico e fiz ultra som foi constatado o rompimento do musculo da coxa bursa trocantérica em 0,38mm e agora desinchou tomei remedio 10 dias e fiz compressa com gelo 3 vezes ao dia mais ainda sinto dor e não posso forçar o que devo fazer e não posso mais jogar futebol.

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