Entrevista com Jorge Teixeira

Autor: Vitor Dias  |  Categoria: Entrevistas, Versões Audio

Conheça Jorge Teixeira, director de várias provas, entre elas a Maratona do Porto. Saiba como começou a sua vida ligada às corridas, assim como novidades que irão aparecer no ano de 2009.

Nome: Jorge Teixeira
Idade: 53 anos

Como e quando começou o seu contacto com o atletismo?

Pouco depois de eu ter casado, um cunhado meu (que até já nem corre), aparecia ao domingo de manhã todo envaidecido porque tinha acabado de fazer um treino. Ele começou a incentivar-me e um dia eu lá fui. Lembro-me que parávamos os carros onde é agora a “anémona” (Matosinhos), no café “A Cilinha”, deixávamos lá a chave e lá íamos nós. Eu no início corria do paredão de Matosinhos ao Molhe. Nada mais. A partir daí foi a conquista. Nessa altura, ao domingo à tarde eu ía passear de carro com a minha mulher e os meus filhos e mostrava-lhes o que eu tinha corrido de manhã. Cada semana que passava eu ía evoluindo. Até que um dia, meti-me na loucura de fazer a minha primeira meia maratona. Foi na Nazaré. Lembro-me que o controlo fechava às 2h30 e eu acabei com 2h26m. Claro que andei mais do que o que corri. É óbvio que quem foi comigo já pensava que eu tinha ido para o hospital ou coisa do género. Nessa altura percebi que eu é que não estava bem. Eu olhava para os outros e eles tinham 2 pernas como eu, um tronco e um corpo, porque é que eu não corria como eles? Mais ou menos 3 anos depois, estava eu a fazer a minha primeira maratona.

Corro há 30 anos. Aos 24 anos pesava mais 14 Kg do que o que peso agora, fumava 3 maços de cigarros por dia e bebia uma garrafa de whisky numa noite. Encontrei na corrida algo que é fantástico e fabuloso. Considero-me hoje uma pessoa com saúde, com muita saúde. Não corro por competição como o fazia há uns anos atrás, mas corro sempre que possível diariamente. Hoje, por exemplo, tive um daqueles dias tensos. Ao final da tarde, calcei as sapatilhas e lá fui dar a minha voltinha.

Há quanto tempo fundou a RUNPORTO.COM?

A RunPorto não tem muito tempo. Tem 7 anos.

Quais os principais objectivos da criação desta empresa?

A RunPorto nasceu na sequência do seu site. Eu trabalhava com uma empresa, a Atlética, que viria posteriormente a dar origem ao atletas.net. Resolvi separar-me desse projecto e falei com um amigo que disse ter a solução para mim. Essa solução passava pela Associação Portuguesa de Paralisia Cerebral. Fui então falar com eles e o que me disseram na altura, era que eu precisava de um site, Porto a correr em inglês (runporto.com), ao que eu perguntei, quem faria isso pois eu não o sabia fazer. Faço-o eu. E assim surgiu o site. Claro que o site tem que ter vida, pois é como um jardim, ou o regamos ou morre. Foi assim que comecei, a tratar dos conteúdos do site. Os patrocinadores para estarem fidelizados a um evento, procuram sempre um clube, e um clube que não seja Porto, Benfica ou Sporting, não existe. Daí a necessidade de a fidelização ter que ser feita a partir de uma empresa que mostre serviço. Penso que na RunPorto fomos criando uma imagem e uma massa crítica capaz de atrair esses mesmos patrocinadores.

Que provas organizam?

Organizamos a S. Silvestre do Porto, Maratona do Porto, Meia Maratona Sportzone, Corrida da Mulher (a primeira em Portugal), Corrida do Dia do Pai, Circuito Aurora Cunha, Grande Prémio de Argoncilhe, 25 de Abril de Gondomar, 25 de Abril de Rio Tinto e outras provas ditas pequenas. Durante estes 15 anos temos cerca de 70 organizações de provas.

Há novas provas em agenda para 2009?

Sim. Corrida do Homem e da Mulher (em Julho) e Corrida e Caminhada pelo ambiente (10 de Junho). Pensamos reunir nestas duas provas mais de 20.000 pessoas.

Quantos atletas participaram nos eventos por vós organizados em 2008?

Cerca de 100.000 pessoas. O nosso objectivo para 2009 é chegar aos 140 ou 150 mil participantes.

Há atletas de pelotão que não concordam com os prémios monetários atribuídos a veteranos. Fazem-no para atrair atletas ou porque acham merecedor?

Porque cada vez mais o pelotão é composto por veteranos, ainda na plenitude das suas capacidades físicas, acho que é justo que os mesmos sejam também contemplados, sendo certo que, por vezes alguns deles exageram, mas…

Nas provas por si organizadas, há controlo anti-doping para todos os atletas premiados?

Temos sempre controlo anti-doping efectuados aos primeiros da geral, sejam veteranos ou não.

Qual a prova que mais prazer lhe dá organizar?

Nenhuma em especial. Aquela que exige mais de mim, é a Maratona do Porto. Todas elas nasceram comigo. Cada prova é como se fosse um filho e nós não podemos gostar mais de um do que de outro.

A Maratona do Porto tem vindo a evoluir desde a sua criação, sendo da opinião geral a sua boa organização. Acha que algum dia ela poderá ser tão grande e tão emblemática como as restantes maratonas internacionais?

Emblemática pode ser, tão grande não. Temos que nos lembrar que Paris tem cerca de 10 ou 12 milhões de habitantes, Londres tem 16 milhões, Madrid tem 6 milhões. Temos que perceber o que é que é isto. Acredito sinceramente que a Maratona do Porto não tenha que esperar 23 anos para ter 1000 atletas.

Parece-me que está de alguma forma a fazer alusão à Maratona de Lisboa…?

Eu aplaudo a Maratona de Lisboa. Em Portugal ter-se 1000 atletas a correr a maratona, é de louvar. Aliás 1001, 1002 e depois 1003. Sem querer ser polémico, mas às vezes tenho que o ser. Se essa empresa (Xistarca) hoje não trabalha comigo é exactamente por causa disso. É que na S. Silvestre do ano passado, no dia 15 de Janeiro ainda estávamos a receber atletas que não estavam na classificação. Isto é, provavelmente nós nos tínhamos esquecido deles. Ter 1001 e depois, como eu vi no site 1002 e depois 1003 ou até 1004 não faz sentido. Parece que cada vez que eu vou ao site, já lá está mais um. Quero apenas dizer que daqui a 23 anos, se eu ainda for vivo, a Maratona do Porto, terá um bocadinho mais (pelo menos 1005).

Existe um grande impacto no turismo e na economia que rodeia as maratonas de Paris, Londres, entre muitas outras. Acha que as entidades nacionais e neste caso locais têm conhecimento desse impacto ou ainda não lhes conseguiram demonstrar esse facto?

Eu acho que Portugal vive neste momento uma crise de identidade no que respeita às pessoas que governam o nosso país e não só. As autoridades portuguesas e autoridades locais, ainda não perceberam o que é o produto de uma maratona.

Mesmo assim, dentro do não perceberem, honra seja feita à Câmara Municipal do Porto que tem tentado ajudar ou pelo menos disfarçar, isto é, ajudando timidamente. Se calhar não tem possibilidades para mais. Não sei. Eu acho que teriam muito mais capacidade de galvanizar a maratona a nível internacional que eu próprio.

Qualquer maratona, seja ela no Porto ou noutro local qualquer gera um turismo associado muito grande. As pessoas vêm correr, trazem as famílias e acabam por ficar mais uns dias, às vezes uma semana, ou seja, investem e geram riqueza, na região e no país. Eu não vejo o turismo da minha cidade a apostar na Maratona. Talvez nem saibam que a prova existe, ou então esquecem-se. Eu dou-lhe um exemplo. A garrafa de vinho do Porto que damos aos atletas, compramo-la. Gastamos milhares de contos nela. As pessoas devem de pensar que por ser um produto da região, que será ofertada por algum patrocinador, mas não é. Nós podíamos não a oferecer, a maratona fazia-se na mesma, mas pensamos que estamos a fazer bem à região ao oferece-la.

O que se passa é que as autoridades do nosso país estão cada vez mais viradas para Lisboa.

Eu costumo dizer que o país está cada vez mais inclinado. É por isso que quando chove muito, aquilo enche mais lá em baixo e nós somos os últimos a morrer afogados. Quero com isto dizer que os centros de decisão estão todos em Lisboa. Se queremos marcar uma reunião, temos que nos deslocar uma ou mais vezes a Lisboa e obviamente que isso trás custos que terão que ser deduzidos noutra parte qualquer.

Há a ideia que cada prova (seja ela grande ou pequena), que se organiza em Lisboa, dá em directo na televisão. Porque é que isso não acontece nas provas do Porto?

Porque não temos dinheiro. Um directo na televisão custa 150 mil euros. Se eu só tenho 100 mil euros para organizar a prova das festas da Cidade, que posso mais fazer? Não temos hipóteses. Então tenho que optar. Fiz um protocolo com a RTP e transmitem diferidos. Na minha opinião os directos nem se justificam. Quem tem particular interesse em ver as imagens são os próprios atletas, ora se eles estão a correr nesse momento, o melhor mesmo é dar em diferido para que eles possam ver à posteriori. Os directos só têm interesse pelo seu mediatismo, ou seja, o programa será altamente noticiado e anunciado, com as vantagens que daí advêm.

A cidade do Porto, no que respeita à sua população, é uma cidade alheada da maratona. Este ano viam-se mais estrangeiros que portugueses a assistir. O que tem sido feito e o que irá ser feito para colmatar esta lacuna?

Muito, só que demora tempo. Ou temos as pessoas a fazer a caminhada ou a ver a prova. Mesmo assim, não as estou a ver a sairem de casa para ver a prova passar. Não temos hipótese nenhuma que venha a acontecer o que acontece em Londres, Paris ou Berlim, onde duas horas antes das provas não se arranja um lugar no passeio para assistir às mesmas.

Lembro-me que quando fiz a minha primeira Maratona em Londres, ao regressar ao Hotel, até os polícias me cumprimentavam, eu, um simples atleta de pelotão… Isto em Portugal não existe. Eu dou-lhe um exemplo, os pescadores que estão na marginal, não lhes custava nada bater palmas aos atletas, mas nada daquilo lhes diz algo.

Têm que ser os atletas a trazer o público. É o que vemos os estrangeiros fazerem. Um exemplo, na última maratona do Porto, os franceses pegaram no mapa e conheceram o Porto. Durante a prova, foram de táxi até à marginal, e esperaram a passagem dos seus atletas. Atravessaram o rio de barco e apoiaram-nos na Afurada, regressaram de barco e apanharam o táxi novamente para estarem à chegada a aplaudirem os seus atletas novamente. Por isso é que vocês viam “coelhinhas” em todo o lado. Se você e eu formos a uma prova e levarmos a família, despedimo-nos no início e lá nos encontraremos outra vez no final. É outra cultura… Mesmo assim começamos a ter mais gente, principalmente na S. Silvestre do Porto.

Fale-nos da loja do corredor. Que valências possui e o que deve de fazer um atleta para usufruir dos seus serviços?

Primeiramente deverão consultar-nos. Temos uma loja na área do aconselhamento. Há consultas de medicina desportiva, fisioterapia ou podologia. Era um sonho que eu tinha. Um dia numa das reuniões que tive com a Câmara do Porto, apresentei o projecto como sendo uma loja que estivesse aberta ao público e que prestasse um serviço público, com pessoas conhecedoras no meio. Trata-se de colocar os conhecimentos por nós adquiridos ao longo destes anos em prol dos que estão interessados nesta matéria.

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6 Respostas a “Entrevista com Jorge Teixeira”

  1. Fernando Andrade escreveu:

    Excelente momento para que se conheça melhor este grande e criativo organizador de Provas de Atletismo. Pareceu-me, no entanto, que esta entrevista terminou de forma um bocado abrupta. Limite de tempo ? Irá haver uma 2ª parte ?
    Mas fostei bastante de ler. Parabéns a quem fez a entrevista e ao Jorge Teixeira, pelo seu incansável dinamismo.

  2. Vitor Dias escreveu:

    Olá Fernando

    Obrigado pela visita e pelo comentário. Tentei que a entrevista não fosse demasiado longa e naturalmente que fica sempre algo por dizer. No entanto, e caso algum leitor entenda formular alguma pergunta, poderá fazê-lo aqui em comentários que com certeza que o Sr. Jorge Teixeira terá todo o gosto em responder.

    Cumprimentos

  3. Jorge Cerqueira escreveu:

    Caro amigo Vitor, parabéns por abrir o seu blog para fazer entrevista com os organizadores de corrida é isso ae amigão o seu blog tá show ainda mais com vc correndo e mostrando este belo lugar ai em portugal.
    Quem sabe vc não venha um dia correr a São Silvestre aqui no Brasil, quem sabe vc não reviva um dia correndo as ruas de São Paulo por onde os Campões dai de Portugal correram que nem o Carlos Lopes e a Rosa Mota, eu só lhe digo uma coisa vc irar adorar meu amigo.
    Desejo a vc e sua familia um feliz 2009 com muita saude, paz e realizações em 2009 e que vc corra muitos KMs.
    Um abraço.

    JORGE CERQUEIRA
    http://www.jmaratona.blogspot.com

  4. Vitor Dias escreveu:

    Viva Jorge

    Obrigado pela visita a este meu espaço.
    Continue por aqui que haverá sempre muitas novidades.
    Quem sabe um dia vou aí…

    Cumprimentos

  5. Joaquim Nogueira escreveu:

    Boa Noite Vitor

    Nada melhor para começar o ano, que fazer esta entrevista ao Jorge Teixeira, pessoa a quem todos nós, que gostamos de correr, está grato pela constante melhoria nas organizações das provas.
    Quanto ao seu desânimo na falta de apoios das entidades locais, aconselho-o a não desistir, faça um apanhado do retorno que a maratona gerou, e apresente na altura certa. A titulo de curiosidade, quantos atletas estrangeiros vieram à prova?
    Os melhores cumprimentos a ambos, e até sempre.

    Joaquim Nogueira

  6. Início do ano em grande | escreveu:

    [...] também deixar de destacar a publicação das duas entrevistas que tanto interesse despertaram. Jorge Teixeira e José Moutinho foram os convidados, deixando-nos aqui testemunhos e vivências de vários anos [...]

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